OPINIÃO

A vida moderna está a dar cabo do desejo sexual

O sexo faz bem à saúde. Todos sabemos. Mas não é coisa que se faça por receita médica ou com frequência pré-definida em agenda. E parece que o desejo está a diminuir. A culpa, dizem os especialistas, é do stress profissional, do cansaço e do fascínio pelas novas tecnologias.

Texto de Sara Dias Oliveira
Fotografia de Shutterstock

Há estudos que chegam dos Estados Unidos que revelam que os norte-americanos têm menos relações sexuais hoje do que há uns anos. A geração dos 16 aos 25 anos tem menos sexo do que as anteriores quando tinham as mesmas idades. E a percentagem de gente sem parceiros sexuais aumentou de 6,3% em 1985 para 15% em 2010. Isto é o que se passa do outro lado do Atlântico.

E por cá? Por cá, a falta de apetite sexual ocupa tempo em consultas, os homens na casa dos 30 andam com menos vontade, e as gerações mais jovens parecem estar também com a líbido em baixo.

O stress profissional, a fadiga, a vida agitada ou a maquinaria tecnológica são alguns dos motivos que explicam esta falta de desejo.

Júlio Machado Vaz, psiquiatra e sexólogo, não coloca o desejo sexual dos portugueses no patamar dos Estados Unidos ou do Japão, o país que terá menos atividade sexual do mundo.

Não há investigações exaustivas e recentes sobre o assunto e que envolvam uma amostra representativa da população portuguesa, mas quem se debruça sobre a matéria vai percebendo o que se passa.

Júlio Machado Vaz, psiquiatra e sexólogo, não coloca Portugal no mesmo patamar dos Estados Unidos ou do Japão, o país que terá menos atividade sexual do mundo. Mesmo assim, há desabafos que remoem o pensamento. «O que mais me impressiona na clínica são as queixas de falta de desejo sexual em idades precoces, por exemplo, entre os 20 e os 30», diz.

Uma constatação com vários motivos agregados. «A vida frenética, a competição profissional, o fascínio pela omnipotência proporcionada pela tecnologia em contraste com a insegurança das relações pessoais e a superficialidade destas são algumas das razões envolvidas», especifica o sexólogo.

Na amostra nacional, entre os homens que referem perda de apetite sexual, 42,6% falam na dificuldade em manter a ereção, 31,4% na ejaculação precoce, 30,9% na ansiedade antes do sexo, 17,6% em falta de prazer na relação sexual e 13,6% em não conseguir atingir o orgasmo.

Ana Carvalheira, professora e investigadora do ISPA – Instituto Universitário, não tem dados que permitam comparar a frequência sexual entre várias gerações no nosso país. Todavia num estudo que coordenou, e que envolveu três países (Portugal, Croácia e Noruega) sobre o interesse sexual de homens heterossexuais dos 18 aos 75 anos – da amostra de 5 255 homens, 2 863 são portugueses, 1 735 croatas e 657 noruegueses – há elementos que sobressaem. «Os homens na faixa dos 30 anos referem uma diminuição do desejo sexual», adianta. Fadiga, stress profissional, passividade sexual da parceira, conflitos na relação, vida sexual monótona, são as principais causas para a perda de desejo referidas pelos homens portugueses.

Na amostra nacional, entre os homens que referem perda de apetite sexual, 42,6% falam na dificuldade em manter a ereção, 31,4% na ejaculação precoce, 30,9% na ansiedade antes do sexo, 17,6% em falta de prazer na relação sexual e 13,6% em não conseguir atingir o orgasmo.

As mudanças culturais também se refletem no sexo. Há mais opções, mais focos de interesse, outros tipos de prazer. «Há um conjunto de fatores externos e contextuais que afetam e podem perturbar o interesse sexual», sublinha Ana Carvalheira. O excesso de trabalho, o querer subir na carreira, o cansaço, o nascimento dos filhos, um divórcio. Sensações e acontecimentos que acontecem sobretudo na faixa dos 30 anos e não tanto nos jovens na casa dos 20, que saem cada vez mais tarde de casa. E há também indicadores que mostram que o interesse sexual tem vindo a decair nas grandes cidades, fruto desses fatores contextuais.

O stress no emprego surge no topo dos motivos para a quebra do interesse sexual que aparece associada a vários aspetos como autoconfiança, duração da relação, atratividade da parceira.

Na investigação, feita em 2011, a falta de apetite sexual por questões pessoais, no conjunto dos três países, é maior na faixa etária dos 30 aos 39 com 39,9%, seguindo-se a faixa entre os 40 e os 49 com 23,6%. E os homens com idades entre os 18 e os 29 anos têm menos apetite do que os que têm entre 50 e 59 – 22,6% nos mais jovens e 12,5% nos mais velhos.

Nas conclusões desta pesquisa, o stress no emprego surge no topo dos motivos para a quebra do interesse sexual que aparece associada a vários aspetos como autoconfiança na função erétil, duração da relação, atratividade da parceira.

Há mais elementos relevantes nas pesquisas realizadas nos Estados Unidos. De acordo com um estudo publicado no Archives of Sexual Behavior, os norte-americanos tiveram nove vezes menos sexo em 2014 do que no final dos anos 90.

Desde essa altura até ao início do novo milénio, os americanos tinham relações sexuais entre 60 a 65 vezes por ano. Depois de 2002, tudo mudou na cama e a frequência caiu para uma média de 56 vezes em 2014.

Investigações feitas revelam ainda que os casais têm mais sexo do que as pessoas solteiras. O facto de haver cada vez mais pessoas a não casar faz diferença neste assunto. Há ainda uma constatação curiosa: os norte-americanos com mais de 70 anos tiveram quase 11 vezes sexo durante 2014, mais do que a média de 9,6 vezes registada em 1989.