OPINIÃO

A mulher que vai mandar nas águas do Norte

Shari Arison nasceu em Nova Iorque, vive em Telavive, tem negócios em todo o mundo e é a mulher mais rica do Médio Oriente. Empresária e filantropa, vai investir em Portugal, onde comprou a Indaqua, empresa que trata da água em oito concelhos do Norte do país.

Texto de Sara Dias Oliveira

Como é a vida de uma mulher no mundo dos negócios dominado por homens? Shari Arison ri-se antes de responder à pergunta. Tem experiência de entrevistas, esta israelo-americana que aos 59 anos é a mulher mais rica do Médio Oriente. Está a dar esta no The Yeatman, em Vila Nova de Gaia – acabou de comprar a posição maioritária da Indaqua, empresa que fornece água a oito municípios do Norte de Portugal, por 60 milhões de euros.

«Já não sinto diferenças, mas, no início, foi muito difícil. Sentia que precisava de provar quem era, que era forte e persistente no que queria e no que acreditava. Lentamente, rodeei-me de mais mulheres em cargos de gestão, de direção. Mas sempre acreditei no equilíbrio. Homens e mulheres juntos, com diferentes perspetivas e tipos de ADN, beneficiam a empresa como um todo.»

«Dar vem do coração. Tem de ter significado porque se não o tem não vai criar as mudanças que queremos. Eu trabalho muito nisso»

Shari é a prova do que diz. Tem negócios em todo o mundo, está em todos os continentes, tem perto de 30 mil funcionários, homens e mulheres. Herdou e multiplicou a fortuna do pai, o empresário Ted Arison, fundador da Carnival Cruise Lines e da Carnival Corporation, depois da sua morte em 1999.

Agora, a sua Miya acaba de comprar 50,06% da Indaqua. E como mulher de negócios, usa a sua intuição. Foi isso, diz, que a trouxe a Portugal. Não encontra explicação racional, com números associados. O país não lhe saía da cabeça e pediu aos colaboradores mais próximos para colocarem Portugal na lista de investimentos a fazer. E o negócio aconteceu. Agora é a rainha das águas do Norte? Shari volta a rir-se. «É mais um título que me arranjam.»

Além de ser uma das maiores fortunas do mundo, avaliada em 4,9 mil milhões de dólares, segundo a Forbes, Shari tem outro lado, filantrópico, digamos, e é também uma das milionárias mais ecológicas do planeta. Veio a Portugal precisamente por isso, e não quer dar entrevistas económicas nem falar de números – e também se recusa a falar de política. Quer associar as suas empresas a uma missão e valores.

Na água, por exemplo. «A Miya é uma companhia baseada na visão que todas as pessoas merecem ter água fresca facilmente disponível. Para mim, um negócio é um veículo, uma plataforma, para mudanças positivas. Para mim, o objetivo é ter água fresca e limpa disponível e, além disso, introduzir valores de comunidade, de dar.»

O modelo assente em 13 valores – ser, realização, valor acrescentado para a humanidade, nós somos todos um, sustentabilidade, abundância, voluntariado, paz interior, oferecer, liberdade financeira, linguagem e comunicação, vitalidade, pureza.

Há vários anos, Shari criou o Doing Good Model, Modelo Fazer Bem, com o propósito de enraizar decisões empresariais em valores. Há um livro sobre o assunto que em breve será traduzido para português, e um folheto que explica o conceito. «Aprendemos que quando trabalhamos numa organização cuja cultura se alinha com os nossos valores pessoais, onde todos se sentem habilitados e podem trazer o seus completos para trabalhar, sabemos que fazemos a diferença.»

O modelo assente em 13 valores – ser, realização, valor acrescentado para a humanidade, nós somos todos um, sustentabilidade, abundância, voluntariado, paz interior, oferecer, liberdade financeira, linguagem e comunicação, vitalidade, pureza. E é estudado nas universidades de Harvard e George Mason. «Há muitos negócios com diferentes tipos de visões e valores, mas nenhum tem uma tão abrangente perspetiva de filantropia», garante.

«Não é apenas uma visão, é algo que se materializa em, por exemplo, aulas de nutrição, atividades desportivas, lições para deixar de fumar para os funcionários. É um modelo especial e um sucesso porque envolve todos os funcionários. Cada um introduz os valores que são importantes para si, para a sua família.»

Mundos à parte

Shari é vegetariana, medita todos os dias ao acordar, faz um passeio matinal ou uma corrida, e está a escrever um livro para crianças. Veio a Portugal para acompanhar a adoção do modelo pelos funcionários da Indaqua. Os trabalhadores da empresa participaram em 12 atividades de voluntariado de Fafe a Oliveira de Azeméis: por exemplo, limparam dunas em Vila do Conde, plantaram pomares em Oliveira de Azeméis, restauraram móveis na Cruz Vermelha de Fafe, fizeram atividades com crianças e idosos em Matosinhos, pintaram a Cooperativa de Apoio à Integração do Deficiente em Santo Tirso… «Estou muito orgulhosa», diz Shari.

Shari nasceu na América, filha de pai israelita e de mãe romena que odiava os Estados Unidos. Marie, a governanta, foi responsável pela sua educação. Tinha 9 anos quando a família se mudou para Miami – Marie não foi – e, nessa altura, os pais divorciaram-se. A mãe mudou-se para Israel, o pai ficou nos Estados Unidos.

E começaram as viagens entre Israel e a América da pequena, habitualmente sozinha e com várias escalas no trajeto – chegou a perder-se no aeroporto de Amesterdão. A menina cresceu entre dois mundos distantes, frequentou várias escolas. «Na América provocavam-me por ser demasiado israelita, e em Israel embirravam comigo por ser tão americana. Nessa altura, os dois países eram mundos à parte», conta no seu livro que se chama Fazer o Bem.

O pai atravessou vários processos de falência e só conseguiu fazer fortuna mais tarde, quando criou a Carnival Cruise Lines. Shari Arison estava prestes a fazer 30 anos. Entre tantas viagens, cumpriu o serviço militar no exército israelita e viveu em Miami durante 16 anos. Casou, teve três filhos, criou a Fundação Arison e entrou no conselho de administração da Carnival, empresa do pai. Divorciou-se, casou pela segunda vez, e então a Guerra do Golfo estalou, desorganizando ainda mais o seu mundo e o mundo dos seus negócios.

Escolheu um lado, percebeu que era em Israel que tinha de estar. Mudou-se, teve o quarto filho, reaprendeu a viver num sítio que conhecia desde criança mas onde, já mulher, mãe e empresária, teve de readaptar-se aos hábitos, costumes, mentalidades. Um outro divórcio, outro casamento, um terceiro divórcio, e a procura de respostas continuava, na sua vida agitada.

Um sorriso, uma boa ação

Vem daí a busca pela espiritualidade, que tentava ir buscar aos livros. «Uma das lições parecia-me evidente: as adversidades fazem parte da vida de todos. A questão é o que fazemos com elas», escreve. O caminho que encontrou fê-la criar, há 11 anos, o Dia Internacional das Boas Ações – numa manhã em que caminhava pelas dunas, em Telavive, Israel. «Partiu de uma ideia muito simples, que toda a gente pode fazer uma boa ação da maneira que quiser.

A mensagem é: um sorriso é uma boa ação. As pessoas acham que se não tiverem uma posição ou dinheiro não conseguem fazer a diferença e a minha mensagem é que todos podem fazer a diferença. Se virmos uma velhinha a atravessar a rua cheia de malas podemos ajudá-la, qualquer pequeno gesto é uma boa ação.»

Dois de abril é o Dia das Boas Ações e este ano foi comemorado pela primeira vez em Portugal. Shari Arison vestiu a camisola alusiva ao evento e andou pela Praça dos Poveiros, enquanto cerca de 40 organizações não governamentais dinamizavam workshops, e falavam do seu trabalho e captavam mais voluntários. Houve música, ioga, escrita chinesa, malabaristas, dança e música.

A organização de Shari chama-se Good Spirit e trabalha com organizações que precisam de voluntários. Na primeira edição do Dia das Boas Ações, em Israel, participaram sete mil pessoas, agora são um milhão e meio. O conceito cresceu e saiu fora de Israel e está agora em 93 países. «Dar vem do coração. Tem de ter significado porque se não o tem não vai criar as mudanças que queremos. Eu trabalho muito nisso», diz. Porque nem só de negócios vive o mundo. «Os negócios, hoje, fazem mais do que os governos porque não há fronteiras e as grandes empresas trabalham em todo o mundo. Podemos ter uma influência positiva onde quer que estejamos», conclui Shari.

O negócio

Shari é dona do Bank Hapoalim, o maior banco de Israel, da Shikun & Binui, empresa de construção e de imobiliário, da Salt of the Earth, a principal fabricante de sal em Israel, e da Miya, empresa líder na eficiência do uso da água em sistemas de distribuição que comprou a Indaqua. A sede fica no Luxemburgo e tem projetos em várias partes do mundo, um dos quais em Manila, Filipinas, para levar água a quase três milhões de pessoas. Esta é a empresa que comprou 50,06% da Indaqua à Mota-Engil – os restantes 49,94% pertencem à alemã Talanx, outra acionista que comprou a sua posição à Soares da Costa – e vai distribuir água em oito municípios do Norte: Fafe, Santo Tirso, Trofa, Santa Maria da Feira, Matosinhos, Vila do Conde, São João da Madeira, e Oliveira de Azeméis, numa área de influência de cerca de 600 mil habitantes. Tem 485 funcionários e fechou o ano de 2016 com um volume de negócios consolidado de 68,8 milhões de euros.

5 Livros e mensagens

Shari Arison tem cinco livros editados e, neste momento, está a trabalhar em mais um para crianças. Fazer o Bem – Transformar o Mundo com o Poder das Boas Ações está traduzido em 20 línguas, Português incluído, e foi um bestseller no The New York Times em 2013. Em 2009, publicou Arison, Nascimento – Quando o Espiritual e o Material estão Juntos. Em 2014, lançou Material para o Pensamento e no ano seguinte o Modelo Fazer Bem, bestseller nos Estados Unidos e que será traduzido para português. No ano passado, editou Um Dia de Boas Ações escrito Especialmente para crianças. «Não ganho dinheiro nos livros, para mim o importante é a mensagem.»

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