OPINIÃO

A boa onda do surf nacional

Com uma novíssima geração à espreita, o surf em Portugal é agora de todos e para todos. Com história competitiva, treinadores e organizações competentes, escolas estruturadas, exemplos a seguir, turismo com fartura, instituições organizadas, patrocinadores atentos e mediatização q.b., o surf nacional tem conseguido resultados que enchem de orgulho qualquer português.

Texto de Miguel Pedreira | Fotografia de Ricardo Bravo

Para entender o sucesso do surf português, podemos, por curiosidade, dar um salto à Ribeira Grande, na ilha de São Miguel, Açores, e aos anos 1940, quando Carlos «Garoupa» Medeiros mandou fazer uma prancha de madeira a um marceneiro local, desenhada por ele, que usava para se deslocar no mar e explorar os pontos da ilha mais inacessíveis, ou a 1959, ano em que o pioneiro Pedro Martins de Lima comprou a sua primeira prancha de fibra e começou a utilizá-la nas praias da Linha do Estoril, abrindo caminho a um estilo de vida focado nas ondas, que é hoje uma realidade e um motor económico em expansão no país.

Com a criação da International Professional Surfers em 1976 (mais tarde ASP – Association of Surfing Professionals e atualmente WSL – World Surf League) e do circuito mundial de surf, a ideia de profissionalização começou a ganhar forma e os campeonatos começaram a ser cada vez mais frequentes. Em Portugal, o primeiro campeonato nacional realizou-se em maio de 1977, em Ribeira d’Ilhas, Ericeira, até hoje uma das mecas do surf português. O seu vencedor, o juiz João Moraes Rocha, faz parte de uma das primeiras famílias portuguesas a abraçar o surf como «desígnio» e continua a apanhar ondas.

No final dos anos 1970 e ao longo de toda a década de 1980, os campeonatos em Portugal foram crescendo e aumentando o seu número, servindo de ponto de encontro para uma tribo cada vez maior e mais eclética.

No final dos anos 1970 e ao longo de toda a década de 1980, os campeonatos em Portugal foram crescendo e aumentando o seu número, servindo de ponto de encontro para uma tribo cada vez maior e mais eclética. As incursões internacionais também começaram, sobretudo com idas aos campeonatos em França (pioneiros europeus). Destaque para surfistas como Alex Oliveira e Nuno Jonet, que bateram nomes sonantes da modalidade na altura e chegaram a trazer títulos para Portugal (Jonet).

No início dos anos 1990, vários fatores contribuíram para a primeira grande explosão mediática do surf nacional e dos seus protagonistas. A criação da Federação Portuguesa de Surf, em 1989, o surgimento de uma empresa de organização de eventos de surf – a Adrenalina, que organizou o primeiro circuito nacional de surf verdadeiramente estruturado, em 1992, bem como o regresso dos mundiais de surf a Ribeira d’Ilhas, na Ericeira, em 1993 e o aparecimento da imprensa especializada, com as revistas Surf Portugal e Surf Magazine, e o programa Portugal Radical, na SIC, também em 1992, a potenciar a mediatização do surf e dos surfistas portugueses, como até então seria inimaginável.

Os portugueses começaram a ouvir falar de nomes como João Alexandre «Dapin», Bruno Charneca, Rodrigo Herédia, João Antunes, José Gregório, Marcos Anastácio, Paulo Rodrigues, Nuno Matta, Hugo Zagalo, Patrícia Lopes, Teresa Abraços ou Filipa Leandro, entre outros, que por sua vez conseguiam patrocínios melhores, que lhes proporcionavam uma forma de competir mais assiduamente no então circuito europeu (EPSA – European Professional Surfing Association) e mesmo em algumas etapas do circuito mundial, com resultados cada vez melhores e um nível de surf cada vez mais elevado.

O ponto alto dessa geração deu-se em 1996, quando, na primeira etapa de uma prova do CT – Championship Tour (a elite do surf mundial, com apenas 11 etapas por ano e 34 surfistas, em que competiu Tiago Pires e compete Frederico Morais) realizada em Portugal, na Figueira da Foz, pela Multisurf, Bruno Charneca foi o primeiro português a derrotar Kelly Slater em competição. No ano seguinte, o agora 11 vezes campeão mundial seria novamente derrotado, na Praia Grande, pelo jovem Ruben Gonzalez, então com 18 anos, naquela que seria a sua segunda derrota (e não a última) para um surfista português.

Ruben Gonzalez vinha da primeira geração que já cresceu numa estrutura competitiva regular, com eventos para juniores e um circuito próprio, além dos circuitos de séniores, nacionais e internacionais – a chamada «geração Lightning Bolt», formada e crescida no Circuito Nacional de Surf Esperanças, patrocinado pela marca durante os primeiros anos. É daqui que saem nomes como Ruben Gonzalez, André Pedroso, Pedro Monteiro, João Macedo, Alexandre Ferreira, David Luís, Nuno Telmo, David Raimundo, Tiago Pires, Joana Rocha ou Marta Rafael, entre outros.

A visibilidade que Saca deu a Portugal, ao integrar a elite mundial, pôs o nome do país nas bocas do mundo e ajudou a aumentar a procura turística.

Foram estes nomes que conquistaram, em 1996, o primeiro título europeu júnior por equipas para Portugal, no Eurojunior, disputado em Santa Cruz. David Luís e Ruben Gonzalez sagraram-se campeões da Europa em sub-16 e sub-18, respetivamente.

No ano seguinte, 1997, em Bundoran, na Irlanda, a seleção sénior, com a geração anterior aos comandos, conquista o primeiro título europeu sénior, também por seleções. Rodrigo Herédia sagra-se campeão da Europa.

Em 1998 realizaram-se os primeiros World Surfing Games em Portugal, com a nossa seleção a conseguir um brilhante quarto lugar da geral e novamente Rodrigo Herédia a conquistar um sétimo lugar em surf open, a uma posição de igualar o sexto lugar de João Antunes na mesma prova, mas em 1994, no Brasil. Tiago Pires sagra-se vice-campeão mundial na categoria júnior e inicia um percurso que viria a marcar o surf português para sempre. Gonçalo Faria e Dora Gomes sagraram-se campeões mundiais em bodyboard open e bodyboard feminino.

Os feitos da seleção nacional de surf e bodyboard ao longo destes três anos (e em muitos mais, com muitos outros títulos alcançados) têm um denominador comum – José Manuel Sousa Braga, um dos sócios fundadores da Federação Portuguesa de Surf e selecionador nacional, que conseguiu transformar um conjunto de personalidades bem vincadas em grupos coesos e com espírito de equipa.

LEIA OS PERFIS DE FREDERICO MORAIS, TIAGO PIRES E VASCO RIBEIRO AQUI

Com o final dos anos 1990 aparece também a Associação Nacional de Surfistas, cujo objetivo era defender os interesses desta classe junto da Federação Portuguesa de Surf e dos principais intervenientes na vida dos surfistas profissionais. Com a ANS a tomar conta do principal circuito do surf português, as empresas de organização de eventos, como a Alfarroba ou a Natural Factor, voltaram a criar circuitos bastante mediatizados e com estruturas dignas de destaque, atraindo patrocinadores de dentro e de fora do meio, o que deu uma nova vida ao surf português.

Entretanto, Tiago Pires ganha cada vez mais destaque no circuito mundial e, em 2008, qualifica-se para o circuito da elite mundial, o WCT, no qual permaneceu sete anos. A visibilidade que Saca deu a Portugal, ao integrar a elite mundial, pôs o nome do país nas bocas do mundo e ajudou a aumentar a procura turística.

Com a geração de Herédia, Antunes, Charneca, Matta, Gregório a abandonar cada vez mais a competição, para procurarem cargos na indústria do surf ou criarem os seus próprios negócios ligados à modalidade, a «geração Lightning Bolt», com o ex-libris Tiago Pires, inclinou-se mais para a sua formação superior, criando depois escolas de surf ou centros de treino de alto rendimento.

Bons exemplos disso são a Surf Academia, de João Macedo e Pedro Monteiro, ou a Surftechnique (atual Academia Profissional de Surf), de David Raimundo e Nuno Telmo, responsáveis pela formação da grande maioria dos atuais talentos nacionais. Nicolau von Rupp, Frederico Morais, Vasco Ribeiro, Teresa Bonvalot, José Ferreira, Miguel Blanco, Francisco Alves, Tomás Fernandes ou Guilherme Fonseca, entre outros, passam ou passaram pelas mãos destes e de outros experientes treinadores.

Inspirada pelo legado de Tiago Pires, a atual geração dominante do surf nacional tem conseguido resultados nacionais e internacionais cada vez mais impressionantes.

Desde 2014 a acumular com a função de selecionador nacional, David Raimundo e a sua equipa já conseguiram três vice-títulos mundiais sénior por equipas (2015, 2016 e 2017) e preparam-se para os primeiros Jogos Olímpicos com a inclusão desta modalidade – 2020, no Japão. Em 2015, na Nicarágua, Nicolau von Rupp também se sagrou vice-campeão mundial, individualmente.

O regresso de uma prova da elite mundial a Portugal, a Peniche, pelas mãos da Ocean Events, de Francisco Spínola, e a conquista das ondas da praia do Norte, na Nazaré, por Garrett McNamara e sua equipa, na qual se incluem portugueses, têm contribuído fortemente para a cada vez maior visibilidade do surf português.

Inspirada pelo legado de Tiago Pires, a atual geração dominante do surf nacional tem conseguido resultados nacionais e internacionais cada vez mais impressionantes, com destaque para os de Frederico Morais, Vasco Ribeiro e Teresa Bonvalot.

Já com uma novíssima geração à espreita, a realidade é que o surf em Portugal é agora de todos e para todos. Com história competitiva, treinadores e organizações competentes, escolas estruturadas, exemplos a seguir, turismo com fartura, instituições organizadas, patrocinadores atentos e mediatização q.b., tudo contribui para resultados que enchem de orgulho qualquer português.

Já a indústria da modalidade não pode dizer o mesmo… mas isso seria tema para outro artigo.