OPINIÃO

Gilberto Costa: o ex-caçador que ressuscita orquídeas

Gilberto Costa tem 83 anos e uma paixão que dá flores na sua casa na Maia. Foi na selva, na Venezuela, onde entrava para caçar animais, que se deslumbrou com orquídeas que cresciam nas árvores. Chegou a construir uma espécie de baloiço para estar perto delas. Estudou-as, coletou-as, trouxe-as para Portugal. Alguns exemplares desta coleção ímpar estarão na Exponor no próximo fim de semana.

Texto de Sara Dias Oliveira
Fotografia de Rui Oliveira/Global Imagens

Não sossegou, durante semanas, até perceber como podia transportar as orquídeas na mala de porão. Sacos de plástico para aqui e para acolá, com mais e menos água, cálculos na cabeça de noite e de dia. Até perceber que quanto menos líquido, melhor. «Se metia água era um problema», lembra.

A viagem de barco da Venezuela para Portugal estava marcada, bilhete em segunda classe comprado, seriam 15 dias em alto-mar. Gilberto Costa estava de regresso depois de dez anos a viver, trabalhar, caçar e tratar de flores do outro lado do Atlântico. Em 1975, voltou a pisar o país com uma paixão que nunca mais largou. Um amor que alimenta todos os dias.

As orquídeas aguentaram-se na viagem, mas algumas, já em terra, acabaram por não resistir. Clima diferente, não encontrarem terreno fértil, o habitat não era o mesmo.

Gilberto sofreu com a perda, mas não perdeu tempo. Montou, com as próprias mãos e muitas placas de policarbonato, uma estufa na sua casa na Maia. Dias, semanas, meses, a erguer uma moradia para as suas flores que nunca está completamente terminada. Há sempre um retoque a fazer aqui, um detalhe acolá.

Há que saber o que as orquídeas querem

Agora que está reformado, o homem não larga aquela vontade de construir engenhocas para que nada falte às meninas dos seus olhos, fruto de conhecimentos acumulados ao longo de anos em trabalhos ligados à eletrotecnia e do curso profissional de eletromecânica que tirou na juventude.

Não para quieto, sempre a magicar, não larga as ferramentas espalhadas pela casa. Agora anda à volta de um aparelho que irá tratar da rega para as orquídeas que tem no rés-do- chão. Há dias comprou mais um casquilho para colocar nesse depósito cilíndrico cheio de botões e fios. O aparelho está bem encaminhado e terá utilidade.

Há outra maquinaria em testes para arrefecer o clima, gelo num recipiente de plástico com uma ventoinha em lugar estratégico para refrescar o ar nos dias mais quentes, para que as suas orquídeas não sofram com o calor.

«É preciso muita paciência e persistência porque há plantas que demoram seis, sete anos a florir.»

São anos e anos de dedicação. «As orquídeas são muito bonitas, temos de saber o que elas querem.» Gilberto, ao lado da mulher Marília, companheira de uma vida e deste amor também, criou uma coleção única de orquídeas, inventa nomes de batismo, faz cruzamentos entre plantas, usa palitos para simular o que os insetos fazem para que as plantas se reproduzam, nesse transporte dos grãos de pólen de uma flor para outra.

Tem telas de plástico para a dose ideal de luz, em tempos mandou fazer vasos com buracos de lado, comprou um aparelho para filtrar a água. De cima para baixo, de baixo para cima, mostra as flores envaidecido.

«É preciso muita paciência e persistência porque há plantas que demoram seis, sete anos a florir.» Nada que o demova desta paixão, e até há quem lhe bata à porta para que salve orquídeas a morrer. Por vezes, é fácil, às vezes é mais complicado. Voltas e voltas para ressuscitar flores, colocá-las no sítio mais adequado. «Faço tudo e mais alguma coisa por elas.»

Estuda-as dos pés à cabeça e normalmente tem sucesso. «E isso também me fascina, recuperar plantas que estão quase a morrer e conseguir trazê-las de novo à vida vegetativa.»

Uma casa para as flores

É também uma boa forma de ocupar os neurónios de 83 anos que assim não sossegam à procura de soluções. Nem sempre, tem sorte na sua estufa. Há um dia, em particular, que não lhe sai da memória. «Tínhamos 500 orquídeas de uma sementeira, muito bonita, de repente veio um golpe de luz e deu-me cabo dela e ficou só uma.» Batizou-a assim, Única. E outros nomes vão surgindo nesta vida de orquidófilo.

Comprou a primeira orquídea numa feira em Maracaibo, Venezuela, e colocou-a num limoeiro de sua casa. Foi nesse país, do outro lado do Atlântico, que tudo aconteceu. Gilberto emigrou por amor pela sua Marília que tinha a vida do lado de lá. Viveram em Baruta, depois em Maracaibo.

Gilberto, com jeito para a engenharia, candidatou-se a uma empresa de plásticos. Viu o anúncio no jornal, na entrevista colocaram-se avarias para resolver, pediram-lhe para ficar, começar no dia seguinte para três meses à experiência. Um mês depois estava efetivo e chegou a chefe geral de manutenção.

Nos tempos livres, de arma ao ombro, entrava na selva perto de Maracaibo, para caçar veados, javalis, pumas, jaguares. Tudo o que lhe aparecesse à frente. E não costumava falhar. «Onde metesse o olho, aquilo era certinho», recorda a sorrir. Só que os olhos não focavam apenas a bicharada que andava à solta, as árvores gigantes com orquídeas agarradas amarravam-lhe a atenção. Um feitiço difícil de escapar.

O fascínio de Gilberto Costa pelas flores aumentou e a caça acabaria por tornar-se o pretexto para coletar orquídeas. Partia sozinho para a selva, levava o saco-cama, alguns enlatados, fazia uma fogueira, e passava noites a observar orquídeas.

E mais uma engenhoca na cabeça: uma espécie de baloiço para subir às árvores e ficar perto das flores. Uma corda, um cadernal com roldanas, uma cadeira de cabedal. Fisga na mão, lançava um fio de nylon para alcançar um bom ramo, puxava a corda mais forte de forma a poder subir até às copas. Como um baloiço. Como homem de engenhocas, levava aparelhos para medir temperatura, humidade, velocidade do vento. Apontava tudo nos cadernos que ainda guarda lá em casa. Números e mais números que só ele entende.

O fascínio pelas flores aumentou e a caça acabaria por tornar-se o pretexto para coletar orquídeas. Partia sozinho para a selva, levava o saco-cama, alguns enlatados, fazia uma fogueira, e passava noites a observar orquídeas.

Com a sua Marília já em Portugal, chegou a passar natais e passagens de ano na selva de arma ao ombro e olhos nas flores. Levava uma ou duas orquídeas para casa sempre como coletor, nunca como vendedor.

A paixão não era uma brincadeira, tornou-se séria, dedicou noites a estudar o mundo natural dessas plantas, meteu conversa com orquidófilos e estudiosos, tornou-se sócio da Sociedade Americana de Orquídeas com o número 56881.

A parte de cima da sua casa na Maia é uma estufa. Rede nas paredes, vasos suspensos, tapete verde no chão, janelas, aspersores. Tem um ar selvagem como se as orquídeas crescessem nas árvores com raízes à mostra. «É como se estivessem na selva, estão aqui à vontade. A natureza é que manda.» E não há como contrariar esses poderes. Lá em casa não entram flores de horto, é tudo criado em casa. «Adoro as orquídeas e nada mais, o resto é supérfluo.»

Gilberto fala das plantas como se tivessem alma. «Adaptam-se, são como as pessoas, e até há orquídeas que nos confundem, que são totalmente iguais mas que querem um tratamento diferente.» Como assim? Como os gémeos que saíram do mesmo ventre, fisicamente semelhantes, que vivem afastados e que se vão tornando diferentes um do outro. Com as orquídeas é igual.

As plantas precisam de quem as perceba e Gilberto assegura que não há segredos. Mas tem uma receita: muita água, muita fertilização, pouco de cada vez.

O ex-caçador adaptou a casa às flores, janelas nos sítios certos por causa da exposição solar, aparelhos aqui e ali, ferramentas prontas a serem utilizadas, livros e livros sobre orquídeas em prateleiras, álbuns de fotografias dos tempos da caça na Venezuela.

As plantas precisam de quem as perceba e Gilberto assegura que não há segredos. Mas tem uma receita: muita água, muita fertilização, pouco de cada vez. Fertilizante de baixa concentração, condições certas de humidade, temperatura e ventilação. Muita dedicação, carinho e disponibilidade. «Elas precisam de tranquilidade, de luz, de claridade.» Esta paixão não passa. Rega-se, cuida-se, partilha-se.


 

A Exposição Internacional de Orquídeas do Porto, na Exponor, conta com 21 expositores, com orquídeas de todo o mundo.
A Exposição Internacional de Orquídeas do Porto, na Exponor, conta com 21 expositores, com orquídeas de todo o mundo.

BELAS E EXÓTICAS NA EXPONOR

Algumas orquídeas de Gilberto Costa estarão na oitava Exposição/Venda Internacional de Orquídeas do Porto, na Exponor, Matosinhos, entre 31 de março e 2 de abril (das 10h00 às 19h00, entradas a três euros). As suas flores estarão espalhadas por várias «montras» dos orquidófilos presentes. Ao todo serão 21 expositores, 11 nacionais e dez estrangeiros da Alemanha, Brasil, Equador, Espanha, Peru e Taiwan. Haverá um concurso e um júri experiente para avaliar as plantas. O evento é organizado pela Associação Portuguesa de Orquidofilia (APO), a primeira entidade nacional dedicada à divulgação de orquídeas. Organiza workshops gratuitos por todo o país para ensinar e tirar dúvidas, faz duas exposições integradas nas Festas da Primavera e do Outono do Jardim Botânico da Ajuda, em Lisboa, e outras pelo Norte em cidades como Lousada, Viana do Castelo, Barcelos ou Trofa. «Não são só os associados mas todos os orquidófilos que nos vão contactando para os ajudarmos no cultivo das suas orquídeas», diz Graziela Meister, presidente da APO. A realização de workshops na Madeira e a expansão para a Galiza fazem parte dos planos da associação. «As orquídeas já não são desconhecidas dos portugueses, pelo contrário, a associação é que não conhece todos os portugueses que se interessam por orquídeas porque já são muitos distribuídos por todo o país.»

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