OPINIÃO

Todos nós mentimos pelo menos uma vez por dia. Porquê?

Os introvertidos mentem mais do que extrovertidos. As mulheres lidam pior com a fuga à verdade. María Jesús Álava Reyes desvenda no seu novo livro o que nos faz mentir.

Quem nunca mentiu que atire a primeira pedra. Ou então que se cale para sempre. O mundo nem sempre é tão simples quanto dois mais dois serem quatro. É mais complexo e tem muitas perguntas.

Mentimos por hábito ou para nos protegermos? Para sermos aceites, agradarmos e impressionarmos quem nos rodeia? Para obter alguma vantagem? Por insegurança? Por fraqueza? Por baixa autoestima? Por carinho? Mentimos porque nos mentem ou mentem-nos porque mentimos? E como se rompe este ciclo?

A psicóloga espanhola María Jesús Álava Reyes anda atenta a isto, a quem mente e, por isso, escreveu o livro A Verdade sobre a Mentira, lançado este mês em Portugal, pela editora A Esfera dos Livros. Um manual para perceber quem mente, por que o faz, e que danos emocionais são causados pela mentira.

Dizem que a mentira tem perna curta. A questão é que há vários tipos de mentira. As mentiras sociais, as narcisistas, as psicopáticas, as que se dizem no trabalho, que se contam aos nossos amores, companheiros, amigos, família. E, como se não bastasse, as dirigidas a nós mesmos, o chamado autoengano.

Fica a constatação do facto. «Podemos autoenganar-nos para nos defendermos de nós mesmos, para nos sentirmos mais valiosos, mais inteligentes, mais hábeis ou melhores pessoas do que somos, e podemos enganar-nos para nos protegermos na nossa inter-relação com os outros», escreve a psicóloga, autora do bestseller A Inutilidade do Sofrimento e uma das Top 100 mulheres líderes em Espanha em 2012, ocupando a primeira posição na categoria «Pensadoras».

Dizemos que estamos a chegar e ainda nem sequer saímos de casa. Dizemos que não há bolachas quando o nosso filho quer doces e ainda ontem comprámos três pacotes. Dizemos que não ouvimos o telemóvel tocar quando não queremos atender uma chamada. Dizemos que já temos um jantar combinado quando não queremos ir a outro sítio. «Embora o ser humano esteja programado para dizer a verdade, todas as investigações demonstram que mentimos pelo menos uma vez por dia.»

Os introvertidos mentem mais do que os extrovertidos porque as suas mentiras são mais elaboradas e, portanto, difíceis de desmascarar. As mulheres têm uma maior aversão à mentira e consideram-na mais inaceitável do que os homens. A insegurança e a falta de confiança em nós próprios fazem disparar a frequência da mentira. Mas uma coisa é certa: quem mente deve assumir as consequências.

«Retirar importância à mentira é o pior ‘favor’ que podemos fazer ao mentiroso», garante María Jesús Reyes. Fica uma dica. Não entrar em provocações e tentar apanhar os enganos são as primeiras atitudes a ter quando se tem um mentiroso compulsivo à frente.

E por que razão há pessoas que mentem mais do que outras? Por uma questão de atitude e comportamento. Segundo a autora da obra, que escreveu também A Arte de Arruinar a sua Própria Vida, as pessoas que mais mentem «têm um fundo de insegurança e insatisfação que as leva a falsear a sua realidade.» São inseguras, com altos níveis de ansiedade e baixa autoestima.

Mentimos de várias formas e feitios. Num primeiro encontro para seduzir e manipular. Na nossa sexualidade para esconder dificuldades ou evitar falar de emoções mais profundas. «As mentiras na esfera da sexualidade são muito dolorosas e, ao contrário do que poderíamos pensar, muito numerosas», avisa a psicóloga.

Mentimos no amor. «Para a maioria, as mentiras mais dolorosas são aquelas que ocorrem nas relações afetivas. Embora geralmente mintamos mais aos estranhos do que aos nossos parceiros, estudos psicológicos demonstram que na relação com o parceiro mentimos desde o princípio: de facto, 92 por cento das pessoas reconhecem ter mentido em alguma ocasião aos seus parceiros.»

Mentimos por vingança, utilizando os filhos, quando não se assume que a relação terminou. Mentimos por infidelidade. «As mulheres tendem a ser mais observadoras e estão mais atentas perante comportamentos ou sinais que possam indicar uma possível infidelidade; pelo contrário, muitos homens atuam com enorme ingenuidade», constata a escritora que apresenta vários casos no seu livro.

E há ainda as mentiras públicas, do mundo dos políticos e dos famosos. «Será fácil detetar os mentirosos, os políticos que fazem um uso fraudulento e arbitrário das suas atribuições? A resposta é não, não é simples detetar a mentira e o engano, especialmente se considerarmos que muitos políticos foram treinados e preparados para ocultar as suas autênticas motivações.» E uma curiosidade que pode fazer sentido. «É curioso que para o exercício da política, que sem dúvida não é fácil, exijamos menos requisitos do que aqueles que pedimos ao último aprendiz de qualquer empresa.»

Quanto às celebridades, bem, essas normalmente argumentam que mentem por uma questão de proteção quando chega aquele momento em que sentem que não são donas das suas vidas.

Mente-se e soam campainhas, alarmes. Mentir é feio e tem consequências, é bom não esquecer. «A partir da psicologia sabemos que as mentiras são responsáveis por grande parte do nosso sofrimento, mas, apesar desta evidência, a maioria das pessoas não estão conscientes de até que ponto o engano e a manipulação estão presentes nas suas vidas», sublinha a psicóloga, mestre em Direção de Recursos Humanos e em Psicologia Pedagógica, e especialista em coaching executivo.

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