OPINIÃO

Srecko Horvat: «O amor é a utopia pela qual vale a pena lutar»

O filósofo croata Srecko Horvat fala sobre o amor na política atual.

O filósofo croata Srecko Horvat, autor do livro The Radicality of Love (2015), esteve em Portugal, a convite do Teatro Maria Matos, em Lisboa para participar no ciclo de conferências inseridas no ciclo Arquipélago dos Afetos. Com o título «Utopia do Amor: um regresso à política radical?», a conversa centrou-se no papel do amor na política atual.

A ideia é perceber como o Brexit ou a eleição de Trump estão a trazer de volta uma paixão ou emoção esquecida em relação à política. Em entrevista, Srecko falou da oportunidade perdida pela esquerda após a crise de 2008, do perigo dos movimentos nacionalistas e protecionistas e da utopia pela qual vale sempre a pena lutar.

Na sua apresentação falou de Trump, Marine Le Pen, Nigel Farage e de como estes políticos estão a trazer um sentimento de paixão à política. Pode explicar melhor esta ideia?
O que se viu com o Brexit ou com a vitória de Trump é que as pessoas que estão desempregadas, zangadas, frustradas, encontraram no discurso de direita uma esperança e um regresso da paixão pela política. Acho realmente perigoso que isto aconteça. Nos anos 1930, tivemos um movimento semelhante, muito focado na emoção, na paixão pelos ideais, mas também num imenso ódio, nomeadamente pelos imigrantes. O que estes políticos estão a fazer – e a conseguir – é tocar os sentimentos destas pessoas e criar uma ilusão de que são eles que vão tirá-las da crise. Mas estes políticos, que aparentemente criticam o chamado establishment, normalmente não cumprem e têm fortunas enormes. Isto vale para Farage como para Trump. São multimilionários que dizem lutar contra o sistema mas, na prática, são parte integrante do mesmo.

Qualquer movimento que desperta paixão, emoção, incita também muitas vezes o ódio. São dois sentimentos que caminham lado a lado?
Eu costumo fazer o paralelo com uma relação amorosa. Quando se está numa relação e as duas pessoas estão apaixonadas e há uma separação penosa, a primeira reação que qualquer pessoa tem é de ódio. Mas isto não é a oposição ao amor. Tu odeias a pessoa porque te traiu mas continuas a amá-la. Na psicanálise, a oposição ao amor não é o ódio, é a indiferença. Colocando esta análise em termos políticos, quando temos entusiasmo, paixão, chamemos-lhe assim, por um líder, alguma ponta de ódio está a espreitar ao virar da esquina. Temos casos na história que provam isso mesmo e, se olharmos para Trump, isso já se nota com a questão dos imigrantes. Precisam sempre de um inimigo.

Primeiro, ama-se um líder, depois é preciso um inimigo para odiar. Esta a forma mais comum para criar união dentro de uma nação.

Fala também da questão da Grécia e de como havia uma esperança em relação a coligação da esquerda, Syriza, que acabou por transformar-se em desilusão com o falhanço no cumprimento das promessas. Terá sido este o momento que permitiu o crescimento dos movimentos de direita?
Para explicar Trump e Farage, Le Pen e todos os outros, temos de voltar ao crash financeiro de 2007/2008. Este foi o nosso equivalente ao crash de 1929. No caso do Syriza, eles conseguiram chegar ao poder, mas depois não conseguiram levar avante o que tinham prometido às pessoas. Assistimos então a um crescimento dos populistas. Olhemos para a Frente Nacional, em França, que não tinha grande expressão há uns anos. Estamos perante um cenário muito perigoso em que estes movimentos estão a crescer e as pessoas que viram a crise bater-lhes à porta em 2008, estão a deixar-se levar por esta ideia de que a única solução é voltar ao nacionalismo, ao protecionismo, a fecharem-se em si mesmos. Vimos isso com o Brexit, com o Trump. Infelizmente, as pessoas estão a acreditar.

No seu discurso, nota-se uma certa desilusão em relação à conduta da esquerda…
Sim, não só desilusão, sou muito crítico em relação à esquerda. Vamos dividir as coisas. Em relação aos ideais de esquerda, eu concordo totalmente com o que Karl Marx disse quando falou dos problemas da Revolução Francesa: «revolução não pode tirar a sua poesia do passado, e sim do futuro.» É isto mesmo, temos de nos ajustar ao futuro e não ao passado. Temos o desenvolvimento de Silicon Valley, a noção de trabalho mudou radicalmente, vamos começar a pensar novas formas de rendimento, de ganhar dinheiro. Em relação aos ideais, penso que a esquerda com os liberais, socais democratas, verdes, todos juntos têm de começar a olhar para o futuro. Por outro lado, o colocar em prática estas ideias.

Neste caso, a esquerda falhou redondamente a oportunidade depois da crise de 2008 para atrair a paixão de novo para a política. Eles tentaram com Alexis Tsipras, os Indignados em Espanha, em 2011, mas o problema é que precisam comunicar melhor com a classe trabalhadora.

Perderam essa habilidade de comunicar que já tiveram em tempos. Essa capacidade para entender que a pessoa comum que está desempregada e assustada, pode temer os imigrantes que chegam aos seus países, por exemplo. O caminho não é demonizá-las ou chamar-lhes fascistas por terem estes medos. É necessário sentar-se com elas, ouvi-las – são apenas pessoas normais com medo -, e explicar-lhes que a situação é muito mais complexa que isso.

Falámos de emoção, de paixão pela política, mas prefere chamar-lhe amor. Porquê?
Voltando à comparação com uma relação, quando dizemos que sentimos afeição ou mesmo paixão por alguém, ainda não é forte o suficiente. O amor agrega todos estes sentimentos e ainda um outro que é muito importante, nomeadamente em termos políticos, que é a fidelidade.

Qual é hoje a utopia pela qual ainda vale a pena lutar?
O amor. Não no sentido hippie da palavra, mas num sentido de reinvenção da noção de amor, com a dedicação que a causa merece. Se o fizermos, se nos unirmos nessa questão, talvez alguns dos cenários de que falámos possam ser alterados.