Na edição em que a notícias magazine celebra 25 anos, procurámos sete jovens com a mesma idade da revista. Falaram-nos do sexo, do amor, da política, do trabalho precário, das relações mais ou menos frustradas e das oportunidades globais.

Texto Catarina Fernandes Martins | Fotografia Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Inês, Rute e André arrumam o assunto sem deixar pontas soltas. «Não tenho namorado»; «Não tenho namorada.» Não há explicações adicionais, apenas respostas monossilábicas. «Não», não é por causa do trabalho. «Sim», hei de querer no futuro. Nem as expressões dos rostos denunciam qualquer emoção quando ouvem que os jovens da sua idade têm duas vezes mais probabilidade de serem sexualmente inativos do que os jovens das duas gerações anteriores.

Ainda que a maioria dos jovens adultos de hoje pratique sexo, há nesta geração, mais do que nas anteriores, um número maior de jovens que escolhem não o fazer. Guilherme não fazia ideia dos resultados do estudo publicado pelo Archives of Sexual Behavior em julho de 2016, mas diz prontamente que está feliz numa relação à distância e que não acorda a pensar em sexo.

Isabel é atriz, tem um parceiro que não é bem namorado e mostra choque e espanto quando percebe que muitos jovens de 25 anos não estão a ter sexo. «A sério? Eu não noto nada disso porque os artistas vivem num meio mais boémio. Ganhamos menos dinheiro, trabalhamos um pouco menos e dedicamo-nos mais às relações pessoais», diz.

Mariana, que se assume como poliamorosa e tem neste momento três parceiros, revela que a sua relação mais duradoura já não envolve sexo. «Percebemos que só estávamos a entrar numa relação sexual porque teoricamente é a parte mais importante, mas fizemos o teste, tirámos o sexo e percebemos que a relação funciona melhor sem isso. Dormimos agarrados, beijamo-nos, mas não há sexo. Neste momento tenho relações sexuais com as outras duas parceiras, mas há momentos em que não tenho parceiros sexuais durante quatro meses e estou bem com isso», diz.

Ana é a única que revela um espanto diferente. «A sério? Então e o Tinder e essas aplicações todas? Sempre pensei que ia ser alvo de gozo se dissesse que tenho pouco interesse no sexo porque o sexo isolado para mim não faz sentido», diz.

Ainda que a maioria dos jovens adultos de hoje pratique sexo, há nesta geração, mais do que nas anteriores, um número maior de jovens que escolhem não o fazer.

O estudo surpreende porque é de jovens que estamos a falar, mas um olhar mais atento às dinâmicas que afetam os Milénio ajuda a compreender os resultados. Já muito se disse e se escreveu sobre a geração Milénio ou geração Y, designações utilizadas para referir o grupo de jovens nascidos entre 1980 e o início dos anos 2000. O retrato não costuma ser favorável e os jovens nascidos nesse período de tempo – sobretudo nas sociedades ocidentais – são geralmente apontados como rapazes e raparigas egoístas, narcisistas e mimados que cresceram a ouvir que eram «especiais» e poderiam ter tudo aquilo com que sonhassem.

A crise de 2008 trocou-lhes as voltas e levou a que se confrontassem com elevados níveis de desemprego ou de precariedade laboral e com um mundo cada vez mais complexo, onde as oportunidades parecem ser globais, mas podem também chegar acompanhadas de maiores riscos, maior desigualdade, maior dificuldade em alugar ou comprar uma casa ou constituir família. Essa alteração de expetativas radical faz que muitos especialistas ponham a hipótese de uma «mudança de paradigma geracional», como refere Vítor Ferreira, sociólogo e investigador do Instituto de Ciências Sociais (ICS).

«Esta geração cresceu num contexto neoliberal em que tanto o sucesso como o falhanço são responsabilidade do indivíduo. Estes jovens são obrigados a escolher em todas as áreas da vida, o que aumenta a incerteza, o risco e a responsabilidade», diz Daniel Cardoso, professor na Universidade Lusófona.

A pressão que os jovens sentem para se ajustarem às novas realidades individuais, profissionais e familiares explica também as novas tendências ao nível do sexo e das relações. «Esta geração cresceu num contexto neoliberal em que tanto o sucesso como o falhanço são responsabilidade do indivíduo. Estes jovens são obrigados a escolher em todas as áreas da vida, o que aumenta a incerteza, o risco e a responsabilidade. Ao serem responsabilizados por todas as escolhas, alguns jovens sentirão que se apostarem na vida emocional estão a ser irresponsáveis em relação à sua vida profissional. Ao mesmo tempo, se escolhem ter uma relação, há a pressão de terem a certeza de que têm a relação certa, que fizeram a escolha certa», diz Daniel Cardoso, professor na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

Ao celebrar 25 anos, a Notícias Magazine quis perceber o que pensam e o que sentem portugueses que acabam de entrar no grupo etário do jovem adulto. Os jovens que têm hoje 25 anos são os mais deprimidos de sempre? Ou estão, num mundo com regras novas, à procura de uma forma própria de lidar com a tarefa de crescer? Os 25 anos atraem mais atenções do que nunca e mereceram até um diagnóstico mental próprio. Sob o pano de fundo de uma mudança de paradigma geracional, entre a crise dos 25, as expetativas frustradas e as oportunidades a explorar, sete jovens falam-nos das escolhas e dos riscos quando se tem um quarto de século de vida.

Biografias do risco

Rute Vargas, 25 anos, é professora primária e tem três trabalhos que não lhe garantem o dinheiro suficiente para sair de casa dos pais.

Rute Vargas é professora primária e para levar para casa uma média mensal de 750 ou 800 euros trabalha oito horas por dia, sábado incluído, atravessando Lisboa de carro para conseguir chegar a horas aos três trabalhos que a mantêm ocupada. Todas as manhãs faz babysitting entre as 11h30 e as 14h30, depois passa as tardes num centro de estudos a dar explicações a crianças. Às quartas e sextas dá explicações privadas ao domicílio. Não tem rendimentos suficientes para deixar a casa dos pais e, por isso, a única despesa é o carro, que lhe permite trabalhar.

Rute não se queixa porque, diz, já viu ofertas de emprego para educadoras de infância em que o salário era de 250 euros por mês em part-time. E apesar de neste momento se sentir «estagnada» porque não tem perspetivas de evolução em nenhum dos três trabalhos, repete uma máxima que lhe dá esperança, afastando por completo qualquer identificação com uma possível crise dos 25 anos: «Eu acredito no trabalho e no reconhecimento do trabalho. Quando as pessoas são boas acontecem coisas boas. Pode demorar algum tempo, mas se desistirmos não chegamos lá», diz.

Inês Vaz, 25 anos, estudou Farmácia e trabalha em consultoria. Não tem horários, mas sente-se desafiada. E considera-se uma privilegiada.

Inês Vaz chegou a ter um trabalho em que saía às 19h00, o que, comparado com a situação em que se encontra agora, era um privilégio. Apesar de ter estudado Ciências Farmacêuticas, não se sentiu realizada durante o tempo em que atendeu clientes atrás de um balcão de farmácia, mesmo que pudesse sair a tempo de jantar com amigos. Desde janeiro deste ano que está a trabalhar na área de consultoria na EY, sem horários, podendo trabalhar dez ou mais horas diárias todos os dias. «Os meus amigos que trabalham em farmácias dizem-me que o meu trabalho agora exige demasiado, mas havia dias em que eu saía da farmácia mais cansada do que agora porque não estava a aprender, não estava a desafiar-me, não via um caminho a fazer a longo prazo», diz. Tem isenção de horário, mas também seguro de saúde e férias. Ainda assim hesita em afastar o rótulo de trabalho precário.

«Se formos calcular as horas que trabalhamos, não recebemos tudo o que merecemos, mas nesta fase o dinheiro não é tudo. Não me faria sentido estar a ganhar 2000 euros e estar vazia», diz. Inês vive na casa que os pais compraram em Lisboa e considera-se uma privilegiada. A necessidade de adiar a constituição da família não a incomoda porque não é de todo uma prioridade agora. As prioridades são aprender, crescer, conhecer e viajar. «Para mim esta vida é a ideal. Apeteceu-me ir ao México e fui. Se fosse casada e com filhos, isso nunca aconteceria», diz.

André Abreu, 25 anos, é programador, tem um salário razoável, partilha casa com amigos e gostaria de fundar um partido.

André Abreu começou a trabalhar há dois meses como programador no BNP. Diz que o salário, superior a 900 euros, é razoável e os horários estão bem estabelecidos. Partilha a casa com dois amigos porque quer fazê-lo por enquanto, mas também porque não teria possibilidade de alugar uma casa sozinho. Desvaloriza o retrato de uma geração que não tem saída, recorrendo a comparações com a situação de gerações anteriores.

«Os jovens que nascem com a ausência de grandes horizontes e não conseguem planear a longo prazo têm de redefinir as suas expetativas para o momento presente, adaptando-se às novas condições», diz o sociólogo Vítor Ferreira.

«As pessoas que têm hoje 25 anos tiveram, de uma forma geral, acesso à universidade, e antes não era assim. A precariedade laboral existe, mas não tem de ser necessariamente um problema. Até faz bem andarmos de empresa em empresa. Um jovem de 25 anos hoje cria o seu negócio na internet. As casas em Lisboa estão mais caras, mas as pessoas ganham mais e se eu vivesse no interior nem teria emprego. É ilusório pensar que uma pessoa de 25 anos aluga um T1 e tem família… Há 40 anos também não era fácil para os jovens de 17 anos terem casa, família e filhos. Antigamente podias ser muito bom, mas se nascesses na aldeia não ias a lado nenhum. Hoje não importa onde nasças, se fores muito bom vais ter acesso a tudo», diz André.

A serenidade e o otimismo com que Rute, Inês e André encaram as suas situações laborais e a sua incapacidade de prever quando poderão constituir família traduz um fenómeno que os sociólogos chamam de naturalização de expetativas. «Os jovens que nascem com a ausência de grandes horizontes e não conseguem planear a longo prazo têm de redefinir as suas expetativas para o momento presente, adaptando-se às novas condições», diz Vítor Ferreira.

Quando essa naturalização não existe, o confronto das expetativas com a realidade pode dar origem à chamada crise dos 25 anos. Para ilustrar este fenómeno, Daniel Cardoso recorre à comparação geracional feita por André. «Os avós que trabalhavam nos campos com grande desgaste tinham, provavelmente, como perspetiva de vida o trabalho nos campos. Os jovens estão hoje aqui e amanhã ali e este panorama de incerteza, que é paradigmaticamente diferente do panorama dos avós que sabiam que iam ficar nos campos, traduz o que Ulrich Beck chama de biografia de risco. Perante todas as escolhas possíveis, o jovem fica preso na ambivalência de sentir que tem muito poder porque tem escolhas, mas vai ser responsabilizado e avaliado por cada uma das escolhas que faz. Aquilo que se designa de crise dos 25 é um conceito criado pelos mais velhos para olhar para os mais novos, mas isso não significa que o clima de incerteza ou de ambivalência não exista», diz.

Ulrich Beck escreveu que todos os riscos, oportunidades e incertezas que antes eram resolvidos no espaço da família, da comunidade ou do Estado, são hoje responsabilidade quase total dos indivíduos, que se vê constantemente obrigado a «pensar, calcular, planear, ajustar, negociar, definir» e a enfrentar a responsabilidade das suas escolhas, apesar de viver sob a ilusão de ser livre e de poder escolher.

Isabel Costa, 25 anos, é atriz e neste momento está à procura de Portugal e da sua história recente e é sobre isso que quer refletir nos seus trabalhos.

Essa pressão está associada à confusão que Isabel Costa diz ter sentido por diversas vezes desde que terminou o curso de Representação no Conservatório. Isabel foi a única jovem que afirmou estar a atravessar a crise dos 25, que agora se traduz pela tomada de consciência das condições de trabalho e dos salários que se pagam aos jovens da sua geração, obrigados a dividir-se por várias ocupações sem que mesmo assim consigam pagar uma renda fora da casa dos pais ou que são «operários sem o saber», diz, referindo-se a um ex-namorado que, à semelhança de Inês Vaz, trabalhava doze horas por dia numa consultora. Isabel terminou o curso de atriz há quatro anos e desde então já estudou em Inglaterra, já trabalhou numa galeria no Brasil, fez parte do mestrado em França e no Canadá, antes de regressar, por enquanto, a Lisboa, onde hoje dá aulas de português a estrangeiros.

Um trabalho de muitas horas que «paga pouco». Da representação não dá para viver. Para juntar mil euros por mês precisa de trabalhar onze horas por dia. O rendimento do mês de abril foi muito inferior a isso e não lhe permitiu pagar a renda de uma casa partilhada com um amigo e as despesas. «Fui pedir à minha mãe», diz. Recentemente, Isabel atuou num espetáculo encenado por um amigo com o título A Marcha Invencível, que, na sua interpretação, é sobre esta geração. «A atriz principal do espetáculo queria fazer uma marcha invencível, toda a história era sobre uma geração invencível. Mas essa rapariga ganha três euros por hora a trabalhar numa loja», diz.

Tudo é política

É comum dizer-se que de uma maneira geral os jovens se interessam pouco por política. O estudo «Roteiros do futuro – Portugal e os jovens: Novos rumos, outra esperança», elaborado no âmbito da Conferência Internacional Portugal e os Jovens, promovida pelo presidente da República Cavaco Silva em 2015, comprova essa ideia.

Aqueles que têm entre 15 e 24 anos estão abaixo da média nacional no que diz respeito à leitura de notícias sobre política e à participação em partidos. Mas a partir dos 25 anos tudo muda. Os jovens adultos (25-34 anos) consomem o dobro das notícias sobre política e estão acima da média nacional na pertença a partidos políticos, sindicatos, associações ou ordens profissionais.

Talvez tenha sido a entrada na idade de jovem adulta que levou Isabel a converter a sua confusão numa necessidade de agir. «Tive uma discussão com um amigo que não sabia contra o que era necessário lutar porque, dizia ele, o “monstro é tão grande”. Eu fiquei tão chateada. Temos de agarrar o monstro.»

Agarrar o monstro é a forma como Isabel, que não pertence a nenhum partido, revela uma atitude política que tanto se traduz na necessidade de estar informada como pode levá-la a criar espetáculos e a organizar exposições que falem sobre Portugal, mesmo que se imagine em trânsito pelo mundo.

Agarrar o monstro é a forma como Isabel, que não pertence a nenhum partido político, revela uma atitude política incipiente que, por enquanto, se traduz na necessidade de estar informada, mas que pode levá-la a criar espetáculos e a organizar exposições que falem sobre Portugal, mesmo que se imagine em trânsito pelo mundo e tenha sempre vontade de voltar a viver fora.

«Estou um pouco radical nesta fase da minha vida e só quero ler, ler, ler e informar-me e tentar fazer espetáculos que demonstrem alguma coisa. Acho que a nossa geração tem de falar sobre Portugal, sobre a Guerra Colonial, o Estado Novo. A França, a Inglaterra, a Alemanha estão cheios deles e Portugal está cheio de medo de si e copia os modelos dos outros. Eu tenho um medo terrível de usar as palavras “nacionalismo” e “patriotismo”, mas temos de falar disso», diz.

Tal como Isabel, Guilherme Borges Pires não concebe outra vida que não a de estar em trânsito entre Portugal e outros países. Guilherme está neste momento em Paris a fazer o doutoramento em Egiptologia, mas até 2020 poderá passar pelo Reino Unido e pela Alemanha. Depois de defendida a tese não tem ideia se viverá em Portugal ou noutro país.

«O plano é sempre estar em Portugal e onde for. É muito natural estar uns meses em Portugal e outros fora. Não rejeito Portugal nem o idealizo, mas a minha área é minoritária em todo o lado e ainda mais em Portugal, pelo que não tenho o país como horizonte único. O trabalho que aparecer irá determinar a escolha», diz. A circulação não o incomoda nem parece afetar as suas relações. «As relações que são para ficar ficam mesmo. Tenho uma relação amorosa há quatro anos e vemo-nos mês a mês. É fácil encontrarmo-nos num lado ou noutro», diz.

«Tudo o que fazemos em sociedade é política. Apanhar o lixo, apanhar o metro. Não tenho envolvimento partidário por achar que a política não se limita a isso. Não quero diabolizar os partidos, mas política é viver em Paris com pessoas do mundo inteiro, numa atitude de rejeição total de ideias xenófobas», diz Guilherme, 25 anos.

Guilherme, que se afirma muito interessado por política, ainda que também não pertença a nenhum partido, acha que viver em trânsito é também um ato político. «Tudo o que fazemos em sociedade é política. Apanhar o lixo, apanhar o metro. Não tenho envolvimento partidário por achar que a política não se limita a isso. Não quero diabolizar os partidos e também não rejeito a distinção tradicional entre direita e esquerda. Identifico-me com a esquerda, mas acho que a política é mais do que isso. Política é viver em Paris com pessoas do mundo inteiro, numa atitude de rejeição total de ideias xenófobas», diz.

André Abreu diz identificar-se com o centro-direita, mas, tal como Guilherme, está convencido de que a política vai além dos partidos. A sua atividade política, diz, não é ativa, mas traduz-se na leitura, na formulação de opiniões, no debate com os poucos amigos que também se interessam por política. «Tentei entrar na JSD, mas percebi que as pessoas que lá estão só pensam em termos da sua carreira política, e isso é muito desinteressante para mim», diz. Não que André não gostasse um dia de desempenhar um cargo político.

«Identifico-me mais com a opção de ter uma carreira fora da política e entrar na política aos 40 ou 50 anos depois de ter a experiência da vida real», diz. Mas aquilo de que André gostaria mesmo era de fundar um novo partido que «abarcasse uma grande diversidade de pensamentos, se regenerasse a cada dez anos e permitisse difundir ideias realmente novas como a de ter um discurso claro contra o corporativismo que existe em Portugal».

As novas regras no amor

Para Mariana Guerra, o amor não está desligado da política. Ou, pelo menos, do contexto sociopolítico específico de cada geração. Quando tirava a licenciatura em Cambridge começou a explorar as relações poliamorosas e, no regresso a Portugal, assumiu-se como não monogâmica.

Neste momento, diz, está a definir regras com três parceiros. Em relações não monogâmicas essas regras podem ir desde a proibição de ter sexo desprotegido com os outros parceiros a questões mais ligadas aos horários e às rotinas ou à decisão de suspender o sexo por momentos, como Mariana fez na sua relação mais longa.

Mariana Guerra, 25 anos, assume-se como poliamorosa e essa é para si não só uma afirmação pessoal como política.

Num contexto social e económico de precarização do trabalho e de individualização acrescida que pode levar a situações de isolamento, Mariana pensa que as relações não monogâmicas podem sair favorecidas devido à instabilidade profissional generalizada, mas acha também que este tipo de relações pode ajudar os indivíduos a estarem mais bem preparados para lidar com os desafios «da época neoliberal», diz.

«É preciso fazer um grande trabalho de introspeção para se chegar ao ponto de estar em paz com a abertura destas relações e a liberdade e a confiança que se deposita no outro. Se estamos a fazer este trabalho de self-reliance, que pode ser também na área económica, não só na área emocional, ficamos muito mais bem preparados para resistir às falências relacionais ou profissionais porque temos uma maior resiliência do que se vivermos as relações na dependência do outro.»

A frustração de Ana Jacinto com as relações pessoais vai além da rejeição do sexo sem compromisso. Tendo encontrado um emprego estável e pago acima da média dos jovens da sua idade, como geóloga na GALP, Ana é também a única entre os jovens entrevistados que diz estar pronta para assentar e constituir família. E é a única que, com alguma relutância, oscilando entre a primeira pessoa do singular e a primeira do plural, assume alguma frustração e angústia pela dificuldade em encontrar um relacionamento que a satisfaça.

Ana Jacinto, 25 anos, é geóloga e tem um emprego estável e pago acima da média dos jovens da sua idade. Está pronta para «assentar», mas diz que não é fácil.

«Não é fácil encontrar alguém com os mesmos valores. Os meus pais namoram desde o ensino secundário e com a minha idade já estavam casados e a pensar nos filhos. Essa comparação com as gerações anteriores angustia-me um pouco. Temos mais objetivos do que antes, temos mais liberdade. Andamos entre cá e lá, há pouco emprego. Mas esse nem é o meu caso. As mulheres não falam sobre isto porque não gostam de dar parte fraca ou de se sentirem tristes. Mas muitas de nós não fazem ideia onde encontrar possíveis parceiros. E quando estou numa relação sinto que falta sempre algo… Muitas vezes as tensões ocorrem porque não quero deixar de fazer as minhas coisas. Queremos assumir um compromisso, mas não queremos fazer cedências sobre quem somos», diz.

No quadro das biografias de risco e da responsabilização que é exigida aos jovens hoje, Daniel Cardoso entende que para muitos as relações não sejam satisfatórias. «Não é que as pessoas tenham medo do compromisso, mas são empurradas para se comprometerem, acima de tudo, consigo mesmas. Isso leva-as a dar prioridade aos seus objetivos de tal forma que pode tornar-se mais difícil criar ou estabelecer relações mais duradouras porque cada uma das pessoas da relação está sob as mesmas pressões, o que cria tensões e ambiguidades», diz. Por isso mesmo, continua, os modelos de relações mais curtas e fluídas têm ganho visibilidade. «Há um corte com os padrões normalizados do que é ter uma relação e uma tendência cada vez mais geral de fazer escolhas individualizadas e de redefinir o tipo de relações que podem existir», diz.

«Não é que as pessoas tenham medo do compromisso, mas são empurradas para se comprometerem, acima de tudo, consigo mesmas. Isso leva-as a dar tal prioridade aos seus objetivos de tal forma que pode tornar-se mais difícil criar ou estabelecer relações mais duradouras», diz Daniel Cardoso.

Longe de defender que o poliamor é um sistema relacional superior às relações tradicionais, Mariana acha que os casais monogâmicos poderiam aplicar algumas das regras das relações não monogâmicas para aumentar a satisfação relacional. «Pergunto sempre a um casal quando decidiu que a relação ia ser exclusiva. E, geralmente, não há indicações de que tenha havido acordos negociados pelos indivíduos, mas sim comportamentos definidos pelo poder social. Mesmo em relações monogâmicas, é possível definir regras e acordos baseados na confiança e na comunicação», diz. «Isto não tem de ser a destruição de algo, pode ser a reconfiguração do significado da intimidade. Há uma pressão crescente para os indivíduos se sentirem satisfeitos com os relacionamentos, mas isso é positivo», diz Daniel Cardoso.

Será esta postura indicativa de um maior egoísmo, do tal umbiguismo de que os Milénio têm sido acusados? Talvez. Mas pode ser também que na busca da sua satisfação e realização pessoal, profissional, amorosa, sexual e política, os jovens de 25 anos acabem por definir regras que nos ajudem a todos num mundo que parece progressivamente menos regulado e caótico.

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