OPINIÃO

Partir pães

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Ilustração de Afonso Cruz
Ilustração de Afonso Cruz


Quando Saint-Exupéry escreveu
que, ao matar um jardineiro, matamo-lo uma vez, mas quando destruímos o seu jardim matamo-lo duas vezes, percebemos que se refere a obras e paixões humanas, à entrega, àquilo que construímos durante a vida. É claro que a paternidade se adequa na perfeição à frase de Saint-Exupéry. Matarem uma pessoa é matarem-na uma vez, mas se matarem os seus filhos, matam-na de um modo difícil de contabilizar. Neste caso teremos de ser benevolentes com a matemática. A ideia de paternidade é um prolongamento óbvio da vida individual, que retira os progenitores do centro e os coloca na periferia.

Quando partimos um pão ao meio ficamos com duas metades. Com o amor podemos fazer o milagre de amar cada um dos nossos filhos de modo absoluto, sem dividir esse mesmo amor em duas metades. As paixões abominam a matemática. Nestas coisas, podemos partir o pão ao meio e ficar com dois pães inteiros. Amar é um milagre bíblico. Os afetos não se gastam quando são partilhados, como aconteceria com qualquer riqueza material. Esse fenómeno, ainda que vulgar, não deixa de ser estranho, e em certa medida miraculoso.

Uma paixão pode ser infinita, eterna, absoluta. Sentimo-la assim muitas vezes. Racionalmente, não conseguimos apreender o infinito senão com signos, metáforas e analogias. Podemos sentir a eternidade, mas não podemos contabilizá-la, podemos sentir o infinito, mas não o podemos medir. A razão funciona com blocos definidos, com partículas e pontos, mas a paixão é porosa, é abstrata e pode, no seu corpo imaterial, conter a eternidade e o infinito, mesmo que confinada a um tema, a uma pessoa ou a um objeto. Ou seja, quando falamos de sentimentos, dois mais dois não são quatro, assim como um a dividir por dois não é um meio.

Por causa desta condição absoluta, muitas vezes sentimos que criar alguém implica uma responsabilidade total, mais importante do que a vida individual.

Rousseau abandonou quatro dos seus filhos num orfanato, com a lamentável desculpa de que não seria um bom pai para eles. Mais tarde escreveu todo um tratado sobre como educar uma criança. Em certa medida, este desfasamento entre potência e ato, mesmo que se apresente em proporções e dramatismo diferentes, é relativamente comum. Há pessoas que sabem exatamente como educar um filho, mas na prática revelam-se péssimos pais; e outras que, não tendo a mínima noção do que estão a fazer, são excelentes. Eu, a maior parte das vezes, divido-me entre estes dois tipos de pessoas.

[Publicado na edição em papel da Notícias Magazine de 29 de janeiro]

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