OPINIÃO

1978: Tijolos como cadeiras nas escolas portuguesas

A poucos dias do início das aulas, memória de uma reportagem realizada três anos após o 25 de Abril de 1974, numa escola primária onde os alunos eram mais do que as cadeiras e as condições revelavam um país muito atrasado na educação.

Texto Ana Patrícia Cardoso Fotografia Arquivo DN

Prefiro não saber onde é que os garotos vão buscar os tijolos nos quais se sentam para assistir às aulas”, desabafou a professora de uma escola primária em Camarate.» Assim arrancava a reportagem publicada no Diário de Notícias a 5 de Outubro de 1978, pouco tempo após o arranque do ano letivo.

O «Barracão do Jordão», como ficou conhecida a escola de Vila Lorena, em Fetais de Baixo, era um espaço alugado pela Câmara Municipal de Loures para remediar a falta de instalações capazes de albergar os alunos da região. À época existiam apenas mais duas escolas do ensino básico em Camarate, insuficientes para os cerca de «dez mil habitantes nos oito bairros da freguesia», para os quais, segundo o DN, seriam necessárias pelo menos «quinze salas de aula».

«Nas duas salas, o panorama é chocante. Os alunos são acomodados em quatro por carteira e as lições dadas por dois professores simultaneamente», relatava o DN.

Atualmente, Camarate tem seis estabelecimentos de ensino, um crescimento que não espelha a evolução do país nesta matéria. Segundo a Pordata, em 1978 havia 10 063 escolas do ensino básico em Portugal, contra as 3796 atuais (cerca de um terço).

Nos primeiros anos da democracia, o investimento na educação a poucos dias do início das aulas, memória de uma reportagem realizada três anos após o 25 de Abril de 1974, numa escola primária onde os alunos eram mais do que as cadeiras e as condições revelavam um país muito atrasado na educação.

Um tijolo como cadeira ainda não se fazia notar. «Nas duas salas, o panorama é chocante. Os alunos são acomodados em quatro por carteira e as lições dadas por dois professores simultaneamente», relatava o DN, que adiantava ainda que um surto de hepatite, no ano anterior, teria sido devido «na opinião dos médicos, à falta de salubridade», uma vez que «não há água nem sanitários, o recreio é a estrada e as cadeiras são tijolos».

Trinta e nove anos depois de esta fotograria ter sido tirada, a história repete-se: em maio deste ano, foi inaugurada a nova Escola Básica nº 1 de Camarate, que funcionava em contentores desde 2009.

MENOS ESCOLAS
Em 1978 havia 10 063 escolas do ensino básico em Portugal. Hoje são 3796 (pouco mais de um terço).

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