OPINIÃO

Vidas de sofrimento depois dos Jogos Olímpicos

As histórias de quem teve de se fazer à vida para lá do desporto - e o que teve de enfrentar.

A cada quatro anos, na falta de medalhas, o país insulta os seus atletas olímpicos. Garantir os mínimos para estar numa competição entre os melhores do mundo está reservado a uma elite que, frequentemente, não respeitamos. Sobretudo porque a maior parte dos atletas tem de treinar em esforço enquanto estuda ou trabalha. E todos, sem exceção, receiam o que os espera quando não puderem voltar a uma piscina ou pista de tartan. Três histórias de quem teve de se fazer à vida depois de uma dedicação total ao desporto.

Albertina Dias bem evita olhar para trás, mas não consegue. «E agora?», perguntou-se aos 34 anos, quando uma lesão na perna a parou quase à força. Nem os médicos nem ela sabiam por que razão ficava tão negra, apenas que lhe afetava a performance. «Tiraram-me o tapete, foi uma perda profunda. Fiquei à deriva, sem plano B», lembra a antiga atleta olímpica (Seul 1988, Barcelona 1992 e Atlanta 1996). Aos 37 teve de abandonar o atletismo. A carreira na alta competição acabou, mal tinha dinheiro para viver.

No ano seguinte perdeu Bernardino Pereira, marido e treinador, para um cancro. A filha tinha 4 anos, Albertina teve de ser forte pelas duas. E agora? É o que se pergunta ainda hoje, com 51 anos, tentada a emigrar para França por uma vida mais digna.

«Nessa altura comecei a limpar casas a cinco euros por hora», diz a partir de Château-Thierry, arredores de Paris, «à espera de legislação que tardava em chegar, a receber uma pensão de sobrevivência ridícula. Era impossível viver», diz a ex-fundista e única campeã mundial portuguesa de corta-mato (Espanha, 1993), corredora dos dez mil metros nos jogos de Seul e Barcelona (1988 e 1992) e da maratona em Atlanta (1996).

«Estava a ficar muito apertada, a desesperar pela minha filha.» Não tinha clube, nem ajudas, nem perspetivas. No centro de emprego do Porto escolhiam gente com mais habilitações: Albertina tinha apenas o 12º ano feito à noite quando corria.

Em 2011 vendeu a casa e as medalhas, incluindo a Nobre Guedes com que o Comité Olímpico a distinguiu, em 1993, pelos resultados alcançados. Nesse ano, a Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto assinou um contrato com 34 antigos atletas de alto rendimento, entre os quais Albertina, para durante quatro anos receberem um subsídio de reintegração de 687 euros. «É uma espécie de subsídio de desemprego, não muito grande, que atualmente varia mediante os resultados e a permanência no projeto olímpico. Mas sempre ajuda quem quer terminar o curso ou montar um pequeno negócio», diz Susana Feitor. A atleta de Marcha, 41 anos, membro da Comissão dos Atletas Olímpicos (CAO) sabe que transitar do alto rendimento para a pós-competição é intimidante para todos os atletas de elite. Muitos nunca aprendem sequer a fazê-lo. «Não temos uma cultura de desporto no país. Há o futebol de topo, com os seus muitos milhões, e de quatro em quatro anos fala-se das outras modalidades que conseguem boas qualificações nos Jogos Olímpicos, porque se não conseguirem também são enxovalhadas.» Como se os resultados caíssem do céu. Felizmente, devagarinho, vai notando avanços, apesar de achar que muitos dirigentes desportivos ainda vêm a alta competição como desperdício de dinheiro e não como um investimento.

«Ainda bem que os atletas de agora não têm de mendigar ao pararem. Antigamente ninguém ajudava nada. Eu com 12 anos já trabalhava num armazém, a palmilhar dez quilómetros para abastecer as mercearias com cestas de alimentos», diz Albertina Dias. Ao terminar o dia passava numa zona onde via jovens a correr e dizia à mãe que queria aquilo. «Ela deixou e eu nem ia a casa, saía às 19h30 e ficava logo a treinar.» Com 15 anos foi limpar escritórios na Alfândega do Porto, depois foi paquete a entregar despachos. Entretanto o Boavista ficou de olho nela, deu-lhe trabalho na secretaria, mas parou lá pouco. «Deixavam-me ir logo para a pista às nove da manhã. Fazia uma hora de manhã e outra à tarde, mais duas de trabalho técnico.» A atleta está há três anos no Instituto Português do Desporto e Juventude. Só pede que a deixem trabalhar sem receio dos recibos verdes que, bem espremidos, pingam pouco ao final do mês. «É tão ingrato que nem sei…»

Susana Feitor percebe este estado de espírito inquieto, resultante de uma vida de dúvidas quanto ao futuro. «O problema na evolução das carreiras dos atletas é terem de decidir sempre se se dedicam a um campeonato, um estágio ou se estudam para os exames.»

Na missão olímpica ao Rio, alguns são exemplos, como Rui Bragança, que concilia os estudos em medicina com o taekwondo, ou Ana Rente, a ginasta de trampolim que também quer ser médica. Mas ambos consideram abandonar a alta competição em breve, por lhes ser difícil gerir duas carreiras que exigem uma dedicação total. «Eu estudava e marchava duas vezes por dia, tinha de optar ora pela escola, ora pela carreira desportiva, consoante os objetivos de cada ano. Andar na faculdade é tão exigente como treinar, mesmo havendo medidas de apoio legisladas e disponíveis.»

Diana Gomes sabe bem do que fala Susana. Foi detentora de quase todos os recordes nacionais absolutos em bruços, a mais jovem nadadora de sempre a obter os mínimos olímpicos (aos 14 anos) e a mais jovem a competir (tinha 15 nos Jogos de Atenas 2004, além de ir a Pequim em 2008). «Acordava às 5h30 para entrar na água às 6h15 no Jamor, corria para a faculdade no Alto da Ajuda às 8h30, estudava e à tarde fazia treino de água na Reboleira das 17h30 às 21h00.» Aos 27 anos, reconhece que muito era possível graças a professores flexíveis a calendarizar (uma medida prevista na lei), mas outros fizeram-lhe a vida negra. «Acabei o curso em 2012, trabalhei um ano numa gráfica, mas em 2014 tive de me fazer à vida.» Sem bolsa olímpica ou da federação, sem patrocínio e com casa para pagar, deixou de nadar para abrir um café com a mãe.

Nos EUA, por exemplo, a organização da política desportiva baseia-se na escola e nas universidades, que se esforçam para que os seus atletas-estudantes obtenham resultados. Em Portugal funciona por clubes e descura a ferramenta do ensino articulado, que já funciona em certas escolas ao nível da música e da dança. «Cá, os atletas só têm direito a apoios do Estado quando atingem um determinado nível internacional, avaliado segundo parâmetros dos Jogos Olímpicos. Mas nem estes apoios são ilimitados, nem os atletas têm acesso a eles se não mostrarem um nível elevado, sendo que para isso terão de dar o máximo socorrendo-se da família ou de um clube que os ajude a pagar algumas despesas», explica Susana Feitor. Tudo está relacionado e é proporcional ao que cada um alcança. «Não tendo bons resultados nos Jogos, fica difícil angariar outros apoios que lhes permitam melhorar.»

Isto reflete-se também no fim da carreira desportiva, diz Maria do Socorro Dantas, mestre em Ciências do Desporto, autora da tese Narrativas de Envelhecimento a partir dos Sentidos Atribuídos por Atletas Olímpicos (Universidade do Porto). «Alguns não estão suficientemente preparados para a transição nem para o afastamento definitivo da alta competição, e essa dificuldade em aceitar pode ser associada a falta de apoio social, limitações na habilidade de enfrentar mudanças ou insegurança financeira», diz a especialista, apontando ainda o vazio por o corpo ter chegado ao limite e a falta de formação académica.

Aconteceu com Carlos Lopes, de 69 anos, ouro na maratona dos Jogos Olímpicos de Los Angeles (em 1984), prata nos 10 000 metros em Montreal (1976): apesar de ter sido dos primeiros a conseguir viver do desporto como atleta, arrependeu-se de não aceitar o convite da Académica aos 17 anos, já que teria uma formação de que não dispõe. Veio de Viseu para Lisboa em 1977, treinar no Sporting. Em entrevista a Socorro Dantas, contou também que teve de trabalhar até a competição ser autossustentável, «embora tivesse sempre muita dificuldade em acordar às 6h30, ir trabalhar das 8h00 até às 18h00 e treinar das 19h00 às 21h00.» Ainda assim, a sua maior perda foi não saber tirar partido daquilo que fez, por não ter ninguém que o orientasse.

Ao fim de 28 anos de marcha atlética, Susana também pondera despedir-se da alta competição. O corpo diz-lhe que pare – tê-lo-ia feito nestes Jogos do Rio se não se tivesse lesionado, seria a sua sexta participação – e quer dedicar-se ao curso de gestão das organizações desportivas na Escola Superior de Desporto de Rio Maior, com o qual espera ajudar outros atletas a prepararem o regresso à vida «normal». Continua ligada à CAO (de que foi presidente entre 2001 e 2005), a lutar por medidas fiscais e de reintegração socioprofissional dos atletas de alto rendimento. «Noutros países os atletas treinam e estudam sem interrupções, há estruturas montadas para democratizar o acesso ao alto rendimento, é possível envolver saúde, educação e desporto. Podemos tentar o mesmo em Portugal.»

Teresa Machado, 47 anos, espera que sim. Não por ela, está retirada, mas pelos colegas mais novos. «Quando estamos no topo, a fazer boas marcas e a bater recordes, somos os maiores. Depois ninguém nos conhece», revolta-se a lançadora de disco e peso da Gafanha da Nazaré, quatro vezes olímpica (Barcelona 1992, Atlanta 1996, Sydney 2000 e Atenas 2004) e 53 vezes campeã nacional. Nunca lhe deram a mão quando terminou uma carreira multipremiada de 24 anos, tinha ela 39. Avessa a pedinchar, foi à luta logo em 2004, tirando a custo um curso de fisioterapia e reabilitação em Coimbra, enquanto limpava casas, escadas e queimava os últimos cartuchos na competição. «Já deixei de pensar que podia continuar ligada ao desporto como treinadora, ou enquadrada num clube ou numa escola.» Se se sente realizada? «Acho que sim. Estou empregada e o mérito é meu.»

A FORÇA DE SER FINALISTA
De quatro em quatro anos, a conversa é a mesma. De um lado, comentadores, alguns jornalistas e população em geral, a sublinhar as falhas dos atletas olímpicos portugueses e a chamarem-lhes preguiçosos e pouco focados. Do outro, os próprios atletas (e técnicos) garantem ter dado o máximo, orgulham-se de ali terem chegado apesar das dificuldades e justificam a derrota com a força dos adversários. E bem podem fazê-lo enquanto Portugal encarar o desporto como um hobby, defende a marchadora Susana Feitor. «Em países com elevada prática desportiva, como EUA, Reino Unido, Holanda ou Espanha, valorizam lugares que cá se desprezam. Ser-se finalista dá tanto trabalho e custa tanto a alcançar em termos financeiros como ganhar uma medalha.» Para Susana, os «comentários infelizes de sempre» têm muito que ver com o desconhecimento das pessoas, que nem se dão ao trabalho de ir saber como as coisas funcionam. «Nós investimos, damos tudo e não sabemos se vamos conseguir.»

Ana Pago