OPINIÃO

Ver ou não ver esta final do Euro 2016…

...eis a questão. Superadepto de futebol vs. alérgio ao futebol, quem ganha?
Opostos Futebol

João Gonçalves, informático, doente da bola, vai de certeza ver a final do campeonato europeu de futebol. Rodrigo Nogueira, jornalista, não terá dificuldade em arranjar programa melhor.

Estivemos um mês em frente à televisão a ver os jogos do Europeu de futebol e a ver mil e uma reportagens sobre os fait-divers da grande prova da UEFA. As análises, as entrevistas, os golos, os resumos, os festejos… Estivemos? Nem todos.

Rodrigo Nogueira, jornalista, não tem particularmente orgulho em passar completamente ao lado do fenómeno do futebol, mas também não tem problemas em afirmar que hoje não vai estar colado a uma televisão para ver a final do Campeonato da Europa – mesmo com a seleção nacional no Stade de France. Do outro lado, João Gonçalves é o típico aficionado de futebol. Para ele, o desporto é uma perdição, daquelas em que não há nada a fazer. Sabe tudo sobre táticas, jogadores e historial deste desporto que considera ser o mais belo. Apesar de ser um benfiquista dos sete costados, garante que aquilo que o move é a paixão pelo futebol como um todo. Nas últimas semanas, viu todos os jogos da Copa América e do Euro. É fanático a ponto de dizer: «Olho para pessoas como o Rodrigo e penso que poderia ser tão mais feliz se não gostasse tanto de futebol. É como se fosse uma doença, ou melhor, é mais um modo de vida. Tudo na minha vida é em função do futebol. A minha vida são intervalos entre os blocos de noventa minutos de cada jogo. O que quero é ter saúde para chegar ao dia do jogo bem-disposto. Depois de acabar um jogo é uma chatice: temos de viver e esperar até ao próximo.»

Rodrigo sorri e não se desmancha. Jura não ter clube e só uma vez foi a um estádio ver um desafio. E não percebeu o que por lá se passava. Não entende mesmo nada dessa coisa de 22 homens de calções atrás de uma bola. Diz que não tem pena de ser excluído nas conversas futebolísticas (o telemóvel, garante, salva-lhe agora a vida…) e que não decora nenhum nome de jogador (só mesmo o de Ronaldo por razões óbvias). «Não me sinto, ainda assim, ostracizado perante os outros. Aliás, sinto é que ostracizo os outros quando falo de um nome de uma banda ou de um ator que desconhecem…» A paixão de Rodrigo é precisamente o cinema e a cultura pop musical.

Mas… nem os jogos da seleção nacional? Nem com a companhia dos amigos e uns copos? «Não consigo mesmo ter concentração para olhar para aquilo. E se for para estar a beber copos, não resulta porque bebo rápido e, depois, tenho de ir buscar mais um. E também não festejo quando há golos… Sinto aquela vibração da dúvida se a bola entra ou não, mas depois não me faz diferença nenhuma.» A prova disso: no jogo Hungria-Portugal foi ao barbeiro – que também não gostava de futebol.

E, na prática, isso resulta em dificuldades em estar com os amigos? Depende. «Eu não sou de jantar tarde e em dias que há bola eles marcam jantares para as 23h00. Vou lá ter depois! O facto de não perder tempo a ver jogos faz-me ganhar muito tempo de qualidade de vida.» Só não tem é paciência para os festejos ruidosos. «Ajuntamentos no Marquês de Pombal, ainda vá. Não posso é com pessoas a buzinar e a dizer “o meu clube ganhou”. Ok, está bem, fixe! Mas não me chateiem com isso”.»

João solta uma gargalhada, divertido. Para ele, é mesmo estranho ouvir tudo aquilo, embora também se queixe do protagonismo que o Euro 2016 teve em termos mediáticos. «Todas essas reportagens e curiosidades sobre os bastidores provam o que sempre penso: o pessoal que só liga ao Euro é pessoal que não gosta, afinal, de futebol. Quem gosta de futebol não quer saber se o autocarro da seleção já partiu.»

João Gonçalves é um amante honrado desta modalidade. O facto de nunca perder um jogo do seu Benfica é coisa que a namorada já percebeu ser regra do jogo. Dele. Rodrigo, por seu turno, garante que todas as namoradas percebiam mais de futebol do que ele. Uma garantia dita com orgulho por alguém que nunca vibrou com golos.

No final do encontro, Rodrigo não ficou com nenhum cachecol de clubite do João. E, tanto quanto sabemos, este não conseguiu convencer o primeiro a ver o jogo de hoje.


Leia também a crónica de Ricardo J. Rodrigues sobre a presença da seleção nacional na final do Euro 2016.


 

Rui Pedro Tendinha
Fotografia Leonardo Negrão e Jorge Amaral/Globlal Imagens