Que árvore quer ser depois de morrer?

Urnas biodegradáveis

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Nuno e Raquel Gonçalves importaram para Portugal a ideia das urnas ecológicas biodegradáveis.

Babilónios, egípcios, astecas e tantos outros povos viam na árvore um símbolo da imortalidade. E se, agora que há urnas biodegradáveis, o mito virar realidade? Porquê morrer para sempre quando pode voltar à vida como árvore?

A morte está cheia de metáforas, mete medo, levanta questões. Julgamos enganar o destino não falando dela, mas sabemos que nos toca a todos: ninguém fica cá para semente. Ou pelo menos não ficava, antes de a empresa portuguesa SigmaPack disponibilizar os seus serviços fúnebres ecológicos que nos permitem ter as cinzas transformadas em árvore. Carvalhos, faias, pinheiros, gingkos. Florestas no lugar de cemitérios tristes e corrosivos. Que melhor forma de retornar à vida do que por meio da natureza?

«É preciso abater duas árvores para construir um caixão de cremação comum, de madeira. Matamo-las para as queimarmos, que sentido é que isso faz?», questiona Nuno Gonçalves, de 43 anos, mentor desta ideia das urnas ecológicas biodegradáveis em Portugal. A incredulidade estende-se às urnas tradicionalmente levadas a enterrar: como podemos continuar a usar modelos com revestimentos nocivos, metais, ceras e vernizes que contaminam as águas dos cemitérios? «A morte é um tabu tremendo e eu acredito ser preciso clarificar as coisas para as pessoas perceberem a enormidade do impacte ambiental. Se com uma só árvore fazemos cem urnas, não pode haver dúvidas.»

Nuno já pensava nisso havia uns oito anos, quando ainda se dedicava ao negócio da embalagem. Aprendia tudo sobre materiais, enchimentos, logística – tão úteis também neste universo fúnebre – e sonhava com um produto inovador. «Um dia chegou a casa e falou-me de urnas ecológicas biodegradáveis, o que é que eu achava do assunto», conta Raquel Lopes Gonçalves, a mulher e sócia, de 34 anos. «Na altura ainda não tinha pesquisado nem encontrado nada a respeito, mas o conceito fascinava-o. Respondi-lhe que era muito à frente.»

Em 2014, fundaram a SigmaPack, a primeira empresa europeia com certificação de sustentabilidade (na verdade, é mais um grupo de pequenas empresas especializadas em soluções verdes e bem-estar, todas do casal). Raquel queria ser terapeuta de saúde, largou a engenharia agronómica e criou a Facilitas, para ajudar a deixar de fumar, e a StressZero – foram essas as pedras iniciais da estrutura familiar. Nuno saiu entretanto da direção comercial da Inapa, uma multinacional de distribuição de papel, e em 2015 importou da Argentina as urnas Restbox, provenientes da reciclagem de papel e cartão, que tanto podem ser reutilizadas como fonte de nutrientes pela terra, como reduzir o consumo de gás e o tempo de cremação.

«No país de origem, a Restbox não está apenas ligada à questão da ecologia, mas também a uma vertente de responsabilidade social: pessoas que viviam nas ruas estão a ser integradas em empresas, a fazer a recolha de resíduos, que depois são entregues a uma cooperativa de reciclagem para o fabrico das urnas», explica o empreendedor. O processo encaixava no seu ideal de deixar o mundo melhor, somando benefícios: proteção do planeta e dos solos; conversão dos cemitérios em zonas naturais; funerais dignos acessíveis a todos.

«Cá, cerca de oitenta por cento das cerimónias tradicionais são pagas pela família, num valor mínimo de 1600 euros. Muitas ficam presas à dívida», lamenta. E isto com a SigmaPack a conseguir prestar serviço completo numa funerária por valores abaixo dos 100 euros, quando só a urna de madeira para cremação custa, no mínimo, 200. O ritual fúnebre inclui uma urna clássica a envolver a Restbox – de aspeto luxuoso, embora feita da compactação de restos –, e no fim apenas é cremada a urna ecológica biodegradável no interior (a porta-Restbox fica, assim, livre para ser usada noutros funerais).

O melhor surge na fase seguinte com as urnas Bios, um produto que desencantaram em Barcelona e custa 103 euros online: em vez de se guardar as cinzas do ente querido num pote, são colocadas nesta urna à base de turfa, casca de coco e celulose, com uma semente à escolha, e vão originar uma árvore. «Em Espanha, há cemitérios que são autênticas florestas com gente a passear, crianças por ali, muito verde. Cá, só vamos ao cemitério quando tem mesmo de ser e, se vamos, não nos identificamos com tanta pedra», aponta o responsável. Têm um ar abandonado. Já para não falar nos custos da compra do terreno ou, no caso das sepulturas temporárias, das exumações e outros procedimentos que podem elevar até quase ao dobro a despesa inicial. «Somos todos matéria. Se o que sobrar puder ser transformado noutro ser vivo, porque não? É brutal poder fechar o ciclo da vida desta forma tão bonita.»

Em 2015, apoiados financeiramente pelo amigo Mário Marques – um engenheiro civil que acreditou no projeto –, tornaram-se os únicos detentores do conceito que associa ambas as urnas em sequência. Iniciaram conversações e parcerias com funerárias, entidades governativas e quem mais se quiser juntar. Estão ainda a desenvolver com as seguradoras um projeto de funeral ecológico, em que a pessoa paga uma mensalidade e cobre antecipadamente a própria morte. «A nossa meta é criar a primeira agência funerária ecológica», revela Nuno, a estudar, para já, a viabilidade de instalarem um forno crematório na sede da empresa em Pero Pinheiro, Sintra. Faz-lhes falta desde que alargaram a sua visão da morte também aos animais.

«Muitos donos fazem questão de prestar esta última homenagem aos seus fiéis amigos», constata Raquel. De norte a sul, não têm tido mãos a medir com os serviços fúnebres ecológicos PerPETuate, que incluem a recolha e transporte do corpo do animal, cremação, emissão de documentos de controlo e certificado de cremação (cumprindo os requisitos legais) e devolução das cinzas na urna Bios. No ano passado houve 150 pedidos de Bios, 60 dos quais para animais. O PerPETuate varia entre os 240 e os 400 euros – caso tenham de ir ao Porto buscar um animal de 50 quilos, por exemplo. «Tratamos de cada etapa e está tudo incluído no preço. Os donos só têm de se preocupar em fazer o seu luto.»

O nobre regresso à natureza beneficia de uma lei recente (março de 1998), segundo a qual o enlutado dá o destino que entender às cinzas resultantes da cremação. Se tiver um jardim, pode plantar o avô Manel ou a Farrusca no lugar onde gostavam de ler o jornal ou deitar-se ao sol, a vê-los crescer de novo. Num apartamento tem os vasos: é só optar pelo bonsai em vez de um freixo. E nada receiem os menos jeitosos: há uma incubadora que lhes desenvolve a árvore em casa, sem destoar da decoração, ou podem pedir à Sigmapack que lhes germine a semente em terreno próprio e entregue a arvorezinha pronta a vingar. «Ainda não se pode plantar em qualquer lado, neste ponto somos um país onde as coisas custam a entrar. Mas possibilidades não faltam.» E cuidar de uma planta com amor é sempre preferível ao vazio da perda.

Urnas biodegradáveis

Urnas biodegradáveis

CINZAS ÀS CINZAS, PÓ AO PÓ
É difícil ficar de bom humor ao imaginar-nos sob a terra, a servir de repasto aos vermes, e no entanto há quem receie ainda mais ser reduzido a cinzas e acabar num columbário, sem hipótese de caminhar no Juízo Final. A própria Igreja enaltece o ritual do enterro por ter sido assim que Cristo foi sepultado, mas certo é que a cremação está a ganhar adeptos: em dez anos, o número passou de 2053, em 2001, para 8948 em 2011, sustentado por uma maior quantidade de fornos crematórios: dois em 2001 e 16 em 2011. Em 2014 foram perto de 14 mil e não param de aumentar, com 21 fornos a funcionar atualmente em Portugal, ilhas incluídas. «Não há como o fogo para purificar e dar-nos um final limpo, económico, em que realmente consigamos explorar a tal ideia de floresta», sublinha Nuno Gonçalves. «As cinzas são do mais clean que existe. Se dispusermos de um terreno à medida do nosso sonho, em que possamos ter as devidas autorizações, os horizontes vão de certeza alargar-se.»
A cremação é também o melhor destino a dar aos animais mortos por razões de saúde pública. Municípios com incineradora, como Lisboa, cremam os seus residentes de quatro patas a custo zero e recebem outros de áreas circundantes mediante o pagamento de uma taxa, em cremações coletivas que impossibilitam a devolução das cinzas aos donos. Os que não dispõem de forno próprio contratam empresas que asseguram a recolha, transporte e tratamento em destino final. No caso das cremações individuais, são feitas maioritariamente na Associação São Francisco de Assis, em Cascais, e custam 210 euros se o animal pesar entre 10 e 30 quilos (as coletivas são 35). É com eles que a SigmaPack trablha hoje em dia, dependendo sempre dos agendamentos da Associação.