OPINIÃO

Uma colher de pau para lembrar as trincheiras

A historiadora Ana Paula Pires tem-se dedicado à investigação sobre a presença portuguesa na Primeira Guerra Mundial.

 

Desde 1914 que Portugal combatia os alemães em Angola e Moçambique, lembra Ana Paula Pires em entrevista. A historiadora, que desenvolve investigação sobre a presença nacional na Primeira Guerra Mundial, tem interpretado muitas memórias – que as famílias tiram dos baús – do conflito em que estiveram os pais, os avós ou mesmo os bisavós.

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Portugal oficialmente entrou na Primeira Guerra Mundial a 9 de março de 1916. O que aconteceu nessa data?
Aconteceu a declaração de guerra da Alemanha, na sequência da apreensão dos navios de guerra alemães e austríacos que estavam fundeados em portos portugueses desde a entrada da Alemanha na guerra. Portugal resolveu nessa altura, face às dificuldades que tinha nos abastecimentos e no transporte, tomar para si os navios.
É Portugal, então, que tem a ação que desencadeou a guerra?
Sim. Mas é uma iniciativa escudada pela Grã-Bretanha. Portugal já vinha sendo pressionado desde 1915 no sentido de tomar esses navios. Temos de olhar para o cenário de guerra internacional e era uma altura em que os aliados estavam numa situação complicada na Flandres.
Portugal estava a ser pressionado pelo velho aliado a entrar na guerra?
Não tanto a entrar na guerra. Era mais para requisitar os navios. Porque no íntimo da diplomacia britânica nunca se pensou que essa tomada de navios pudesse dar numa declaração de guerra.
Contudo, Portugal já tinha combatido a Alemanha em África.
Esse é um cenário pouco conhecido e faz impressão às pessoas perceber como é que nós só entrámos na guerra em 1916 se já tínhamos tropas a combater em África. Uma das preocupações da diplomacia republicana foi salvaguardar o património colonial. Há um envio de tropas logo em setembro de 1914.
Estamos a falar do Sul de Angola e do Norte de Moçambique, fronteiriços com colónias alemãs…
Exatamente.
Os alemães tinham atacado em África?
Não, o que aconteceu foi uma coisa bastante paradigmática e exemplificativa daquilo que foi a política portuguesa. Portugal é o único país envolvido na guerra que tem nesta fase inicial uma declaração de não neutralidade e não beligerância. Portanto não é neutral nem é beligerante. A pedido da aliança britânica, Portugal tinha tido este estatuto ambíguo. Logo nesses meses são enviados militares para Angola e Moçambique porque os territórios, ainda antes da declaração de guerra, já tinham sido alvo de cobiça e de disputa por parte da Grã-Bretanha e da Alemanha. Portanto, o governo português percebeu rapidamente que, se a guerra alastrasse às colónias, os territórios poderiam estar em perigo.
E a própria Grã-Bretanha os cobiçava.
A própria Grã-Bretanha poderia tomar conta deles. Mais valia enviar tropas. Estas expedições são meras expedições coloniais, com o intuito de proteção de fronteiras, nada mais. O que vai acontecer depois é dramático. As baixas são elevadíssimas. Desde logo pelas razões climáticas, mas também por as tropas não estarem preparadas. Estavam habituadas a travar combates com tropas indígenas e não com tropas europeias bem treinadas. E as primeiras escaramuças começam logo em dezembro de 1914, com o desastre de Naulila, em que há setenta militares portugueses mortos.
Estamos a falar na frente angolana. Depois há combates junto ao rio Rovuma, em Moçambique.
Exato, mais tarde.
Daí virá o único acréscimo de território que Portugal tem como prémio da guerra?
Portugal consegue recuperar, depois nas negociações de Versalhes, um enclave, o chamado triângulo de Quionga, que tinha sido ocupado em 1898 por tropas alemãs. É a grande vitória.
Na frente europeia, enviámos tropas para a Flandres. Não foi consensual?
Não, de todo. Houve consenso em relação ao envio de tropas para África. Mas para a Flandres a questão foi totalmente diversa. Nunca houve um entendimento sobre aquilo que devia ser a participação de Portugal na frente europeia. Houve sempre a divisão do país entre guerristas e não guerristas.
Mas a opinião pública e a classe política estavam ao lado de Inglaterra?
Claramente.
Nessa altura já se percebia que o campo da Entente Cordiale (aliança franco-britânica) ia vencer?
Ainda havia incerteza. 1916 é um ano dramático para as tropas britânicas. É o ano da batalha do Somme, em que há milhares de vidas que se perdem. Portanto havia a sensação de que algo estaria bastante tremido para o lado da Grã-Bretanha e que havia uma hipótese, talvez não tão remota quanto isso, de a Alemanha vencer.
Fala-se muito de as nossas tropas terem ido mal preparadas para a Flandres, até em termos de equipamento. É mesmo assim?
Eram tropas que tinham sido aquarteladas pouco tempo antes de irem para a frente. Eram homens que não tinham qualquer experiência de combate. Se quisermos fazer um ponto de comparação com as unidades britânicas, em que eram muito associadas a uma região, em que os homens se conheciam ou porque tinham sido companheiros de escolas ou porque tinham trabalhado juntos, no nosso caso isso não existiu. Também os oficiais portugueses, muitos, estavam revoltados com a ida para a guerra. Ora como é que um oficial revoltado pode liderar alguém?
Houve problemas disciplinares?
Houve tropas que se recusaram a embarcar. Houve o célebre episódio de Tomar, com Machado Santos, o herói da Rotunda, que impediu o embarque de tropas para a Flandres.
Estamos a falar de comboio? As tropas foram de comboio para a Flandres?
Foram de comboio. Foram do Entroncamento. Aliás ainda está ali algum equipamento. O facto de não estarem bem equipados em termos de munições ou de armas não se colocava. As nossas armas eram iguais às dos outros exércitos. Era mais uma questão de motivação e de organização. Temos de perceber em que fase estava o exército português. Tínhamos tido uma revolução em outubro de 1910 e a reorganização do exército tinha sido em 1911.
Tínhamos perdido chefias militares que eram monárquicas?
Tinha havido alguma revolução ao nível das forças armadas. Sobretudo ao nível do recrutamento. Ao nível da própria hierarquia houve, ainda que não tenha sido bem-sucedida, uma tentativa de depuração das elites militares.

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La Lys, que é a batalha de que todos os portugueses já ouviram falar, é uma grande ofensiva alemã e há um número elevadíssimo de baixas. Ficou o grande mito português da guerra?
Esse é o grande mito que fez que durante muitos anos não se olhasse para a Primeira Guerra Mundial. E aí o Estado Novo teve uma grande responsabilidade. Olhava para o Partido Republicano como o partido charneira que empurrou Portugal para aquela desgraça que foi La Lys, em que tudo correu mal [terão morrido 398 portugueses e cerca de 6500 foram feitos prisioneiros, apesar de os números não serem consensuais]. Temos depois o contraponto com a Segunda Guerra Mundial, em que Salazar manteve a neutralidade. La Lys é um mito negativo, de derrota de Portugal numa campanha militar no exterior. O que é que aconteceu? Bem, todas as tropas na linha da frente tinham um tempo de rotação. No caso português isso não aconteceu. A pressão era imensa por tudo o que sabemos da vida das trincheiras. E quando surgem os ataques de 9 de abril de 1918, enquadrados numa ofensiva alemã, as tropas portuguesas estavam tudo menos frescas. Estavam cansadas, muitos homens estavam doentes, muitos tinham regressado a Portugal. E em dezembro de 1917 tinha acontecido o golpe de Sidónio Pais e todos sabiam que o novo presidente tinha uma posição bastante particular quanto à Flandres,
achando que era altura de diminuir o esforço de guerra.
Sidónio Pais era suspeito de ser germanófilo?
Sim. Porque foi embaixador de Portugal na Alemanha. O que acontece é que muitas destas tropas vêm a Portugal de férias e já não regressam. O que acontece quando há esta grande ofensiva é que não há capacidade de rotação. Era impossível. Não tem que ver com má preparação. Se fosse o exército mais bem preparado do mundo, teria sucumbido da mesma maneira que o português.
Era um país em grande agitação política e social. Houve também ataques dos alemães a Ponta Delgada e ao Funchal?
Houve visitas de alguns submarinos.
A guerra não chegou a Portugal continental mas chegou às ilhas?
Sim. E houve também um episódio bastante conhecido que é a morte de Carvalho Araújo, com o afundamento do navio Augusto Castilho por um submarino alemão nos Açores.
No fundo, a guerra foi travada em África, na Flandres e nas águas portuguesas?
Nas águas portuguesas e cá também. Porque a fome que se fez sentir acaba por ser também um reflexo direto da guerra. As dificuldades de bens alimentares de primeira necessidade fizeram que a guerra chegasse ao quotidiano dos portugueses.
Daí a popularidade da neutralidade na Segunda Guerra?
Exatamente. Oliveira Salazar nesta altura já estava vivo, de saúde e com cabeça para pensar. E tirou grandes lições da Primeira Guerra Mundial. Se olharmos para o que foram as suas medidas durante a Segunda Guerra Mundial, veremos que há ali uma observação direta do que aconteceu.
Como é que, como historiadora, se interessou pela Primeira Guerra Mundial?
Quando fiz a minha tese de mestrado, comecei por estudar a indústria de moagem de cereais. Aí percebi que entre 1914 e 1918 essa indústria passou a ter um papel bastante importante porque havia uma coisa chamada crise de subsistência, a chamada fome. E comecei a tentar perceber o que acontecia em termos de quotidiano. Quais tinham sido as medidas que o Estado tinha tomado para mitigar o impacte da guerra ao nível do cidadão comum.
Foi um processo puramente académico? Não houve um avô ou bisavô na guerra?
Por acaso há. Há um bisavô que esteve na Flandres
O Instituto de História Contemporânea da Nova tem tido uma série de iniciativas como recolher testemunhos que vão desde cartas a armas de pessoas com antepassados que estiveram na guerra. Tiveram uma grande adesão, certo?
Foi uma iniciativa que começou em 2012, 2013. Vimos que há um projeto europeu, o Europeana 1914-1918, que tem esta missão de recolher as histórias de família relacionadas com a Primeira Guerra. Fui com a professora Fernanda Rollo à Irlanda assistir primeiro road show. E ficámos fascinadas a ver velhinhos a carregar baús, literalmente baús, com fotografias de familiares que tinham combatido.
E fizeram a mesma coisa na Assembleia da República?
E nós, com um certo grau de ousadia e de loucura, fizemos o mesmo na Assembleia [outubro de 2014] e correu muito bem. Devolvemos tudo, mas primeiro fotografámos e digitalizámos.
Há algum objeto que a tenha marcado mais?
Um senhor que levou uma colher. Era simplesmente uma colher que tinha sido usada pelo pai dele, que fazia parte do kit que foi distribuído às tropas que foram para África. O pai usou essa colher em África. Depois essas tropas foram para a Flandres. O pai também usou essa colher na Flandres e depois foi feito prisioneiro de guerra e a colher acompanhou-o sempre. O filho, emocionado, levou-nos essa colher que contava esta história de vida.

Leonídio Paulo Ferreira
Fotografia Orlando Almeida/Global Imagens