OPINIÃO

Um milagre na guerra

Ou as muitas vidas de Isabel Batata-Doce. Uma reportagem que valeu ao jornalista Ricardo J. Rodrigues o prémio Gazeta 2015 na categoria de Imprensa.

Em 1965, em Angola, um grupo de soldados portugueses encontrou uma bebé de 2 anos no meio do mato. Acolheram-na no quartel e trouxeram-na depois para Portugal, onde cresceu sob o olhar do regime e o apoio dos militares. Esta é a história de Isabel Batata-Doce, da sua demanda pelo passado e de como conseguiu construir, no meio da incerteza, uma improvável felicidade.

O BATALHÃO 525 chegou a Angola a 27 de julho de 1963. Era constituído essencialmente por rapazes do Minho, que passaram o primeiro ano na zona quente dos Dembos e o segundo em Catete, 60 quilómetros a sudeste de Luanda. Aqui a presença portuguesa era cimento – somava séculos de colonização. «À primeira vista parecia muito mais calmo», conta agora Antonino Araújo, 75 anos, que tantas vezes patrulhou o terreno. «Mas na verdade era uma zona pantanosa e de vegetação densa, onde os guerrilheiros atacavam quando menos se esperava. Era muito perigoso.» A guerra, que começara em fevereiro de 1961 em Luanda, e nos meses seguintes se tinha intensificado no Norte do país, espalhava‑se agora à região centro, terras quimbundas. Foi precisamente aí que as quatro companhias do 525 estacionaram – aquarteladas ao longo da estrada para Salazar, atual N’dalatando, capital do Cuanza Norte.

A Companhia 522, com mais de uma centena de homens, estava em Barraca, a cinquenta quilómetros do comando de Catete. «Numa manhã pediram‑me para fazer o patrulhamento da zona inimiga, era alferes e liderava um pelotão com 12 soldados», lembra Antonino. Avançaram sem medo até à picada que abria caminho para a Fazenda Alegria, uma plantação de algodão no meio do lamaçal. Depois, atravessaram o rio Zenza, infestado de jacarés. A partir daí, o trilho cumpria‑se com perspetiva de fogo. Ouvissem um restolhar nas árvores e os homens carregavam‑lhe chumbo.

«Estávamos em terreno perigoso, tivemos de rastejar uma parte do caminho e fazer outra de cócoras», e Antonino diz que isso era o pão nosso de cada dia em terrenos da guerrilha. «Não podíamos usar as catanas para abrir passagem, isso fazia demasiado barulho.» Então avançavam lentos, a conquistar arranhões. Duas horas depois, desembocaram numa clareira. Antonino viu logo uma mulher negra, de seios fartos, que carregava uma criança nas costas e outra nas mãos. Assim que a mulher viu os brancos, desatou a correr para o mato mais denso. O alferes ainda lhe gritou «não fujas que eu não te faço mal», mas ela sabia estar em zona de tiro aberto. Fugiu. E esta história começa aqui. Ao subir uma colina, o lenço soltou‑se e o bebé que a mulher trazia no dorso caiu. A mulher prosseguiu a fuga, com a outra pela mão. Mas deixou um problema para os soldados. Um problema que, deitado no capim, chorava.

Perseguir a mulher era perda de tempo, já levava avanço na fuga e conhecia o terreno. Por isso os homens olharam para Antonino, à procura de direcções. O alferes pegou na criança, nua, e enrolou‑a no pano de onde tinha caído. O bebé calou‑se logo e ficou, de olhos abertos, a observar os soldados, sem medo algum. Tinha uma cicatriz na virilha e várias feridas na cabeça, mas de resto parecia estar bem. Deixá‑lo ali, à mercê dos animais, seria um crime. Antonino já vira demasiadas desgraças em Angola, esta não seria uma delas. «Levamo‑la connosco», anunciou. Os outros respiraram de alívio. As guerras estão cheias de histórias assim, raios de dignidade no meio da escuridão.

Até Barraca os homens revezaram‑se a transportar a criança. Mal chegaram, anunciaram o achado. «Se ficarmos com ela, alguém tem de vir buscá‑la», justificou‑se perante os superiores. «Se a mulher tinha fugido, era porque alguma coisa tinha a esconder», reflete Antonino, cinquenta anos depois. Contactaram o comando em Catete. E Manoel Junqueira, comandante do batalhão, perguntou pelo rádio: «É macho ou fêmea?» Era uma rapariga. «Então que venha para aqui», ordenou. A menina foi transportada de jipe para a sede do batalhão, a mais de cinquenta quilómetros do local onde a tinham resgatado ao capim.

NO DIA 29 DE SETEMBRO DE 2015, cinquenta anos depois deste episódio, uma mulher entrou no arquivo do Diário de Notícias para procurar um jornal antigo. Nos andares abaixo do chão da sede do DN, há um piso que encerra 150 anos de história da imprensa portuguesa, e uma caixa‑forte com as publicações mais antigas e valiosas, incluindo uma coleção de desenhos originais de Stuart Carvalhais. Numa sala maior, dividida em dois pisos ocupados com prateleiras que vão do chão ao teto – e são paredes que medem seis metros –, está guardado o acervo do jornal. Todas as páginas de todas as edições, encadernadas em grossos dossiês cinzentos, um por cada mês de cada ano, ao longo de século e meio. Foi aí que se procurou aquilo que Isabel Jacinto pedia. A pesquisa durou um mês.

Os arquivistas acabaram por encontrar o jornal na prateleira A da estante 3. Em novembro de 1965, no dia 1, a primeira página do Diário de Notícias mostrava a fotografia de uma criança de uns 3 anos, rodeada de militares e religiosos. E este título: «Promessa cumprida: os soldados encontraram a pretinha no mato e batizaram‑na no Santuário do Sameiro.» Isabel voltou ao edifício e pediu logo uma impressão. Quando saiu, Simões Dias, diretor do arquivo, ligou para o quinto piso, onde fica a redação da NOTÍCIAS MAGAZINE: «Acho que tenho aqui uma história para vocês.» Daí a uns dias haveria um almoço do batalhão que a encontrara em Angola e a trouxe para Portugal, para celebrar os cinquenta anos do regresso. Isabel queria levar o jornal para mostrar aos antigos soldados. Mas também queria fazer perguntas, tentar reconstruir a memória do que não se lembra. «Eu sei tão pouco, e gostava tanto de saber mais.»

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Os dados pessoais são o primeiro indício de barafunda: acredita que tem 53 anos, mas não tem certeza. «Fui batizada em Braga e foi aí que escolheram a minha data de nascimento», explica. Dia de Nossa Senhora, 13 de maio de 1962. «Quando me encontraram, acharam que devia ter uns 2 anos. Mas, vá lá, pelo menos não me chamaram Fátima.» Não perdeu o humor. Apelidos, tem dois, um para cada vida. Para os soldados e a família que a acolheu em Portugal ela é Isabel Batata‑Doce, porque em Angola passava dias a comer o tubérculo que cresce em Angola. No bilhete de identidade é Isabel Manuel Jacinto, filha de Manuel Jacinto Diogo e Eva Manuel Adão – pais biológicos que não conheceu.

De há uns anos para cá, Isabel anda a tentar perceber o passado. É isso que faz, também, no quartel da serra do Pilar, em Gaia. Hoje é dia de celebrar cinquenta anos do regresso a salvo, há uma missa e um almoço de convívio. Uma centena de homens aderiram ao encontro e Isabel conhece uma boa parte deles. A mulher já tinha participado no almoço dos 25 anos, e também num encontro na capital com os poucos militares – sobretudo oficiais – que viviam em Lisboa. Ao longo do dia, Isabel há de ser abraçada por duas boas dezenas desses veteranos, sobretudo os que estiveram em Catete. «Olha a Batata‑Doce» e muitas lágrimas. Ela não reconhece a maior parte dos rostos, mas entrega‑se aos abraços. Há-de dizer mais tarde que aqueles homens foram a sua família.

Toda a gente tem, no entanto, uma história para contar a Isabel. «Tantas vezes que brincavas comigo.» «Lembras‑te de quereres andar às minhas cavalitas?» «E quando me vinhas pedir batata‑doce?» Sobram recordações de afetos, mas faltam os factos – e são esses que Isabel quer saber. Nenhum daqueles homens tem sequer certeza da data em que Isabel foi apanhada. Contam‑lhe outras coisas, mas isso ninguém consegue confirmar. A resposta está no Museu Militar, em Santa Apolónia. O Arquivo Histórico Militar do Exército, que guarda as ordens de serviço do Batalhão 525, diz que em janeiro de 1965 «foi capturada uma criança às tropas inimigas pela Companhia 522». É a única captura infantil em mais de dois anos de comissão.

VISITAÇÃO TEIXEIRA DE CARVALHO tinha chegado pouco tempo antes a Catete para se instalar com o marido no quartel. Marcelino era oficial miliciano, dirigia o setor de informações, e isso dava‑lhe alguns privilégios como o de poder mandar vir da metrópole a mulher e a filha que tinha 2 anos e se chamava Luísa. Tinham casa numa fazenda próxima, onde não corriam riscos de maior. «Todos os dias íamos de manhã para a messe, era lá que almoçávamos e jantávamos, e tornávamos antes de a noite cair.» Um dia, o major Fiúza Álvares, segundo no comando do batalhão, chegou‑se ao pé das mulheres dos oficiais e das suas crianças que por ali andavam e anunciou: «Minhas senhoras, trago aqui um presente para vocês.» Embrulhada num pano, vinha uma bebé negra.

«Estava toda suja e arranhada e trazia uns cordões presos aos pés, feitiços de proteção Quimbundos», lembra Visitação, que lhe deu os primeiros cuidados. Disse aos soldados que fossem dando banho à criança, e foi a casa buscar um vestido da filha. A criança não chorava, antes olhava com curiosidade para o admirável mundo novo. Tendas enormes, movimento constante, ruídos de máquinas e metal, uma canção diferente do mato. «Nunca a ouvi perguntar pelos pais», diz Visitação, que tem uma teoria para o facto: o quartel, cheio de gente que lhe pegava ao colo e rodopiava pelo ar, era um tremendo parque de diversões.

Luísa, a filha de Visitação, tornou‑se a melhor amiga de Isabel. Passavam os dias juntas, tinham a mesma idade e decididamente as mesmas brincadeiras. «E quem é que a obrigava a usar cuecas ou sapatos?», recorda Visitação. «Nunca consegui convencê‑la e não me lembro de os querer usar até chegar a Portugal.» Hoje, Luísa é madrinha da filha da amiga de infância. Há uma foto tirada em Catete há cinquenta anos que as duas repetem, agora, em Leça de Palmeira, onde vivem os Teixeira de Carvalho, e onde Isabel vai depois do encontro com os soldados. Ainda são amigas. Em Portugal, Isabel haveria de passar muitas vezes férias com os Teixeira de Carvalho. Em cinquenta anos, nunca perderam o contacto.

Apesar da amizade com a família de Luísa, foi na camarata das transmissões, com Manuel Cândido Ferreira, que Isabel ficou a morar em Catete. O aquartelamento de tijolo gozava de melhores condições do que o do resto das tropas. «Sabe, ela foi uma bênção para nós», diz o homem, comovido, ao recordar esse momento no encontro da serra do Pilar. «No meio da escuridão da guerra, tínhamos ali uma criança para tomar conta. Isso era um raio de luz, fazia‑nos sentir outra vez humanos.»

A maior parte daqueles rapazes nunca tinham saído da sua aldeia em Portugal. Desembarcavam numa Angola em guerra e África era outro mundo, estranho e hostil. Tudo ali lhes pedia dureza, menos Isabel. E eles retorquiam com os melhores cuidados que conseguiam oferecer. A menina dormia na cama de baixo do beliche, não fosse cair ao chão. De manhã Manuel lavava‑a e novamente ao fim do dia. «Às vezes rodávamos entre nós quem a levava à messe para comer. Mas uma vez vi um soldado a dar‑lhe vinho. Encostei‑o a um canto e ia dar‑lhe uma sova valente, só que os oficiais viram‑me a ser agressivo e puseram‑me de castigo.» A partir desse dia, no entanto, nunca a criança tornou a fazer uma refeição sem a vigilância de Manuel.

NO FINAL DE MARÇO, os soldados capturaram João Manuel Jacinto, um quimbundo que se acreditava ser do MPLA. O homem viu a menina negra, que no quartel dos brancos dava nas vistas, e disse: «É minha sobrinha.» Manoel Junqueira, o comandante, duvidou: «E como é que tu provas isso?» O homem respondeu que não podia contactar o pai da criança, porque ele andava no mato. Mas podia falar com a avó, que vivia num musseque em Luanda. O comandante pediu então a Marcelino Teixeira de Carvalho que confirmasse a veracidade dos factos. «Meti‑me com ele num jipe e fomos direitos a casa da senhora», conta o comandante da unidade de informações. «Ela confirmou o que o João dizia.»

A partir desse momento, Isabel Batata‑Doce passava a ser Isabel Manuel Jacinto, com filiação certificada. João, como acontecia com muitos prisioneiros de guerra apanhados nas aldeias por suspeitas de colaborarem com a guerrilha, ficou a viver no quartel. Dava jeito aos portugueses ter gente que traduzisse para quimbundo as ordens do comando. O tio via à distância o crescimento, era o soldado Manuel Cândido quem continuava a tratar da menina. De dia, andava por ali, brincava com os filhos dos oficiais. À noite recolhia aos dormitórios da equipa de transmissões.

Em junho, chegou Margarida, mulher do comandante. Era pessoa de trabalho, em Lisboa fabricava terços para vender nas lojas da Baixa e, à chegada a Angola, descobrira que podia fazer bom negócio com colares de missangas. Isabel começou a passar os dias junto à senhora, ajudando com a destreza que a idade permitia. «Era fascinada pelas cores e pelos enfeites», lembra Visitação. «E a Margarida Junqueira afeiçoou-se a ela.» Quando a mulher voltou à metrópole em agosto – é provável que o tenha feito porque os filhos (Margarida, Gonçalo e Isabel) estavam prestes a começar a escola – já a decisão de levar a pequena africana lhe pairaria na cabeça.

O batalhão sairia de Catete em finais de setembro para embarcar no Vera Cruz, que atracaria em Lisboa a 6 de Outubro de 1965. Manoel Junqueira perguntou ao quimbundo João se podia levar a criança com ele. Prometeu tomar conta dela. O tio de Isabel falou com os pais da criança. Que fosse, longe da guerra a miúda teria uma vida melhor. O comandante de batalhão teria de acompanhar os seus homens, uma viagem longa de barco era tudo menos indicada para uma gaiata daquela idade. O problema ficou resolvido quando Manuel Martins Duarte, comandante do pelotão de transmissões, anunciou o regresso a casa antecipado, de avião. «Levas‑me a miúda?», perguntou‑lhe o superior. E ele levou. Os documentos não seriam problema, bastaria uma carta de Junqueira. Contas feitas, o 525 voltaria à metrópole com menos sete homens, mas mais uma criança.

Mês e meio depois da chegada, o batalhão reuniu‑se no Santuário do Sameiro, em Braga. Estavam altas patentes oficiais, religiosas e militares na eucaristia. O resto da história conta‑a o Diário de Notícias: «Procedeu‑se ao batismo de uma criança que os soldados, em pleno combate, encontraram abandonada na selva, de olhos vivos, linda e sorridente, indiferente ao perigo que a rodeava, como se mãos invisíveis a tivessem ali colocado para dizer aos homens para se aproximarem mais de Deus. A pequenita, que recebeu o nome de Isabel, vive em Lisboa em casa do próprio comandante do batalhão, o tenente‑coronel Manoel Junqueira, cheia de carinho e confortos, pois este ilustre oficial tomou a seu cargo a educação da linda pretinha.»

Isabel tornara‑se um trunfo de propaganda, o regime tentava colher os louros da generosidade dos soldados para mostrar a sua própria bondade em África. Manuel Cândido Ferreira, o soldado que cuidara de Isabel em Catete, leu o artigo sobre o seu batismo e leu outro na revista Palavra, anos depois, que mostrava a sua protegida a dar uma volta pela praça de touros de Cascais ao colo do cavaleiro Mestre Baptista. Irritou‑se. «Afinal, a minha Isabelinha estava a ser usada para mostrar a suposta bondade dos portugueses para com os africanos. Isso mexia‑me com as entranhas.»

Manuel foi quem ficou mais ligado à menina. «Eu sempre tinha pensado trazê‑la comigo, mas quando percebi que o comandante do batalhão a ia trazer, não tive coragem de me impor», recorda. Isabel, no entanto, não se lembra dele. Só o voltaria a ver passados muitos anos, e por iniciativa dele. O homem soube que Isabel tinha ido a um almoço de militares e contactou‑a. Aos olhos de Manuel Cândido, ela ainda era a filha que nunca teve.

A infância de Isabel, na verdade, foi francamente feliz. Ela lembra‑se vagamente de aparecer nos jornais, mas o coronel não dava muita importância à fama. «Era tratada como igual aos outros três filhos na casa dos Junqueira, para onde fui viver.» Lembra‑se de ter o seu próprio quarto no Bairro de São Miguel, em Alvalade, Lisboa. Lembra‑se de ir buscar o tenente‑coronel, e depois coronel, ao aeroporto e ao cais da Rocha do Conde de Óbidos, sempre que este terminava mais uma comissão em Angola. Lembra‑se dos lanches de família todos os domingos no Hotel Ritz e dos fins de semana na casa de praia em Cascais. Lembra‑se de ele a tratar por Batata‑Doce e prometer‑lhe uma viagem a Catete no dia em que fizesse 18 anos, para conhecer a família de sangue. «Quem são os meus pais?», perguntou‑lhe uma única vez. «A seu tempo saberás. Esse tempo, no entanto, acabou por nunca vir. «Para mim a minha família eram eles, estava bem e não queria saber de nada. Só anos mais tarde é que me preocupei com o passado.» Manoel Junqueira morreu no final dos anos 1990. Os três filhos – Gonçalo, Margarida e Isabel – estão vivos. Foram contactados, mas não quiseram falar para esta reportagem.

Isabel nunca fala de se ter sentido diferente. Mas a chegada de uma menina negra a uma família de classe média, em Lisboa, deu nas vistas. É o que conta Maria Emília Machado, que hoje tem 74 anos, e era empregada interna, uma espécie de governanta que cuidava dos tachos, da prole e das limpezas da casa dos Junqueira. «Eu antes trabalhava no prédio em frente, percebi logo que tinha chegado uma criança de África. Era a única do bairro inteiro.» Mal se mudou para a casa, Maria Emília tornou‑se amiga de Isabel, que acabava por brincar com a sua situação. «Entrava‑me cozinha dentro a fazer voz grossa. Dizia: chegou a escuridão, posso entrar? E ríamos que nem umas perdidas.»

À noite, a menina saía do seu quarto, que era contíguo à cozinha, e ia enfiar‑se na cama da empregada. Passava horas de sua roda a aprender a cozinhar. Aos 5 anos, Isabel foi para a escola, e aí os hábitos mudaram. Dos 5 aos 12 estudou no Colégio do Alvor, em Paiões, Sintra. Era aluna interna, só vinha a casa aos fins de semana. Terminado o ciclo preparatório mudou‑se para uma escola mais perto de casa, as Filhas de Maria Imaculada, no Bairro de São Miguel. Mais quatro anos de internato. Ao fim de semana vinha a casa, muitas vezes ia para a casa de Maria Emília, as férias fazia‑as com a família que conhecera em Angola, os Teixeira de Carvalho. «O que ela queria era liberdade, andar ao ar livre.»

MARGARIDA JUNQUEIRA MORREU quando Isabel tinha 14 anos, estava a miúda na adolescência. Uma adolescência que lhe trocou as voltas. Por essa altura já não gostava de ser Batata‑Doce, sonhava com uma identidade própria. Apesar de se sentir uma dos Junqueira, o desaparecimento da mãe adotiva fê-la pensar que estava na altura de se tornar independente. Arranjou os primeiros trabalhos no Porto, na mesma irmandade de freiras onde tinha estudado. Primeiro teve o apoio do coronel, depois zangaram‑se porque ela tinha reprovado na escola, e ela ficou por sua conta. Veio viver para Lisboa. O capitão Altinino Gonçalves, que tinha sido oficial em Angola, acolheu‑a em casa e arranjou‑lhe trabalho na Portugal Telecom. Os militares ainda a amparar‑lhe as quedas, tantos anos depois de a trazerem do capim.

Aos poucos, foi‑se afastando da família que acolhera. Ainda tinha a adoração por Gonçalo, a cumplicidade com Margarida e Isabel, os irmãos que não eram. «Mas sentia que estava na altura de me fazer à vida. Com os anos, fomos perdendo o contacto.» Dividiu casa com uma amiga, tomou conta de crianças e idosos, e depois começou a fazer comida para fora. Salgados e tartes, que os restaurantes compravam. Aos 26 anos trabalhava durante o dia num pronto‑a‑comer em Santos, cumpria o turno da noite numa hamburgueria do Rossio e estendia a massa dos rissóis aos fins de semana. E foi nessa altura que conheceu João Castanheira, empregado de mesa de um restaurante para onde fazia tartes de maçã. Começaram a namorar. Passado um ano viviam juntos, passado outro tiveram o primeiro bebé, Joana. Francisco nasceu dois anos depois. Tem agora 22.

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Os miúdos sempre estranharam ter uma mãe preta com uma família branca. Os Junqueira não conheceram, mas havia «tios» com quem a mãe continuava a dar‑se: Visitação, Luísa e Marcelino Teixeira de Carvalho. Foram eles, os filhos, que a instigaram a descobrir as raízes. Até porque, no meio em que se movem, ser preto é fixe. Francisco fala crioulo como os amigos cabo‑verdianos, mesmo que nenhum deles tenha nascido nas ilhas. Ouve kizomba e o rap que a segunda geração de africanos anda a produzir nos subúrbios de Lisboa. Joana diz‑se africana em tudo, e com orgulho. «Um dia, a psicóloga da escola perguntou‑me pelas raízes e eu disse que não sabia quem era a família da minha mãe», conta Joana. «Ela disse que era uma vergonha não saber. Isso afetou‑me muito.»

Isabel começou a querer saber mais. Retomou contactos com as famílias dos oficiais que cuidaram dela, através dos amigos do Porto. Começou a participar nos encontros dos antigos combatentes, a recolher fotografias, a disparar perguntas. Tinha estabilizado a vida e agora era tempo de ir procurar o passado. A vida, de resto, corria suave. A João e Isabel nunca faltou trabalho, tomavam conta das concessões dos bares de quase todos os teatros da capital. Há seis anos, abriram um restaurante entre Santos e a Lapa. É o tesouro da família, pequeno mas confortável. E chama‑se, sem pruridos, Batata‑Doce. O passado de Isabel está todo no nome do seu restaurante, e foi isso que a fez reencontrá‑lo.

HÁ TRÊS MESES, Isabel recebeu um telefonema de Roberto Paulo. Angolano, viera passar férias em Portugal. Tinha estudado em Lisboa e ainda aqui tinha família – e Branca Jacinto, a sua sogra, encarregara‑o de uma missão: encontrar a irmã que os portugueses tinham levado há cinquenta anos. Quando chegou a Lisboa, sentou‑se ao computador, abriu o Facebook e escreveu o nome que a mulher lhe tinha dado. Nos resultados, um restaurante, Batata‑Doce. «Caramba, Batata‑Doce é África», pensou. Ligou logo.

Isabel duvidou da história do rapaz que se dizia seu sobrinho, estava vacinada. Poucos meses antes, tinha recebido um telefonema de alguém que procurava outra Isabel que não ela. Mas, que raio, agora batia tudo certo na história do rapaz. Uma mulher com uma criança que caiu das costas e outra pela mão, a fugir aos soldados. Um tio preso em Catete, que deu autorização de saída. E o nome do homem que a tinha levado, Junqueira. «Só aí ela acreditou, e depois ficou muito emocionada», conta Roberto ao telefone, a partir de Luanda.

Isabel saltava, andava de um lado para o outro da cozinha, as lágrimas corriam livres. «Tantos anos, pá, tantos anos.» Convidou o sobrinho para o almoço. Ele contou o que sabia, ela bebeu cada palavra. A mãe tinha morrido nova, pouco depois. O pai tinha autorizado a saída da filha com os portugueses, mas nunca a esqueceu. Manuel Jacinto Diogo vivia da agricultura, mas apoiara os independentistas durante a Guerra Colonial e tornara‑se régulo da aldeia de Lala. Um dia propôs-se encontrar a filha que não via desde bebé. Falou com Mendes de Carvalho, historiador de Catete. Nada. Segundo Roberto, o pai de Isabel morreu em 2005. Deixava cinco filhos vivos. O sobrinho garantiu que Isabel era centro de conversa sempre que a família se encontrava. «Tantos anos à procura, pá.»

Depois do encontro com Roberto, Conceição Pedro, uma assistente social angolana a viver em Portugal, em conversa com a filha de Isabel, Joana, no bar do Teatro Nacional D. Maria II, soube da história, comoveu‑se, e disse que queria ajudar. Falou ao telefone com Isabel, «pede lá a morada da tua família ao Roberto».

Dias depois, Conceição embarcou para Luanda. Pediu a um motorista que a levasse ao destino, e ele assim fez. Bateu à porta, disse ao que vinha, foi recebida com abraços. E depois ligou a Isabel. Ao seu lado tinha Esperança, a irmã. Era ela a outra criança, a que conseguira fugir aos soldados puxada pela mão da mãe, naquele dia em que Isabel caíra. E então, depois de cinquenta anos, e mesmo que não se conhecessem, mesmo que nunca tivessem falado antes, descarrilaram no pranto de um reencontro de sangue. «Aiiiiii. Aiiiii. Estás viva. Ai, mana, ai.»

 

[Publicado originalmente na edição de 15 de novembro de 2015]

Ricardo J. Rodrigues
Fotografia Rui Oliveira/Global Imagens