OPINIÃO

A verdade de Truth

Nos meses que antecederam as filmagens de Truth, Cate Blanchett passou algum tempo com Mary Mapes, a antiga produtora de televisão que a atriz interpreta no ecrã. À procura da verdade.

Nos meses que antecederam as filmagens de Truth, a versão viciante de James Vanderbilt que analisa de forma quase forense e minuto a minuto o que aconteceu a uma equipa de jornalistas que divulgaram a história controversa sobre o serviço militar do presidente Bush, quando este tentava a reeleição em 2004, Cate Blanchett passou algum tempo com Mary Mapes, a antiga produtora de televisão que a atriz interpreta no ecrã. À procura da verdade.

Nas conversas que mantiveram – tanto em pessoa como pelo Skype –, Cate Blanchett quis saber tudo, mas sobretudo como é que Mary Mapes trabalhava sob alta pressão no mundo do jornalismo televisivo e, em particular, como é que uma história que foi para o ar no programa de informação mais importante dos EUA, o 60 minutos, na pré-campanha eleitoral para as eleições de 2004, naquele país, foi engolida por uma tempestade de críticas que acabaria por terminar prematuramente com a carreira de Mapes, assim como com a do veterano e peso-pesado da CBS, Dan Rather, no filme interpretado por Robert Redford.

Truth é uma adaptação livre do livro de memórias de Mary Mapes Truth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power e recria a forma como a premiada produtora de televisão e a sua equipa de pesquisa – interpretados por Dennis Quaid, Topher Grace e Elisabeth Moss – investigaram os rumores de que o presidente Bush, em 1968, se teria furtado à guerra do Vietname, alterando a documentação e, através de ligações familiares, ingressado na Texas Air National Guard.

A correr contra o tempo e com prazos apertados, a equipa, cuja cara das transmissões era Rather, descobriu novos documentos que pareciam apoiar a história e a reportagem é transmitida no programa 60 minutos algumas semanas antes das eleições que opuseram Bush a Kerry.

Mas, dias depois de a história ir para o ar, Mapes, Rather e os colegas ficaram sob o fogo aberto de bloggers de direita que diziam que os documentos cruciais em que se apoiava a investigação tinham sido forjados. Ao mesmo tempo que eram acusados de jornalismo desleixado, cada um deles foi forçado a defender-se das acusações e a tentar salvar a sua carreira porque a CBS instaurou uma investigação para perceber o que se teria passado.
«A peça foi para o ar rapidamente e depois o seguimento subsequente foi só tentar iludir as balas de uma metralhadora», diz Cate Blanchett. «Passaram-se todas as fronteiras porque obviamente na corrida para a segunda eleição de Bush esta história era muito controversa.»
Truth examina como uma reportagem importante e legítima, que questionava a folha de serviço de um presidente, foi enterrada sob uma avalancha de acusações e dedos apontados, acabando por se tornar uma história muito maior sobre os próprios jornalistas, os seus métodos e os pormenores mais minuciosos dos seus rostos.

«Da mesma forma que Os Homens do Presidente não era sobre Nixon, Truth não é sobre George W. Bush», diz Cate Blanchett. «É muito mais sobre a interseção entre a América corporativa, o sistema político e os media. E também sobre o processo de compor uma reportagem. Creio que a única razão para voltar atrás no tempo, por mais recente que o ano de 2004 possa parecer, é se tem relevância ou interesse hoje, e eu creio que ainda há muitas questões acerca da forma como recebemos as notícias que não foram realmente publicadas. Creio que ainda não processámos na realidade a diferença entre factos e opiniões, portanto parece-me um filme bastante relevante e pertinente», diz Blanchett.

Cate Blanchett interpreta a produtora Mary Mapes no filme Truth.
Cate Blanchett interpreta a produtora Mary Mapes no filme Truth.


ENTREVISTA A CATE BLANCHETT

Pode dar-nos o contexto de Truth?
Bem, na corrida para a segunda eleição de George W. Bush havia um ponto de interrogação sobre o serviço militar que tinha prestado, e Mary Mapes, que vivia e trabalhava no Texas, seguiu a pista e fez um artigo que foi para o ar no programa 60 minutos. Foi rapidamente para o ar e o filme segue a forma como a peça foi feita e as consequências na relação de Mary e Dan com a cadeia de televisão CBS.

Encontrou-se com Mary Mapes muitas vezes. Como foi o processo de trabalho e o que é que esses encontros representaram para si?
Bem, o filme não é uma biografia da Mary Mapes ou do Dan Rather, mas fiquei muito contente porque a Mary se quis encontrar comigo algumas vezes em Nova Iorque e depois disso fizemos muitas chamadas por Skype. O guião é rápido como um comboio por causa da velocidade da história real. Passaram-se todas as fronteiras porque obviamente na corrida para a segunda eleição de Bush esta história era muito controversa: se o que se dizia fosse verdade, Bush teria de ser preso. E com cadastro criminal não se pode ser presidente dos EUA. Portanto, eu tinha muitas questões para a Mary – algumas tolas, inconsequentes também [risos].

Tais como?
«O que traz na sua carteira?» «É organizada ou desorganizada?» Mas também sobre a forma como se constrói uma reportagem. Nos EUA, o 60 Minutos é visto como um estandarte do jornalismo de investigação, portanto a fasquia era muito elevada e queria saber a versão da Mary sobre como era trabalhar numa organização assim, particularmente porque ela era uma outsider – vivia e trabalhava no Texas e não na Costa Leste, onde o 60 Minutos tinha a sua redação. Mas como há tantos políticos americanos que vêm do Texas, era muito interessante falar com ela sobre a interseção entre o Texas e a política americana.

Quando interpreta uma personagem baseada numa pessoa real sente maior responsabilidade?
Este filme não é uma biografia, e mesmo quando se interpreta uma personagem viva como protagonista, continuamos dentro do filme. A vida dessa pessoa não vai ser totalmente contada. Mas sim, quando temos a pessoa que vamos interpretar à nossa frente, é verdade que sentimos um enorme peso de responsabilidade para a representarmos de forma tridimensional. Toda a gente tem falhas e a Mary será a primeira pessoa a dizer isso sobre ela própria. Eu tenho falhas. Todos temos. Portanto, o meu trabalho é tentar encontrar o que torna as pessoas únicas e pôr isso no comboio expresso que é este filme. De certa forma, a personagem foi a última estação para mim. Li as memórias de Mary e pesquisei sobre ela na internet, como agora se faz, vi bastantes entrevistas com ela, quando ela estava numa espécie de fechamento emocional logo a seguir ao escândalo. E depois conheci-a. E era uma mulher fortíssima, uma massa de energia. Ela é incrivelmente inteligente, empenhada e interessante, achei estes extremos fantásticos.

Porque devemos importar-nos com os acontecimentos do filme Truth quando passaram mais de dez anos sobre eles?
A única razão para reexaminar uma coisa que acontece no passado é a relevância contemporânea que pode ter. É uma peça muito específica da história dos media na América e não foi suficientemente examinada. Penso que a proximidade dos nossos políticos com os grupos de media e com as grandes empresas não é questionada com frequência – afinal quem é que tem o quê? Que acordos se fazem nos bastidores? O filme é também sobre essa questão da construção de uma reportagem, que, creio, onze anos depois daquela peça ter ido para o ar, mudou imenso. A forma como consumimos e disseminamos a informação mudou imenso. Naquela altura não havia Twitter. Eu creio que a Mary e o Dan encontraram-se em águas desconhecidas na sua relação com o grupo editorial ao qual tinham entregado as suas carreiras e a sua lealdade. E foi também naquela altura que a internet começou a emergir com todas aquelas opiniões que tomamos como factos.

Robert Redford interpreta Dan Rather e o Dan e a Mary tiveram uma relação profissional muito interessante. Como foi trabalhar com Robert e que retrato faz ele de Dan Rather?
Tenho uma grande admiração pelo senhor Redford e não sabia como tratá-lo – Bob, Robert? –, mas ele disse «chama-me Bob», e foi o que fiz. É muito empenhado e curioso e tão desarmante pela sua capacidade de interpretar natural mete as personagens. Passávamos sem interrupções de uma cena para a outra e sem dar pela diferença entre uma conversa ou as falas do guião porque ele faz tudo sem esforço. Foi maravilhoso que ele estivesse preparado para dar uma espécie de cunho pessoal iconográfica ao papel, porque na cultura informativa americana Dan Rather está ao mesmo nível que Walter Cronkite. É um ícone e representa a integridade que as pessoas procuram no jornalismo. Não consigo imaginar ninguém além do Bob a fazer a personagem de Dan Rather.

Robert Redford interpreta o jornalista veterano Dan Rather.
Robert Redford interpreta o jornalista veterano Dan Rather.
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