OPINIÃO

Teatro, espaço de liberdade

O grupo Crinabel Teatro comemora 30 anos de trabalho ao lado de pessoas com deficiência e necessidades especiais.

Ver para lá do óbvio. Adaptar, questionar, fazer parte. Eis alguns dos ingredientes dos espetáculos da Crinabel Teatro, a companhia de atores composta por pessoas com deficiência intelectual que têm a oportunidade de representar. Mas sobretudo de criar. O novo espetáculo estreia em outubro.

Aos 52 anos, António Coutinho tem um sorriso expressivo e uma conversa contagiante. Ator do Crinabel Teatro, gosta de estar no palco, vestir personagens, receber aplausos e ver o público levantar-se no final. Mas não deixa ver o texto da nova personagem, que o tem ocupado desde janeiro. Vira a folha ao contrário e continua a conversa. «É surpresa.»

Além de António, 14 outros atores estão a preparar o espetáculo Uma Menina Está Perdida no Seu Século À Procura do Pai, adaptado do romance com o mesmo título de Gonçalo M. Tavares, para se estrear no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, em outubro. Carolina Mendes, dez anos mais nova, ao contrário da sua personagem, Hanna, não se sente perdida a fazer teatro. Joana Onório, 25 anos, também. O nervosismo a representar faz parte do passado. «O teatro é a minha vida», diz.

Com direção artística de Marco Paiva, licenciado em formação de Atores pela Escola Superior de Teatro e Cinema, os atores da Crinabel Teatro ensaiam todos os dias da semana, de manhã e à tarde. A companhia, formada por pessoas com deficiência intelectual, comemora trinta anos e prepara uma digressão por quatro cidades do país.

A Crinabel Teatro pretende promover as capacidades sociais e profissionais destes atores e recebeu no ano passado uma menção honrosa do Prémio BPI Capacitar, no valor de 22 200 euros. O valor será aplicado nas deslocações, estadas, alimentação e divulgação deste espetáculo nos locais de exibição, mas as comemorações dos trinta anos incluem ainda outros registos para o futuro, como um livro fotográfico da autoria do fotojornalista Paulo Pimenta, que trabalha com a Crinabel há dez anos, e um documentário sobre o processo de criação da peça.

Desde o início do ano, o grupo estreou ainda a peça A Festa, alusiva à celebração do trigésimo aniversário, que se estreou em abril no Teatro da Comuna e foi reposta em maio no Teatro da Trindade, ambos em Lisboa. E foram também a Sines e a Óbidos com o espetáculo Oração, a partir de Fernando Arrabal.

«O nosso grande desafio é continuar a criar motivação e a alimentar a ideia de que o teatro está disponível para pensarmos sobre as coisas», diz o diretor artístico. «É um espaço de liberdade.»

Por esse motivo, os atores são parte integrante dos processos de decisão da forma como os textos vão sendo adaptados. Sentam-se à mesa com ele e discutem os temas. «Enquanto for pertinente discutirmos algo, o teatro continuará a fazer sentido.» O autor, Gonçalo M. Tavares, já esteve com os atores três vezes, leu o texto com eles numa das visitas e deu carta verde para que se construa o espetáculo. Não é raro um texto sofrer alterações consoante avançam os ensaios. «Isto é muito positivo. Significa que os atores estão em construção permanente.»

Marco Paiva está há 16 anos na Crinabel e colabora ainda com outros projetos de teatro e cinema. Não encontra grande diferença. «A sociedade é que coloca rótulos. O desafio não é trabalhar com pessoas com deficiência. O difícil mesmo é trabalhar com pessoas.» Por outro lado, é um trabalho diário «levar o grande público a ver determinado tipo de espetáculos. De uma maneira geral, o público prefere ver coisas com as quais tem uma empatia imediata ou um entendimento muito fácil. Isto de a Crinabel poder apresentar o trabalho num teatro nacional era impensável há 16 anos e foi conquistado há pouco tempo». Defende que a grande mais-valia para estes atores é sentirem que têm «um papel social ativo e que a sociedade os valoriza pelo que fazem sem atitudes paternalistas».

Nestes 16 anos a trabalhar na Crinabel Teatro, Marco Paiva assistiu à própria mudança da intervenção dos atores em todos os processos. «É interessante verificar que vão buscar referências de outros espetáculos que fizemos, o que significa que lhes estamos a dar bagagem e não apenas textos para decorarem e passarem o tempo.» Os atores acabam por guardar aquilo que fizeram, esforçam-se e ouvem os conselhos do diretor artístico. Riem-se, têm uma enorme cumplicidade, abraçam o encenador – que faz intervalos quando sente que o cansaço deu lugar à criatividade. «Há dias mais difíceis do que outros, em que não estão tão disponíveis, mas isso acontece com cada um de nós nas várias profissões.»

Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai é uma peça construída a partir da obra de Gonçalo M. Tavares. Em outubro, de 20 a 23, estreia no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Depois, de 26 a 29, estará em cena no Teatro Curvo Semedo, em Montemor-o-Novo. Em novembro, dias 8 a 12, chega ao Teatro Municipal de Estarreja. O espetáculo final acontece no Teatro Virgínia, em Torres Novas, no dia 3 de dezembro. a apresentação surge no âmbito das comemorações do Dia Internacional da Pessoa com Deficiência.

Cláudia Pinto
Fotografia Gonçalo Villaverde