OPINIÃO

Sardinha vs. Francesinha

No mês das festas de Lisboa e dos festejos de São João, o duelo trava-se entre a sardinha e a francesinha.
Sardinha Francesinha

Confrontamos duas opções gastronómicas: francesinha e sardinha. No Porto, Artur Ribeiro, do Lado B, insiste com a francesinha, enquanto, em Matosinhos, o sr. Valentim, do restaurante S. Valentim, combate com a sua famosa sardinha. Mas será que não são compatíveis?

O São João já não está longe e em época de Santos Populares as sardinhas são sempre favoritas, mas no Porto há quem nunca dispense a francesinha, cada vez mais reconhecida, como a do Lado B, um dos templos do prato portuense. Por estes dias, o que escolher? Pedimos a dois guardiões destes pratos para «venderem o seu peixe».

Artur Ribeiro é proprietário do Lado B, cuja francesinha tem o registo da «melhor do mundo». São francesinhas servidas noite fora em frente ao Coliseu do Porto, em plena Rua Passos Manuel e, segundo o seu criador, perfeitas para o espírito de folia dos santos.

Valentim Santos defende a causa da bela da sardinha, o prato mítico do seu S. Valentim, restaurante de peixe fresco célebre na rua de todos os restaurantes de Matosinhos, a Heróis de França.

Curiosamente, estes dois restauradores conhecem-se e frequentam a casa um do outro. Artur é o primeiro a dizer: «Se não for para comer as minhas francesinhas, recomendo sempre o Valentim.»

Os faciosos da sardinha podem sempre dizer que francesinha é pitéu mais invernal, ao passo que a fação oposta pode lembrar que a época alta das sardinhas não é bem esta.

Se formos para a francesinha, neste caso a de Artur Ribeiro, podemos esperar alguns trunfos. Ele próprio explica: «Depois de conseguir o registo e a patente da marca, temos de manter o nível. Compramos os melhores produtos e submetemo-los a vários testes com clientes e amigos, conseguindo assim uma francesinha de excelência. O molho é essencial, bem feito e sempre fresco, neste caso da autoria da minha cunhada. Depois as carnes, o pão tostado, que é uma das nossas caraterísticas, e tudo feito com gosto e com o tempo certo, sem pressas. Levamos ainda ao forno para derreter bem o queijo.»

O discurso de Valentim é mais no sentido da tradição: «Costuma dizer-se, no São João, que a sardinha pinga no pão. Pode ainda não estar no seu tempo prime, mas não é congelada. As pessoas gostam é da sardinha fresca! A minha ficou famosa por vir diariamente do mar e por ficar douradinha quando é assada.»

No duelo com a sardinha a nível de preços, o consumidor fica a perder se optar pela francesinha de Artur, que custa 8,25 euros, enquanto no S. Valentim a meia dúzia de sardinhas fica 7,50. O problema é que são muitos que não se contentam com apenas seis sardinhas. A Melhor Francesinha do Mundo poderá saciar mais o folião de São João que encontrará no prato repleto de molho um bife de alcatra vitelão, fiambre, salsicha fresca, mortadela, linguiça e queijo. Depende do apetite de cada um… «No São João, as pessoas de fora que vêm ao Porto até preferem francesinha à sardinha», diz o homem das francesinhas. Mas na rua do peixe, a d’O Valentim, todos os restaurantes só servem sardinha. Tradição é tradição.

Trunfos mais cirúrgicos para cada uma destas alternativas passam por detalhes. Artur recusa deixar-se vencer pelos argumentos de que a francesinha não é um prato saudável e garante que a sua francesinha vegetariana é também de excelência: «O molho é 100% vegetariano. São muitos os que pedem… Hoje representa já sete por cento das vendas e na francesinha original só usamos ingredientes naturais e frescos.» Por seu turno, Valentim fala-nos da importância dos pimentos: «São grandes e eu asso-os no carvão.» Aliás, é o próprio quem garante que todas as sardinhas têm de ter o tempo certo na brasa. Um tempo que só ele conhece e com grelhas que não deixam o peixe amachucado. Artur sente-se tocado e confessa: «Agora não sou eu quem cozinha as francesinhas, mas antes já fiz milhares! E controlo sempre tudo, sou muito perfeccionista. As coisas só funcionam assim.»

Claro que nesta guerra de pratos as bebidas são fundamentais. Maduro branco, diz Valentim para as sardinhas, enquanto Artur não tem dúvidas: «Cerveja à pressão, de preferência um príncipe, aqueles finos maiores, embora o verde tinto, por ser ácido, também ligue muito bem.»

Siga então um brinde aos Santos!

VALENTIM SANTOS
Há mais de 35 anos que este homem do peixe trabalha na restauração. Aos 57 anos, é o dono do S. Valentim, um dos restaurantes de Matosinhos mais procurados. A sua sardinha assada tornou-se lendária. Uma sardinha pescada em Matosinhos e que não é grande nem pequena, a famosa média.

ARTUR RIBEIRO
Depois de ter tido uma loja de discos, Artur dedicou-se à restauração e criou o Lado B, primeiro na Cedofeita e agora na Rua Passos Manuel, um dos eixos da francesinha e decorado com motivos de vinil. Não é por acaso que muitos dos artistas que tocam no Coliseu acabam por cear por ali.

Rui Pedro Tendinha
Fotografia Igor Martins/Global Imagens