Afonso Cruz Afonso Cruz

Saltos de rato

Lembro-me de ler, quando se deu o tsunami no oceano Índico, um dia depois do Natal de 2004, textos em que se aproveitava a coincidência da data para demonstrar a inexistência de Deus. Seria mais fácil sustentar o ateísmo, não por sucederem tragédias em época natalícia – que não nos diz absolutamente nada que possa abalar ou sustentar uma crença –, mas sim pela própria existência de tsunamis.

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Quando Santo Agostinho defendeu que o mal era uma privação do bem, colocou-o num espaço ético em que estaria dependente e subordinado ao livre alvedrio. O problema deste argumento (privatio boni) é que desastres naturais como terramotos ou tsunamis estão para além das nossas escolhas ou decisões. É uma destruição que não tem rigorosamente nada a ver com comportamentos morais, que não existe para castigar os iníquos ou os exércitos inimigos de Deus. Acontece independentemente de alguém ser um notável filantropo ou, pelo contrário, ter cobiçado a mulher do próximo ou invocado o nome de Deus em vão. O meu pai teve um ataque cardíaco no Dia de Natal, Kim Il-sung tornou-se presidente da Coreia do Norte nessa quadra, e há aquela piada: Chuck Norris nasceu em 1940, cinco anos depois Hitler suicidou-se, não pode ser coincidência.

Sempre que vejo alguém a usar este tipo de argumentos, vendo ligações onde elas não existem, lembro-me de um caso descrito por Watzlawick, de um rato – a superstição não é um fenómeno exclusivamente humano – que tem de percorrer certa distância até um comedoiro. Dez segundos depois de o rato ser solto, a comida cai no tabuleiro, mas como ele demora apenas dois segundos a chegar ao comedoiro, e tem de esperar pela comida, sente que deve fazer alguma coisa para provocar o seu aparecimento: «Movimentos para trás e para a frente, um certo número de piruetas para a direita e para a esquerda, saltos (que o rato a princípio pode ter executado de forma puramente acidental), são fielmente repetidos de cada vez.»

Porém, olhemos para outros tipos de desastre, como Trump. Ao sentir a impotência da tragédia, muitos demos saltos de fúria, vituperámos, descarregámos o mais eloquente calão. A tristeza e a ira demonstradas não mudam a contagem dos votos, mas há a necessidade de partilhar um sentimento. O facto de nos portarmos como o rato de Watzlawick, fazendo coisas que não alteram a realidade, confere-nos uma dignidade que nos eleva e transforma.

Num livro chamado Cama de Gato, de Vonnegut, há um jornalista que vai tentar perceber o que estariam a fazer os responsáveis pelas bombas atómicas de Hiroxima e Nagasaki no momento em que foram lançadas. Irá encontrá-los a pescar, a brincar com os netos, a ler o jornal, a dormir a sesta, a ver televisão. Se eles estivessem tristes, preocupados, com remorsos, arrependidos, não haveria diferença nenhuma visível nos acontecimentos, nenhuma destas ações ou comportamentos anularia a destruição causada pelas bombas. No entanto, por uma questão de humanidade, seria impensável manter-me indiferente enquanto Trump ganhava as eleições. Por uma questão de humanidade, prefiro portar-me como o rato de Watzlawick. E dar os saltos necessários, não para mudar o mundo, mas para mostrar que ainda temos algo para partilhar, mesmo que isso seja indignação ou tristeza.

(Ilustração de Afonso Cruz)

[Publicado originalmente na edição de 4 de dezembro de 2016]