Rui Unas: «Nunca apanhei uma bebedeira. Gosto de estar sempre em controlo absoluto»

Rui Unas

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A outra face de Rui Unas.

Rui Unas está a fazer vinte anos de carreira. Duas décadas de sucessos e desilusões depois, o rapaz tímido da margem sul, adolescente conturbado dos primeiros dias de rádio, já não se sente obrigado a ser um «ganda maluco» nem um «porta-estandarte» de uma geração. Agora, poucas semanas depois de ter terminado a gravação de Malapata, projeto de ficção de Diogo Morgado, e apaixonado pelo seu projeto online Maluco Beleza, faz o balanço e troca de verbos: já lá vai o tempo de impressionar. Agora quer desfrutar.

Em 2014, lançou Nascido e Criado na Margem Sul, uma autobiografia, escrita num registo humorístico e ficcionado. Porque não uma biografia a sério?
Aos 40 anos ainda não tenho vida para uma biografia. Não condeno quem eu faz. Eu não consigo.

Fale-me de um momento chave e definidor na sua vida.
Há um momento desses, curiosamente um acaso. Numa bela tarde de 1991, decidi ir lanchar ao Centro Comercial da Amora, onde estava, por acaso, um locutor da Rádio Seixal, em direto do Centro, a promover uns passatempos. Como participante vencedor tive direito a uma entrevista. Disse a idade – 17 anos –, a escola onde estudava – (Fogueteiro) – e, depois, saio-me com esta para o locutor: «Sabe, eu até me considero um pouco um colega seu porque faço rádio na minha escola». E essa frase foi decisiva. Ele deu-me o cartão e disse-me para aparecer na rádio. E foi aí que pensei «queres ver que há a possibilidade de fazer a sério uma coisa de que gosto muito?»

E lá se foram a enfermagem e a fisioterapia.
Sim, apesar de fazer palhaçadas (no núcleo de rádio e tv que fundei na escola), estava encaminhado para algo relacionado com saúde. Mais pelo lado prático, não era uma paixão. Quanto a sonhos, aos 17 anos andava um pouco perdido.

E então, foi a correr à rádio…
Isto aconteceu numa sexta-feira. Na segunda seguinte lá fui, falei com o diretor e colocou-se desde logo a possibilidade de ficar a estagiar. Pagavam-me o passe e ajudaram-me a descobrir a minha vocação. Primeiro, fiquei a ler as notícias, que picava dos takes da Lusa, depois, passei a fazer programas de autor.

Com programas de autor já teria ordenado.
Com os primeiros, comprei uma mota. Foi o meu grito do Ipiranga. No entanto, continuava ainda um wannabe.

Nesse fim-de-semana mal deve ter dormido.
Nunca mais passava, o raio do fim-de-semana.

Como era o seu quarto aos 17 anos?
Se virmos as imagens televisivas do início da minha carreira televisiva, podemos dizer que era muito pouco jovem. Sentia-me um wannabe, com uma vida muito espartana dedicada ao desporto. Não tinha posters, não tinha referências musicais e não lia.

Não ouvia música?
Não era do rock, nem do metal, nem do punk. Andava um bocadinho perdido, não pertencia a nenhuma tribo.

Complicado, na adolescência.
Era muito neutro. Apenas conseguia ganhar a simpatia de todos através do humor. Na rádio da escola, era o tipo que fazia as reportagens dos bailes de finalistas. Um miúdo popular, mas por ser o brincalhão, não por ser estiloso.

É na adolescência que consolida o pessimismo?
A minha adolescência foi muito conturbada. Desde a pré-adolescência que a minha relação com o meus pais não era feliz. E eles, entre si, tinham também um relacionamento muito complicado. Em casa, o ambiente era triste e pesado, e o facto de ser filho único não ajudava. Na escola, contrabalançava a coisa com uma dupla personalidade. Projetava a imagem de um adolescente feliz, mas não era um adolescente feliz. Não estava bem comigo. Havia essa mágoa. Nessa fase, que perdurou, era muito pessimista.

Raros amigos?
Pouquíssimos, metade de uma mão. Muita gente conhecida que gostava de estar comigo por causa do meu lado extrovertido mas a quem me dava pouco a conhecer. As pessoas não me conheciam – conheciam uma personagem, Eu próprio não me conhecia bem. Talvez por isso, tenha apagado algumas memórias dessa altura.

Fale-nos das boas.
As mais agradáveis estão relacionadas com o desporto, que sempre fez parte da minha vida. Ao fim do dia, depois das aulas, muitas vezes cansado. Mas nem isso me impedia de ir sozinho para Lisboa para treinar com a seleção nacional de luta. Foi assim durante dois anos.

Ao miúdo provocador correspondia um miúdo agressivo?
Não, e em grande parte por causa do desporto. A luta incutiu-me valores, disciplina e permitiu-me descarregar a raiva. Descarreguei muito no tapete. Podia ter ido para a drogas – tinha acesso fácil – ou para o álcool. Não, nem sequer fumava. Preferi sempre o desporto. A certa altura, fui-me afastando dos amigos porque para eles eu era o chato. E vice-versa: quando eles entravam em excesso de álcool, deixavam de ser divertidos.

O medo do álcool é medo de perder o pé?
Claramente. Sinto-me desconfortável. E já tentei beber para lá da conta, mesmo agora com 42 anos. Continua a ser muito desconfortável. Nunca apanhei uma bebedeira. Não gosto de excessos, nem dos seus efeitos. Gosto de estar sempre em controlo absoluto.

E miúdas?
Só despertei para as miúdas – e para a possibilidade de usar o meu talento de as fazer rir – muito tarde. Tinha muitas amigas, com algumas delas bem gostaria de ter tido alguma coisa mais que amizade, mas nunca passei do amigo que as fazia rir. Gostar, gostar, gostavam dos tipos que as faziam chorar. Eu não tinha auto-estima.

Achava-se feio?
Achava. Vendo imagens minhas com 16, 17 anos não percebo como consegui a minha primeira namorada. E era a mais bonita da escola.

A moda dos 1980/90 não ajudava.
Mas, entre o horror, havia quem tivesse algum estilo. Eu não tinha estilo algum. Basta dizer que tive a minha primeira namorada aos 17 anos. É tarde.

Com a rádio e a televisão recuperou o tempo perdido?
Nunca fui muito mulherengo e sempre tive relações longas. Mas, entre algumas dessas longas relações, fui, posso dizer, um playboy.

Foi a fase kizomba?
Por aí. Frequentava as discotecas africanas e já dançava bem kizomba. Foi uma fase de bastante auto-estima, devo dizer.

Nunca a relacionou com o facto de ter passado a ser figura pública?
O mais possível. Nunca me envolvi com uma fã por isso mesmo. Se bem que nas discotecas africanas sentia-me um anónimo. E gostava dessa sensação.

De onde vem paixão por África?
De umas férias que passei em Cabo Verde, tinha 22 anos.

Regressemos à Rádio Seixal. A partir desse altura, que ambições passou a ter?
Trabalhar um dia numa rádio nacional. Mas, ainda pessimista encartado, recusava-me a embarcar em grandes expetativas. E por isso, tratei de acabar o 12.º ano e fazer um curso de dois anos de apresentação na ETIC (Escola de Tecnologias, Inovação e Criação). Aí conheci o Carlos Pinto Coelho. Meu professor, convidou-me para o Acontece. Aos 20 anos, e durante um ano e tal, a minha ambição passou a ser ser jornalista.

Gostou.
Gostei muito. O meu lado certinho, conservador, disciplinado entendeu-se muito bem com o rigor do Carlos Pinto Coelho, um jornalista muito espartano e exigente. Esse encontro foi muito importante para mim.

Ao fim de um ano e meio saiu do Acontece para fazer o Alta Voltagem. Como reagiu o professor às «palhaçadas» do aluno?
Por um lado ficou contente – afinal era o aluno a voar sozinho. Mas, no fundo, não gostou. Recordo uma conversa telefónica em que me disse que não apreciava certas coisas. Segundo ele, eu daria um excelente jornalista. Mas fui para o lado negro da força, o entretenimento. No entanto, numa entrevista que lhe fiz, já no Cabaret da Coxa, disse-me que tinha muito orgulho em mim.

O lado solar e a liberdade de poder esconder-se menos começam a despontar quando percebe que há pessoas que gostam de si e do seu trabalho e nas quais confia?
A princípio, o sol apareceu, mas com um filtro. Não era real. Foi a fase em que vivia um pouco iludido. Queria fazer televisão e pensava que tinha uma missão. Impulsionavam-me as coisas erradas.

Em vez de crescer, começou a engordar, foi isso?
É uma boa maneira de colocar a questão. Achava que era mais do que era.

Passou a ter muitos amigos.
Ui, tantos.

A certa altura, já como apresentador do Curto Circuito, elegeram-no porta estandarte de uma geração. Fazia sentido?
Não fazia sentido e era muito desconfortável.

Obrigava-o a ser um cromo em permanência?
Lá está, desconfortável e pesado. Foi aí que começou a chatear-me a expressão «ganda maluco». Durante muito tempo, por instinto de sobrevivência, tentei encaixar nessa moldura. Achava que fazia parte comportar-me de determinada maneira. Depois, a meio do Cabaret da Coxa, há uns doze anos, portanto, comecei a fazer trabalhos como ator. E esse passo foi muito importante. Percebi que podia expressar-me e realizar-me de outras formas. Que não precisava de ser só aquilo. E aí sim, começou o tempo de me esconder menos. Como apresentador, comecei assumir o meu lado mais sério, a ser mais eu, mais ou menos lunar, mais ou menos solar. Porque atenção: eu também não me concebo sem o meu lado lunar. E o público, hoje, conhece esses dois lados.

Faz sentido um ator dizer «o meu público»?
No teatro ou no cinema, não. Mas as redes sociais, não aferindo o talento, aferem o nosso alcance, enquanto figuras públicas. Nesse sentido, posso dizer que tenho uma relação muito próxima e direta com o meu público. Sou muito aberto e muito honesto com quem me segue nas redes sociais. Há um número considerável de pessoas que sabe quem eu sou, que me acompanha, que se preocupa comigo. Que comunica e sabe que respondo a todas as mensagens. Sejam as que me felicitam ou as que trazem pedidos estranhos. Há até algo que acontece frequentemente: nos momentos em que estou no meu lado mais escuro, muitas vezes a pensar se isto faz algum sentido, chega-me sempre uma palavra inesperada, ou da menina que me serve o café na esplanada ou do rapaz que fixou no tempo algo que eu disse há muitos anos. E são essas frases que dissipam as dúvidas. Que me fazem perceber que faço parte da vida daquelas pessoas. Enquanto esse bálsamo existir, tenho de continuar. Contra todas as dúvidas.

Já lhe passou pela cabeça desistir?
Desistir não, porque acho que não sei fazer mais nada. Mas há momentos de desalento. Todas as coisas que fiz, a excepção do Maluco Beleza, foi um pouco por acidente.

Acidentes e, depois, muito trabalho?
Se há coisa que tem marcado estes vinte anos é a permanente reinvenção de mim próprio, a minha inquietação. Por vezes, dizem-me que o Cabaret da Coxa deveria regressar. Não acho, não faria sentido. Primeiro, porque não faz sentido repetir algo que foi um statement, que pretendia romper com o que se fazia. Segundo, e essa é a razão principal, porque hoje já não sou aquela pessoa. O que sou hoje não tem nada a ver com o que era há dez anos. Por isso, conforme vou fazendo as coisas, vou matando-as.

Disse há pouco que lhe chegam pedidos estranhos dos fãs. Para animar festas particulares, por exemplo?
Esse é um pedido normal. Como também já estou habituado a que me peçam para fazer vídeos de aniversários para oferecer a namoradas ou familiares. E para isso tenho resposta, que eles compreendem: a fazer para um teria de fazer para todos. Os pedidos estranhos são outros, de teor sexual, digamos. Imagens e vídeos e em muitos casos trata-se de trolls.

Vinte anos: houve algum acaso, mas também estabeleceu regras e metas, um plano de carreira. Ou não?
A minha regra é estar permanentemente na onda. O mais importante não é ter uma rota, mas aproveitar as ondas que vão aparecendo.

Há 20 anos, estar na onda significava ver-se obrigado a fazer quase tudo. Hoje, qual é a linha vermelha?
Pegando no surf como metáfora, digamos que agora já não faço as manobras mais arriscadas, ou manobras para impressionar. Durante alguns anos, o meu intuito era sobretudo o de impressionar. Hoje, estou na fase em que me apetece desfrutar. Estou na fase long board – desfrutar do privilégio de fazer o que gosto e continuar ainda na onda. Mas com calma e segurança. E, sobretudo, a divertir-me.

Deus me livre, filme em que iria participar foi adiado. Mas acabou de gravar um projeto de Diogo Morgado. O que já se pode saber?
O Diogo desafiou-me mais uma vez para uma aventura na ficção com ele ao leme. É um projecto chamado Malapata e vai ser surpreendente. Pelo elenco, história e performance de alguns atores. E mais não posso dizer.

Tem filmes ou atores da sua vida?
De vez em quando revejo filmes que me marcaram, como O Padrinho ou The Hunter. Mas não sou de ter atores preferidos. Ficar-me-ia bem apresentar referências mas não as tenho. Sou eclético, tal como na música: metal, rap, pop, jazz, ópera – adoro ópera, um excelente pretexto para viajar. E sou fã do Netflix.

E uma palavra favorita?
Gosto muito da palavra filho. Emociona-me. A paternidade realiza-me. E eu tenho dois.

E um graal?
Faz parte da condição humana quer ser inspirador. Nesta fase da minha vida gostava de ser inspirador. Não para me imitarem mas para fazerem tudo para serem felizes. Eu fui capaz, eu sou capaz e prova disso é o Maluco Beleza. Sou feliz a fazer novelas, sou feliz a fazer cinema mas é neste projeto que me realizo. Hoje mesmo recebei uma mensagem de um rapaz que me agradece ter sido inspiração para o projeto dele. E deixou-me de coração cheio.

O que lhe desperta uma reação criativa e emocional e o que é que desliga o botão?
Os meus rasgos de criatividade surgiram inesperadamente e sem aviso prévio. Daí a minha dificuldade em considerar-me um humorista. Não consigo definir a tempestade perfeita.

Mas já sentiu a angústia da escrita?
Produzir um conteúdo em pouco tempo e sem inspiração é doloroso.

Não tivesse sido a comunicação e alguns acasos e hoje seria o quê?
A área da saúde é uma área que me interessa e ainda pensei, posteriormente, fazer algo ligado à terapia da fala. Teria sempre de fazer qualquer coisa destinada a servir os outros, a estar em contacto com eles. Sendo que o meu contacto com o público foi sempre à distância. No teatro há sempre a quarta parede e o registo da stand up comedy não me é confortável. Gosto de pessoas, mas quando não estou em personagem não me sinto muito à-vontade.

Resquícios do Rui Unas adolescente?
Uma timidez para a qual tenho hoje mecanismos de defesa e ocultação.

Já fez as pazes com o adolescente?
Estão feitas. Não estou zangado, nem comigo nem com ninguém.

Veja onde ele chegou.
Foi um longo percurso. Mas não quero embandeirar em arco. Houve mérito, muito esforço mas também não deixou de ser natural.

Ainda se acha feio?
Hoje, não. Já não tenho risco ao lado, nem borbulhas, nem óculos. Digamos que tenho a minha graça

Como vão ser os próximos 20 anos?
Vão ser em long board, assim haja marés. A ver o crescimento dos meus filhos. Sou cada vez mais caseiro. A minha saída favorita é estar em casa e fazer aquilo de que gosto.


Leia a primeira parte desta entrevista: Rui Unas: «Já não preciso da validação do público para ter confiança no que faço»


 

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