O português amigo de De Niro

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História de uma amizade improvável.

O realizador Bruno de Almeida tem uma relação de décadas com Robert De Niro. O português revela um pouco dessa amizade, entre Lisboa e Nova Iorque. Com direito a queijos da serra em natais em Manhattan, jantares no Bairro Alto e uma paixão por cozinha portuguesa que quase levou o ator a abrir um restaurante português nos Estados Unidos.

«O De Niro é um dos meus atores preferidos. Sejamos claros: ele e uma das referencias em termos de interpretação. Para quem cresceu com Taxi Driver, O Touro Enraivecido e todos esses filmes, ele é o melhor. Ou talvez seja uma coisa de geração.

A arte dele vai para alem do método do Actor’s Studio. Senti isso também quando o conheci. Tem que ver com uma honestidade dele. O Robert não representa, sente. Como é uma pessoa muito verdadeira, isso passa na representação. Falam muito dele no Taxi Driver e em filmes conhecidos, mas eu também gosto de o ver em New York New York e n’O Rei da Comédia, dois filmes do Scorsese que não foram grandes sucessos. Mas é impossível passar ao lado do que ele fez em O Touro Enraivecido. Uma pessoa esquece-se de que é o De Niro. É uma das maiores interpretações de sempre num dos melhores filmes da história. A arte do De Niro passa muito por algo sensorial e nem tem que ver com realismo. Mas também toda essa arte foi iniciada pelo Marlon Brando.

O De Niro é grande. Isso vê-se mesmo em alguns dos seus últimos filmes, que não são nada de especial mas mesmo assim ficamos presos a olhar para ele. De Niro é sempre De Niro e torna-se difícil não ir ver um filme em que ele esta. Sabemos que compensa. Outra das suas qualidades é que sabe rir de si próprio e isso vê-se em filmes como Um Sogro do Pior. Ele é tudo menos pretensioso. E isso é uma das grandes qualidades numa pessoa com todo aquele sucesso.

Conheci-o em 1997, quando vivia em Nova Iorque, precisamente no seu bairro, Tribeca. Foi através da minha amiga Drena, filha dele, que entrava no meu primeiro filme, Em Fuga. Ficámos bastante amigos depois dessas filmagens.

Depois disso ela veio a Portugal várias vezes e entrou em mais filmes meus. Claro que fiquei também amigo da família. São pessoas simpatiquíssimas. Até acabei por ir lá passar um Natal, uma vez em que estava em Nova Iorque sozinho nessa altura. Levei um belo de um queijo da serra e ele gostou tanto que o comeu todo. É uma das perdições dele e a culpa é minha.

Em 2001, a Drena veio visitar-me a Lisboa com um grupo de atores americanos, também meus amigos. Foi um verão com uma grupeta gira e o De Niro veio também. Ele adorou essa semana. Foi muito divertido e levei-o aos melhores restaurantes pois ele é um muito bom garfo – já para não falar que tem uma empresa de restauração.

Levei-o a restaurantes cuja comida ele não conheceria. Um dos restaurantes onde se passou por completo foi o Pap’Açorda. E a palavra e mesmo essa: passou-se! Ainda hoje, cada vez que o vejo, fala-me desse restaurante… De tal forma que a certa altura quis mesmo abrir um Pap’Açorda em Nova Iorque. No ano seguinte chegou até a vir a Lisboa de avião particular com um grupo de quinze pessoas da restauração, onde se incluía o Keith McNally e o ator F. Murray Abraham, que tinha vencido o Óscar em Amadeus. O que é incrível é que ficaram em Lisboa apenas duas horas para um almoço privado no Pap’Açorda, onde até a rua do Bairro Alto ficou fechada.

Por diversas razões o negócio não foi possível. É extremamente complicado investir num restaurante português em Nova Iorque – a nossa cozinha não consegue concorrer com outras bem mais internacionais. Além disso, seria complicado arranjar algumas ervinhas bem portuguesas. A verdade é que ainda hoje é fã. Fomos também ao Algarve e lembro-me de o ter levado ao famoso Vila Lisa [Portimão], mas ele ficou mesmo louco foi com o Pap’Açorda.

Em 2007 voltou a Lisboa através da minha mãe para uma exposição sobre o seu pai, o pintor que também se chamava Robert De Niro, no âmbito do Village Film Festival [que entretanto já não se realiza].

Ele adora vir cá… Pelo menos comigo já esteve três vezes. Nos anos 1980 já tinha estado em Portugal e até aconteceu aquele episódio de não o deixarem entrar no Alcântara Mar, em Lisboa. É uma história verdadeira cujos detalhes desconheço. Quando saio com ele em Lisboa acontece algo extraordinário: as pessoas não o reconhecem, não reparam nele. Passa despercebido, os media nunca percebem que ele vem. Só uma vez no Mahjong, um bar no Bairro Alto, é que ficaram a olhar. A certa altura fugimos…

Curiosamente, agora no Cabaret Maxime, a minha ultima longa-metragem, entram o Leandro, de 12 anos, que é meu afilhado e neto dele, e a mãe, Drena. A filha e o neto, no mesmo filme. Mal acabe a montagem vou a Nova Iorque mostrar-lho. Ele já conhece o meu cinema. Aliás, é de uma generosidade tremenda com o seu tempo e todos sabem que é das pessoas mais ocupadas. Depois de ter visto o Em Fuga [1997], passou uma hora ao telefone a dizer-me o que achava e os cortes que poderia fazer.»


Leia também a entrevista exclusiva com o ator e «De Niro, o veterano dos veteranos»


[Depoimento recolhido por Rui Pedro Tendinha]