OPINIÃO

Quando os filhos não saem do ninho

Há homens e mulheres, maiores de 35 anos, que escolhem continuar a viver com os pais. Quais as suas motivações? E o que pensam os especialistas?
Comportamento Pais e Filhos

Os filhos saem cada vez mais tarde de casa dos pais. A difícil entrada no mercado de trabalho e a falta de independência económica são as principais razões. Mas não as de Tiago, Rui, Susana e Gustavo, maiores de 35 anos e com uma situação profissional e financeira estável. Vivem em casa dos pais, por opção. E não veem qualquer problema nisso.

Tiago Marques reconhece ser um caso raro na sua geração. Aos 35 anos ainda mora com os pais, apesar de trabalhar e ganhar um «salário médio». Os seus dois irmãos, já casados e com filhos, distanciam-se do seu estado atual. Tiago é solteiro. Apesar de reunir as condições básicas para ter uma vida independente (entenda-se, viver sozinho e suportar todas as suas despesas), por vontade própria e com a aceitação dos pais, decidiu continuar na casa onde cresceu. Porquê? «Não gosto de estar sozinho», diz, sem hesitação.

Já viveu sem pais. Da primeira, com amigos. Da segunda, com uma namorada. Mas, quando as experiências fracassaram, pegou nas malas e voltou. Diz-se confortável e não vê qual é o problema. «Existe uma parte de comodismo, é verdade, mas sobretudo gosto de chegar a casa e ter alguém com quem conversar.» Há outras vantagens, como não cozinhar ou fazer limpezas, mas Tiago garante que ajuda se for preciso. Geralmente não é.

No que às despesas diz respeito, há um acordo: «Recebo o subsídio de alimentação num cartão e dou-o à minha mãe para ela utilizar nas compras da casa. Como não pago mais nenhuma conta essa é uma forma de contribuir.» O resto do dinheiro do salário tem uma finalidade: «Viajar.» Pode parecer um paradoxo, mas viaja, de preferência, «sozinho».

Para Fabrizia Raguzo, investigadora de desenvolvimento humano na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Braga, este estilo de vida representa «uma gaiola de ouro, muito confortável. Os filhos acabam por ajudar cada vez menos os pais monetariamente, dizem sempre que se for preciso estão lá, mas nunca é, e os pais não pedem». No ponto de vista da psicóloga, é importante intervir nestas relações familiares: «Não são sadias para ninguém. Estamos a criar situações de implosão, onde há excesso de afeto, de cuidado e de bem-estar, que não é gerativo, nem para os pais, nem para os filhos, que acabam por acomodar-se e não criam objetivos. Vivem para consumir, para satisfazer pequenos desejos. Qual a geratividade social destes jovens?, pergunta a especialista.

A investigadora e socióloga da família, Maria Engrácia Leandro, do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia de Lisboa, não responde diretamente, mas adianta que estes não são casos que a sociedade veja com maus olhos: «Trata-se de outra forma de ser e conceber a família, o que não sendo hoje a mais comum, também não é absolutamente nova.» A especialista lembra que era uma situação vulgar no passado, com a diferença de que não era «fruto de uma escolha»: «Normalmente, eram famílias numerosas, podendo haver sempre alguns filhos, habitualmente mais as filhas, que não casavam e, por conseguinte, permaneciam com os pais. Em alguns casos, tratava-se, até, de um projeto dos próprios pais, visando ter alguém que na doença e na velhice pudesse cuidar deles.» Hoje, as razões são bem diferentes, assume a socióloga.

«São os pais a proporcionar aos filhos todo o apoio familiar de que necessitam. E, decerto, também por isso, prendendo-os mais a si.»

Apoio familiar é o que, entre muitas outras coisas, Rui Sá recebe dos pais há 38 anos. Apesar do salário acima da média é, por opção, que ainda vive com eles. Situação que o professor de Informática, natural de Vila do Conde, diz que não mudará tão cedo. «Nunca sei onde vou ficar colocado e não vale a pena alugar duas casas, uma para viver durante a semana e outra ao fim de semana. É gastar dinheiro para nada. Por isso, fico na dos meus pais.» A «situação» nunca foi conversada oficialmente. «Foi andando.»

Agora, quando pensa no assunto, acha que foi a melhor opção: «Além de os ajudar monetariamente, faço-lhes companhia», diz. E nada nesta escolha o faz sentir diferente. «Quando tiver necessidade de ter um espaço só meu, procurá-lo-ei.» Até lá, continuará a desempenhar o papel de «filho presente», posição que, por um lado, descansa-o e, por outro, permite-lhe usufruir das vantagens de «chegar a casa e ter a roupa lavada e passada e a comida feita».

Muitos pais, com o passar do tempo, «não só não pressionam os filhos a procurar a sua independência, como ficam contentes com a presença deles em casa. Muito embora esta represente, em muitas situações, uma prisão», diz a especialista Fabrizia Raguzo, que acredita que este seja um fenómeno mais comum na cultura mediterrânica. «Ter um filho em casa condiciona sobretudo as mães, que continuam a achar que têm obrigação de deixar o jantar pronto, a roupa passada e lavada, organizando o seu tempo em função dos filhos.» Adiantando que também pode ser uma autojustificação dos pais para ocupar o tempo, a psicóloga reconhece que há alguma dificuldade em preencher vazios. «Se os pais não tivessem de tratar dos filhos, nem sempre saberiam o que fazer.»

Os pais de Susana Marvão, de 43 anos, decerto saberiam, mas segundo a filha – única – estão muito contentes por terem a sua menina ainda em casa. A jornalista freelancer e professora de yoga sempre viveu com os pais. «Não me lembro de algum dia ter tido vontade de sair de casa. Não está nos meus planos a curto, médio ou longo prazo. Sou muito feliz», diz.

Mais uma vez, é alguém que ganha um salário acima da média e que, há já algum tempo, não tem uma relação. Na verdade, Susana reconhece que esse fator pode ter exercido grande influência em tudo o resto. «Habituei-me a estar sozinha e isso agrada-me.» Acrescenta que, da parte dos que a rodeiam, nunca se sentiu pressionada a ter uma vida diferente. E se alguém o fez, nunca deu importância.

No que toca a contribuições nas despesas, Susana brinca: «Em casa, eu não ajudo, só dou trabalho.» Mais a sério confessa que os pais não lhe pedem «absolutamente nada». Nem Susana se sente na «obrigação». «Não pago a minha comida, nem luz, nem água. E não me interessa. Estou muito bem assim, sinto-me muito bem com isso e eles também.» Estas são já palavras ditas com muita seriedade. «Não quero que o cordão umbilical se corte!»

O fenómeno da saída tardia de casa, segundo Wolfgang Lind, professor reformado da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa e psicoterapeuta familiar, é fruto de uma responsabilidade partilhada entre filhos e pais. «Podemos interrogar-nos se saem mais tarde porque constituem família mais tarde ou se constituem família mais tarde porque se sentem mais confortáveis em casa, mas a verdade é que não identificamos qual é a causa e qual o efeito». Mais claro para o especialista é «a desistência, às vezes inconsciente, dos próprios pais, em promover a saída do último filho». A isso chama-se «síndrome do ninho vazio» e carateriza-se por acontecer com pais «que passaram a sua vida focados nos filhos e que estimularam muito essa relação conjugal e pessoal, porque o objetivo deles era estarem juntos para criarem os filhos». Quando os últimas «crias» estão para sair de casa temem, sabendo-se mesmo, diz o especialista, que «em alguns casos, os casais entram em conflito por recearem estar sozinhos».

Gustavo Leal tem 35 anos, é empresário e filho único de um casal divorciado. Também não tem namorada e ganha um salário acima da média. É mais um caso de alguém que «se quisesse podia ter uma vida independente, sem qualquer tipo de constrangimento». Ainda assim, prefere morar com a mãe, «porque é um fator facilitador de vida. Tenho mesa, cama e roupa lavada. Além de ter um apoio emocional muito forte». Gustavo já passou pela experiência de viver sozinho, mas não resultou. «Sentia-me muito só. É uma questão emocional». Foi sempre isso que lhe retirou a vontade de procurar um espaço só seu e mesmo quando tem namorada, assume que é difícil passar a noite fora. «Independentemente da hora vou sempre dormir a casa.»

Maria Dulce Leal, mãe de Gustavo, tem 71 anos e foi a única que aceitou falar sobre o tema. No seu entender, é um «disparate» um filho solteiro viver fora de casa, enquanto não se juntar ou casar. «No meu tempo, os filhos estavam com os pais até casar, foi a educação que tive e foi a que transmiti ao meu filho.» Apesar de se sentir «confortável» com a presença de Gustavo em casa, não nega que a «prende»: «É uma preocupação que tenho. Se não tivesse de lhe fazer os almoços e os jantares poderia ocupar o tempo com outras coisas.» Mas reconhece que esta também é uma forma de «combater a solidão de que tanto se fala». «Assim já ninguém se sente sozinho.»

Os especialistas têm opiniões diferentes, mas a maioria defende que quando os filhos ficam em casa dos pais quebra-se o ciclo geracional e adia-se a tomada de responsabilidades.

Fabrizia Raguzo acredita que, por detrás da escolha dos filhos, «que é sempre facilitada ou apadrinhada pelos pais», pode haver outras questões, iniciadas há décadas, mas que só agora têm reflexos na sociedade. «A partir dos movimentos juvenis dos anos 1970/80 os pais desenvolveram uma relação mais próxima e amigável com os filhos, passando a ter como ideal a pertença à mesma geração.» Uma tendência que a investigadora afirma estar a «destruir a diferença geracional», criando-se «a ideia de que, se pais e filhos vivem tão bem juntos, não têm motivos para se distanciarem». Para a psicóloga, no entanto, este adiar da saída de casa é negativo», uma vez que cria situações de «bloqueio e fragilidade nos mais novos, que se projetam na dificuldade em tomar decisões definitivas, seja do ponto de vista profissional, seja em termos sentimentais».

Filomena Abreu
Ilustração Filipa Viana/Who