OPINIÃO

Dar ou não dar presentes, eis a questão

E o leitor? É dos que oferece presentes ou não?
opostos: dar ou não presentes
opostos: dar ou não presentes

Uma enche o filho de presentes, outra é contra o consumismo e resiste a dar prendas à filha. Os argumentos de duas mães com formas diferentes de viver o Natal.

Célia Barros, de 36 anos, sabe que a sua atitude choca algumas pessoas. Não costuma dar presentes à filha e gosta de controlar a quantidade de brinquedos que os outros familiares querem oferecer. «As minhas amigas mais próximas têm, de certeza, pena da miúda. Muita gente olha para mim como se fosse uma mãe ditadora e maléfica», acredita Célia. Mas para ela é a forma correta de educar Rita, agora com 18 meses. No Natal do ano passado estava a viver na Suíça com o marido e não deram nada à criança e este ano comprou uma lembrança «por pressão social». «Ela não percebe nada», justifica.

Já Samanta Vaz, de 33 anos, é o oposto e não esconde que adora oferecer presentes ao filho André, de três. «E no Natal gosto de dar muitos», admite, dizendo que o melhor presente que pode ter é «ver a cara de felicidade do filho a abrir as prendas». Para ela, a noite da consoada só faz sentido se tiver a imagem das crianças a rasgar os papéis dos vários embrulhos. Mas é exatamente essa ideia que Célia Barros quer fora de sua casa na época natalícia. «Não faz qualquer sentido dar muitas prendas. Parece uma feira de vaidades e os miúdos não ligam a tanta coisa», argumenta, dizendo ser comum ver que, entre as dezenas de ofertas, o que eles mais gostam é de brincar com «a caixa de molas» lá de casa. «A minha filha nunca olhou para as quatro Minnies que lhe deram e que tem no quarto», conta Célia.

Nisso, Samanta até está de acordo. «Sim, é verdade, muitas vezes, com tanta prenda, o meu filho não sabe para onde se virar.» Mas não é suficiente para deixar de o mimar com uma consoada cheia de presentes: «O importante é o Natal não ser só presentes. Também lhe passamos o espírito de família. Somos todos unidos», defende. Célia diz que é esse espírito, com uma «onda religiosa», que prefere que sobressaia na sua casa, em Portimão, no Algarve, para onde se mudou recentemente. É contra o consumismo no Natal e daí que os presentes da filha vão ser «dois ou três», dados por outras pessoas.

«Às vezes, os familiares, como a madrinha, não me respeitam e dão imensos presentes», revela Célia, explicando: «Desde que ela nasceu, peço às pessoas com quem estou à vontade para não darem presentes.» Além disso, recusa que «a casa fique atulhada e invadida» pelas coisas da criança. «Quando têm em demasia acabam por desvalorizar os brinquedos», acrescenta. Mas Samanta contesta: «Não concordo. O meu filho dá muito valor e fazemos questão de dar os brinquedos que já não usa aos meninos que precisam. Ele sabe disso e ele próprio escolhe o que dar, ficando feliz por poder partilhar. Mas sente muito orgulho nas coisas que tem.»

Para Samanta, o truque está «nos princípios que se passam». Célia é da mesma opinião, mas acha que ter prendas e brinquedos em exagero «pode interferir na personalidade» das crianças, tornando-as, entre outras coisas, mal agradecidas: «Reparo que há miúdos que quando recebem roupa como presente até torcem o nariz.»

Célia diz que a maioria das pessoas não compreende a sua posição, e adianta que chega a ser pressionada para mudar. «Um dia, por pressão e influência, gastei 40 euros num brinquedo com uma tecnologia que estimulava “isto e aquilo”. Foi um desperdício.» Mais uma vez, Samanta pensa o oposto: gosta de «dar presentes durante o ano todo» e para isso anda sempre atenta às promoções para poder comprar tudo. Admite que às vezes o faz para «compensar o tempo que passa no trabalho», mas garante que compra essencialmente por adorar o filho. «Dar presentes é uma forma de lhe dizer que gosto dele.» Um argumento que não é indiferente para Célia. «Sim, concordo», começa por dizer, acrescentando de imediato: «Mas se não der, não quer dizer que não gosto. Ou melhor: não sou obrigada a dar para provar que gosto da pessoa.»
SAMANTA VAZ
Chegou a frequentar, durante três anos, o curso de Enfermagem, mas desistiu por não conseguir conciliar com o emprego que tinha na época. Atualmente, com 33 anos, trabalha numa loja em Faro, no Algarve, onde vive com a filha, a mãe e o irmão.

CÉLIA BARROS
Tem 36 anos e é formada em Serviço Social pela Universidade Católica de Lisboa. Trabalhou como assistente social e também como vendedora em vários estabelecimentos comerciais. Gosta de realizar trabalhos de artesanato. Vive em Portimão.

Catarina Guerreiro