Por uma vida sem fome

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Voluntários que lutam contra a fome em Portugal.

Uma em cada 14 famílias portuguesas tem um problema grave no acesso a alimentos por falta de dinheiro. A fome tem vários rostos e há cada vez mais gente que tem de pedir ajuda para ter uma refeição. De um lado estão pessoas comuns a quem a vida correu menos bem, muitas delas, se calhar, até conhecemos. Do outro estão centenas de voluntários de instituições que fazem chegar comida onde ela escasseia. Esta é a história de duas delas, distinguidas na primeira edição do Prémio BPI Solidário.

É uma imensidão de terras, o que se vê ao entrar na Quinta da Várzea, em Setúbal. De um lado da estrada, terreno cultivado. Do outro, ovelhas. Há pessoas de enxada na mão, outras a fazer a corrida matinal. Ao longe, o Castelo de Palmela. O espaço é amplo e parece não ter fim. Aqui, respira-se liberdade.

Nesta quinta de 25 hectares, que pertence ao Ministério da Agricultura e foi cedida ao Ministério da Justiça, trabalham reclusos do Estabelecimento Prisional de Setúbal (EPS). Pelo bom comportamento e por estarem numa fase de flexibilização da pena (período de adaptação ao exterior com permissão para irem a casa durante três dias), estão em regime aberto – vivem na quinta. Uma espécie de ensaio para o que os espera quando voltarem para a vida real, com a respetiva reintegração socioprofissional.

«Este é um núcleo de um estabelecimento prisional, numa quinta aberta explorada por nós, com alguns reclusos que estão em vigilância descontínua», diz Ana Paula Ramos, diretora do EPS. «Estão aqui, prestes a sair em liberdade, e não são vigiados por um guarda em permanência.» Confiança é a palavra de ordem. Sabem que têm de cumprir regras e seguir um comportamento que lhes permita manter a oportunidade. «Se traem essa confiança e não cumprem o normativo, regressam ao regime comum e continuam a cumprir a pena em regime fechado.»

Paulo Farias tem 38 anos e está preso há quase dois. Faltam outros tantos para sair. Trabalha na quinta há oito meses. «É um acordar diferente, ao som dos passarinhos. Não se compara com o som dos guardas a abrir as celas.»

Paulo é responsável por toda a rega da quinta e nunca tinha trabalhado na agricultura. Antes de ser preso trabalhava numa empresa de congelados. «Cavar nem sempre é fácil. Mas temos de pagar à sociedade pelo que fizemos. Não idealizo isto como uma prisão. Posso imaginar que estou a trabalhar num cruzeiro e não posso ir a casa.» Paulo espera ir passar o Natal com a namorada e a mãe. Mas para isso tem de cumprir as regras. «Aqui nada é garantido.»

Sete reclusos colaboram em simultâneo no projeto Horta Solidária, da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares contra a Fome, distinguido recentemente na primeira edição do Prémio BPI Solidário. O projeto começou há nove anos e está implementado nas prisões de Alcoentre, Pinheiro da Cruz, Leiria e Setúbal, em parceria com os Bancos Alimentares (BA) locais. «Desde o arranque, já foram produzidas 1200 toneladas de produtos frescos nas quatro hortas nos estabelecimentos prisionais onde atuamos», diz José Simões de Almeida, membro da direção da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares contra a Fome. «Queremos expandir o projeto e por isso nos candidatámos. Temos a ambição de expandir a ideia para todos os estabelecimentos prisionais do país.» São 49, no total. Para já, com os oitenta mil euros do prémio, vão chegar a mais três: Viseu, Castelo Branco e Santa Cruz do Bispo.

Os bancos alimentares portugueses distribuem gratuitamente, ao longo de todo o ano, alimentos a Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS). «Todos os dias recebemos pedidos de ajuda», explica Hernani Banha, coordenador nacional do projeto Horta Solidária, que chega a quarenta mil beneficiários. «Sempre que isso acontece, fazemos o respetivo acompanhamento para as IPSS, até que se tenha a certeza de que estão integradas e a receber apoio.»

Os reclusos sabem que estão a ajudar a comunidade. Não falam muito sobre o que os levou até ali, mas gostam de falar sobre a satisfação de contribuir para uma causa.

«Estamos presos mas estamos a fazer alguma coisa útil e a ajudar quem precisa», diz Mário Luís. Tem 57 anos, cumpre pena há nove meses, faltam-lhe quase dois anos para sair. «Estar no regime aberto é da noite para o dia. O ar que se respira, o som dos pássaros… Na prisão, há muita confusão e estamos fechados entre quatro paredes.» Sente falta do antigo trabalho, num restaurante em Lisboa, da filha e dos netos. «Quando recebemos uma visita, ficamos aliviados por uma semana. Contamos os dias para rever quem gostamos.»

São precisamente as visitas que mais agradam a José Carvalho, outro recluso. «No regime aberto, podemos ter visitas de duas horas aos sábados e aos domingos, num espaço mais reservado do que no EPS.» Tempo precioso e aproveitado ao segundo para ver a mulher e as duas filhas. «Está a ser difícil para a minha mulher, mas o pior já passou. Quando entrei para o EPS, a minha filha mais pequena, agora com 2 anos, não falava nem andava. Agora, já diz umas palavras e até corre. O mais duro é não acompanhar o crescimento dela.»

José cumpre pena de 11 meses, foi preso no dia em que a filha mais velha fez 5 anos. Se tudo correr bem, estará em casa para a festa dos 6. Aos 36 anos, não é a primeira vez que passa por isto. Já leva dez anos de prisão e, por não ter cumprido as horas de trabalho comunitário que lhe eram exigidas, regressou. Quis a vida e as «as más companhias na adolescência» que se metesse «no que não devia». Gosta particularmente de ajudar quem precisa. «Se tivéssemos mais homens a trabalhar aqui, era melhor. Nunca tinha trabalhado na agricultura, estou a aprender algumas coisas.» Resta-lhe «um mês e meio para sair» e conta os dias.

Ana Paula Ramos faz uma analogia do projeto com a história dos reclusos e com a importância que isto tem para a reinserção social deles: «Preparam a terra, cuidam, cultivam e colhem. Exatamente como nas suas vidas: estão aqui para preparar o terreno interior, plantar aquilo que não conseguiram no exterior e, por isso mesmo, vieram para um estabelecimento prisional. Têm de cuidar do que já conseguiram adquirir enquanto aqui estão para conseguirem colher os frutos mais tarde: não regressar à prisão. É o que lhes digo quando lhes concedo este regime.»

Mas a vida dá muitas voltas e, por vezes, uma série de circunstâncias conspiram para que o percurso de cada pessoa seja marcado por todo o tipo de adversidades. O crime e a prisão são algumas delas. A fome, o desemprego e a miséria são outras. Hunter Halder sabe bem o que isso é. Ele conhece bem as adversidades da vida. Lida com elas frequentemente. E conhece os rostos de todos os que o procuram a pedir ajuda.

Nascido na Virgínia, EUA, e a viver em Portugal há 26 anos, Hunter fundou há cinco anos a Re-Food, que combate a fome e o desperdício alimentar.

«É um bom homem», ouve-se com frequência no núcleo de Nossa Senhora de Fátima da instituição, na igreja com o mesmo nome, em Lisboa. São seis e meia da tarde e começam ali a chegar pessoas. A azáfama é grande. No interior, os voluntários separam e armazenam comida que foi antecipadamente recolhida de restaurantes e cafés da zona. Será colocada em caixas próprias e distribuída pelos sacos numerados consoante o número de inscrição dos beneficiários. Ao todo, nos 34 núcleos existentes, de norte a sul do país, estão inscritas 4064 pessoas. Mas a ajuda vai mais além: a Re-Food alimenta também «não inscritos», nomeadamente sem-abrigo ou beneficiários de outras instituições.

«Aqui, nada se desperdiça», diz Hunter. É este o mote da associação: «Aproveitar para alimentar.» Tudo começou em março de 2011, pouco tempo depois de a filha mais velha o questionar sobre a quantidade de comida que todos os dias vai para o lixo em restaurantes, cafés e eventos. Hunter ficou a pensar naquilo e, em menos de nada, começou ele próprio, de fato e chapéu de aba larga, deslocando-se de bicicleta, a fazer recolhas nos restaurantes locais e a distribuir a comida pela comunidade junto a esse primeiro núcleo, de Nossa Senhora de Fátima. Rapidamente se juntaram voluntários e ao final do primeiro mês eram cerca de cinquenta. Atualmente, são mais de 4500. Entretanto, Hunter já não trabalha em formação e produção de eventos em empresas e dedicou-se inteiramente à Re-Food. No primeiro ano, eram servidas mil refeições mensais, com comida doada por trinta fontes de alimentos (restaurantes, cafés, pastelarias). Hoje servem 84 mil refeições por mês.

Na prática, a instituição faz a ponte entre quem tem sobras diárias e quem passa fome todos os dias.

Assume-se como uma ferramenta para evitar o desperdício alimentar e a fome nas comunidades locais, fortalecendo também os laços sociais, em três eixos: «Resgatar toda a comida em condições, alimentar todos os que precisam e incluir a comunidade neste trabalho», explica o fundador.

Maria Teresa (nome fictício), 72 anos, é das primeiras a chegar. É assim há cinco anos, desde que começou a contar com este apoio. Mora perto e nem as doenças crónicas nem o frio a demovem. «Mesmo quando chove, sou eu que venho buscar comida». Vive com o filho, de 35 anos, desempregado. «Ele tem vergonha de dar a cara. Prefere passar fome.» É a «pobreza envergonhada» que não olha a estratos sociais nem a idades. «Temos beneficiários de todas as idades, crianças a idosos, e pessoas com todo o tipo de profissões, como engenheiros e arquitetos», diz Hunter.

A vida de Maria Teresa «foi complicada» e se não fosse esta ajuda, garante, «estaria a pedir esmola». A voz trémula e os olhos humedecidos deixam adivinhar uma vida difícil, mas não perde o sorriso tímido. «Sinto uma enorme tristeza mas sou muito grata a esta ajuda. Também já os ajudei, a lavar a loiça, no começo do projeto.»

Esta é outra das características diferenciadoras: alguns beneficiários tornam-se também voluntários. «Basta baterem à porta e terem disponibilidade para ajudar duas horas por semana», diz Hunter. Como Fernando, que em agosto do ano passado percebeu que também poderia participar. «Não tinha qualquer ocupação, estou desempregado, e tinha vontade de ajudar.» Foi o que bastou. Tem 49 anos, vive num quarto alugado e está à espera de novas oportunidades. «Em junho, fui a uma entrevista no Centro de Emprego mas não fui selecionado.» Encontrou no Re-Food «uma segunda família» e as suas funções dividem-se entre as recolhas de alimentos nos parceiros e as entregas aos beneficiários que não se podem deslocar ao núcleo.

É o caso de Maria Antonieta da Silva. Vive com o filho e diz que a vida se «transformou numa miséria». Os problemas começaram no ano passado, quando sofreu um aumento de mais de 300 euros na renda da casa. «A minha reforma é de 400 euros e tenho de pagar água, luz e gás. Que dinheiro sobra para comer?» Os dias em que recebe os voluntários são também de desabafo. «Choro muito no ombro deles. Estou cega do olho direito e só tenho 30% de visão no esquerdo. O apoio da Re-Food faz uma enorme diferença na minha vida.»

O futuro passará pela replicação do projeto. Em breve, serão inaugurados mais três núcleos na capital até porque a primeira meta do Re-Food é que «Lisboa seja a primeira cidade do mundo sem desperdício alimentar e sem fome».

Seguir-se-á a preparação para fazer o mesmo internacionalmente, havendo já uma equipa em desenvolvimento em Madrid.

Para já, com os 41 mil euros do Prémio BPI Solidário, será criada uma plataforma virtual com o objetivo de «acelerar a replicação de novos núcleos em todo território nacional, necessária para dar resposta crescente de procura da parte dos cidadãos em suas comunidades que queiram assegurar os benefícios do movimento Re-Food nos seus locais», diz Hunter. O trabalho, esse é contínuo, com os pedidos de ajuda a chegar todos os dias, a qualquer hora.

NÚMEROS DA FOME EM PORTUGAL
Segundo o relatório Portugal: Alimentação Saudável em Números 2015, da Direção-Geral de Saúde, apresentado em março deste ano e com dados referentes a 2014, uma em cada 14 famílias portuguesas tem um problema grave no acesso aos alimentos por falta de dinheiro. Um outro estudo realizado à situação das famílias carenciadas apoiadas por Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), realizado pelo Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica Portuguesa, conclui que «cerca de 53% dos inquiridos dizem que o rendimento da família nunca é suficiente para viver». Num total de 1889 inquiridos ajudados por 216 IPSS, «20% afirmam ter tido falta de alimentos ou sentido fome alguns dias por semana».

O estudo revela ainda que «26% dos inquiridos referiram que tinham passado um dia inteiro sem ingerir quaisquer alimentos por falta de dinheiro. Em 51% dos casos, os inquiridos responderam que recorrem à ajuda de IPSS, e entre estes 53% fazem-no há menos de dois anos. O apoio alimentar é o motivo de recorrência de 87% dos casos, seja na forma de cabazes ou de refeições propriamente ditas».

AJUDAR QUEM AJUDA
Na primeira edição do Prémio BPI Solidário foram atribuídos 700 mil euros para apoio a projetos que promovam a melhoria das condições de vida de pessoas que se encontrem em situação de pobreza ou exclusão social. Entre 335 candidaturas, foram selecionados 15 projetos – como a Re-Food e a Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares contra a Fome. A distinção vem complementar o apoio aos segmentos já abrangidos pelos prémios BPI Capacitar e BPI Seniores, nomeadamente, pessoas com deficiência e idosos. Em 2016, os três prémios irão atribuir, em conjunto, um donativo total de cerca de dois milhões de euros.

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