Passadeira vermelha ou sinal amarelo ao turismo?

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Os prós e os contras de uma invasão de visitantes que está a mudar as nossas cidades.

Carla Belchior é empresária, ligada ao mercado vintage, e acha que quantos mais turistas melhor. Hugo Nóbrega é dinamizador na área dos espetáculos e marcas e está cansado do turismo massificado.

Para muitos, Lisboa está a ficar descaracterizada com o aumento de turismo, sobretudo no centro. Para outros, esta é uma oportunidade ímpar de crescimento económico. Afinal, os turistas de câmara na mão e a encher os elétricos são uma praga ou uma salvação para a cidade? Tal como Lisboa, também o Porto atravessa o mesmo desafio.

Carla Belchior e Hugo Nóbrega não são fundamentalistas nas suas opiniões, mas são dois lisboetas com uma perceção diferente do mesmo assunto. Carla gosta e precisa dos turistas, o empresário nem por isso. «Quando viajo sou tanto turista como viajante», diz a dona da loja de roupa vintage A Outra Face da Lua. «Gosto de me misturar discretamente, aceitar as regras dessa cultura. Gosto de observar.» Talvez por isso compreenda o lugar do turista.

Hugo não está nada contente com a forma como a sua cidade está a receber as hordas de turistas. E aponta uma lacuna: «Talvez passe por dar mais conteúdos culturais ao visitante. Aí está a grande oportunidade. Dessa forma, conseguíamos distribuí-los mais pela cidade.» Obviamente, é daqueles que pensam que o fecho de restaurantes míticos para locais e as suas transformações em «armadilhas» para turistas é um tiro no pé. Para ele, era importante não se promover uma Lisboa formatada para turismo de massas e em grupo como locais «inventados» para eles.

«Até percebo as pessoas que ficam stressadas com as filas que os turistas provocam ou quando não conseguem andar à vontade nos passeios porque, de repente, está um casal estrangeiro a tirar uma selfie», diz Carla. «Percebo, mas recomendo que respirem fundo. Ou então, que mudem de sítio… para a Margem Sul ou para Telheiras, onde não há turistas.»

McDonald’s no coração do Chiado, casas comerciais novinhas em folha a mentirem sobre a sua fundação e menus de restaurantes com preços para turistas irritam muitos alfacinhas. Mas o que chateia mesmo Hugo é «entrar num restaurante de que eu goste e só ver turistas. E isso está a acontecer e é inevitável, eu sei, mas aborrece-me, sobretudo quando são locais com boa localização, bem decorados e com boa comida. Perdem o ambiente.»

Carla dá-lhe resposta: «Pois é, mas a vinda de muitos turistas faz que se abram cada vez mais restaurantes.» A discussão é pacífica e a troca de argumentos válida, mas Hugo acredita mesmo que é possível ter o melhor de dois mundos. «Eu falo é de restaurantes e de locais que deviam saber dar o tratamento ao turista, sabendo recebê-lo como um local», diz o produtor. «E há restaurantes que fazem muito bem essa mistura. Passa por não lhes dar o menu turístico.»

Hugo não quer fugir de Lisboa ou sabotar turistas, embora lembre que em Berlim, no bairro de Kreuzeberg, os habitantes são verdadeiramente radicais. «Estive lá recentemente e vi em esplanadas avisos “não queremos turistas!” Isso faz que o turista não tenha vontade de comportar-se como um turista chato, sempre a tirar fotografias com um selfie-stick quando não deve, acaba por se envolver. E é curioso que Berlim vive muito de estrangeiros, que se tornam berlinenses. As pessoas revoltam-se contra essas invasões de turistas porque, muitas vezes, isso acarreta aumentos dos preços. Esta medida lá de proibir o Airbnb não chega por acaso…»

Tentamos provocar Hugo e pedir-lhe qual a estirpe de turista que mais abomina: o pé-rapado, o japonês em excursão ou o espanhol que só pede indicações sem nunca tentar falar um pouco de português, mas a resposta vai para outro caminho: «Era importante mover para o centro mais polos culturais, com programações mais completas em áreas pouco exploradas. O conceito da tasca very typical não me faz confusão, tem o seu lugar. Mas importante era ter oferta cultural para o turista na Avenida da Liberdade, por exemplo.»

CARLA BELCHIOR
Empresária da área da roupa em segunda mão, tem duas lojas A Outra Face da Lua em Lisboa (Baixa e Avenida Almirante Reis), onde exercita a sua especialidade: vintage dealer, conforme gosta de se chamar. Assume-se como uma viajante e passou parte da infância no Algarve onde terá ganho tolerância ao turista. Nasceu em Almada mas é há muitos anos alfacinha de gema.

HUGO NÓBREGA
Trabalha e representa artistas como os Commedia a la Carte, César Mourão, Salvador Martinha, Porta dos Fundos, entre outros. É dono da H2N Phenomena Makers, produziu em Lisboa e no Porto o festival de storytelling Grant’s Stand Together. Está a preparar o the Famous Fest na LX Factory. Sempre viveu na Grande Lisboa.