OPINIÃO

Mãos que tremem também dançam

Dançar com Parkinson? Sim, e de que maneira!

A doença fica atrás da porta. Sentados ou com passos ligeiros, homens e mulheres esquecem, durante uma hora, as dores que carregam para o resto da vida e dançam. Os movimentos podem até nem ter harmonia, mas os sorrisos seguem os compassos certos.

Teresa fecha os olhos. Basta-lhe a voz de Rafael e de Leonor, os dois professores do projeto Dançar com Parkinson, para seguir a aula inteira. Estica os dedos. Um a um. As mãos tremem, mas Teresa não desiste. Há mais de três décadas que vive com esta doença, não era agora que ia desistir. Sentada vai deixando o corpo levar-se pela música. As pernas vão desentorpecendo, ganhando ritmo, esquecendo que foi quando tinha 15 anos que os primeiros sintomas começaram a surgir.

Só quando viajou da sua terra natal – Cabo Verde – para Portugal é que lhe fizeram o diagnóstico: Parkinson. Assim mesmo, sem meias palavras, sem meias verdades. E aquelas nove letras ficaram para sempre a soar dentro da sua cabeça e coladas às dificuldades que o corpo ia sentido. Mas Teresa seguiu a sua vida, agarrou o que o destino lhe deu e não baixou os braços. «Nunca deixei de trabalhar, fui empregada doméstica, nunca parei.» Um dia descobriu Dançar com Parkinson e a timidez ou a tristeza, talvez, com que se vestia diariamente começaram a passar de moda. «Estas aulas fazem-me muito bem, quando acabo sinto que estou melhor, mais alegre, parece que já não penso na tristeza, não penso na doença. Pareço que aceito a doença que tenho.»

É para essa alegria e esse esquecimento saudável que os professores Rafael Alvarez e Leonor Tavares trabalham. «Não falo do ponto de vista científico, mas, do ponto de vista do tato, é muito gratificante ver como eles chegam e como estão passado um, dois, três meses, um ano. Já tive aqui alunos com depressão, um sintoma muito ligado à doença de Parkinson, que a dança ajudou a minimizar, mais não fosse porque a aula obrigava-os a sair de casa e a socializar», conta Leonor.

No fim da aula a que assistimos e em que fomos «obrigados» a participar – «aqui ninguém fica a observar, todos têm de dançar», explica o professor –, Fátima, uma das alunas mais novas, abre o coração a todos os colegas presentes. Os olhos teimam em encher-se de lágrimas num misto de alegria por ter estado a dançar e tristeza por ter esta doença com nome de homem estrangeiro. «Quanto entro aqui, não sei… Tenho alguma doença? Não sei! Aqui sou uma bailarina.» Ali, naquela sala com um espelho ao fundo, como em todas as salas de dança, são todos bailarinos. Sentados, são todos bailarinos. Sem jeito para a dança, são todos bailarinos. Desafinados nos gestos, são todos bailarinos.

ACEITAR A DOENÇA A DANÇAR
«Eu não sei dançar, esse é um dos problemas», diz José Cruz, a rir. Por isso, às vezes atrapalha-se. «Mas faço. Tenho de fazer. O que ganho com estas aulas? Para já, este dia é muito mais bem passado do que qualquer outro. Uma boa disposição, um alívio, há uma maneira mais rápida de resolver as coisas, isto faz muito bem.»

José chegou ao Convento de São Pedro de Alcântara, em Lisboa, em passos curtos, trémulos, cansados. Foi há dez anos que soube que a depressão que escurecia os seus dias tinha uma razão de ser. Quando o médico lhe falou na doença, José, que sempre tivera uma vida cheia de ritmo, cheia de coisas para fazer, não acreditou que aquele diagnóstico fosse para si. Tomou a medicação receitada para os tremores das mãos e quando se sentiu melhor errou, conscientemente errou. «As pessoas não podem deixar de tomar a medicação, exceto com autorização do médico, e eu deixei de tomar. Esta é uma doença que tem de ser muito controlada. Ninguém é perfeito na vida e é assim que aprendemos, fazemos erros e aprendemos.»

Aos 82 anos, depois de ocupar os dias úteis a pintar, a fazer ginástica, a dar e a receber aulas na Universidade Sénior, a trabalhar no computador e a ler, José não prescinde de começar o fim de semana a dançar. Fato de treino vestido e uma piada sempre pronta para deixar a sala toda a rir são os instrumentos que o antigo gráfico usa para, pelo menos durante uma hora, se esquecer do que o médico lhe disse há dez anos. Espreguiça os pés, as costas, desembrulha a tensão acumulada no corpo e dança.

Apesar de a sala ter um espelho, ninguém olha para ele. As aulas são dadas em cadeiras que formam um círculo. Uma estratégia com fundamento. Olhar no espelho é, em muitos casos, ver um corpo que já não se reconhece como seu, ver gestos desprovidos de harmonia, e não é isso que se quer. Olhar nos olhos de quem partilha as mesmas dores é uma forma de encarar e aceitar esta doença neurodegenerativa. Na ponta de uma sala fica Leonor, na outra Rafael. E entre voluntários e doentes todos vão brincando com o corpo numa espécie de dança da preguiça, dança de apanhar a bola de sabão, dança de apanhar a maçã. Sim, cada «passo» de dança tem um nome e é através dele que os alunos trabalham a memória e se recordam do que aprenderam na aula anterior.

«A regra geral destas aulas é dançar pelo prazer de dançar, isso é o que motiva um bailarino que pode ter a técnica, mas se não tiver a paixão e a dedicação à dança, se não transmitir as suas emoções, não consegue. Aqui a chave é o prazer, a capacidade de transmitir emoções, ideias, vontade. Aliar o movimento à capacidade de transmitir sentimentos», diz Rafael, coreógrafo de profissão. E Leonor acrescenta: «Aqui não há a preocupação de fazer bem, se é para a direita ou para a esquerda, por isso é que temos a preocupação de fazer para um lado e para outro, para trabalhar todo o corpo.»

Porquê dois professores a dar uma aula a uma turma pequena? A metodologia concebida pela companhia de dança Mark Morris, criadora do Dance for PD [ver caixa], assim o exige. E Rafael e Leonor, que sentem cada aula como um novo desafio, agradecem essa exigência. «Nós preparamos uma aula, fazemos um alinhamento e, normalmente, não acontece como nós pensamos…», começa por contar a professora. «Há tantas variáveis num grupo com estas características. Daí a vantagem de sermos dois porque conseguimos ir adaptando as aulas ao que acontece em cada dia», remata Rafael.

No último exercício, as cadeiras são deixadas para trás. Uma espécie de analogia com o deixar as tristezas no canto. Braços no ar, mãos que se tocam, gargalhadas que enchem a sala. «Reparei que, quando saio daqui, saio com os movimentos muito mais leves. Eu sei que parece impossível porque os doentes com Parkinson têm tendência para andar com passos cada vez mais miudinhos, mas quando saio daqui volto a mexer-me normalmente. As costas mais direitas, enfim, noto que me faz muito bem. À alma também, sobretudo à alma, à alma…», diz Aurora, 77 anos, a aluna mais antiga de Dançar com Parkinson.

Orgulhosos, os professores olham para os seus bailarinos. É um desafio para as duas partes, mas no final, rostos ruborizados pelo cansaço de fazer mexer articulações que teimam em não fazer o que a cabeça lhes pede, todos levam para casa a aprendizagem que José, o mais velho do grupo, lhes passou: «Um dia, vi no jardim de Campo de Ourique um pombo sem uma pata. Andava a coxear, mas andava, era o que tinha. As pessoas que têm menos qualidade de vida têm de lutar por ela, por mais pequena que seja. Antes, de manhã, demorava meia hora a arranjar-me, agora demoro mais de uma hora. Mas não desisto.»

DANÇAR COM PARKINSON
Foi quando uma amiga que gosta de dançar e que tem doença de Parkinson quis ter aulas de dança adequadas ao seu estado clínico que Anjos Macedo, uma das impulsionadoras deste projeto, pôs mãos à obra. «Comecei à procura na internet e descobri o Dance for PD. Já existe há dez anos e tem um programa específico de dança com doentes de Parkinson inspirada na metodologia desenvolvida pela companhia de dança americana Mark Morris Dance Company/Brooklyn Parkinson Group. Há Dance for PD em vários pontos do mundo. Contactei-os e contactei a Associação dos Doentes de Parkinson. Eles acharam a ideia muito boa», diz entusiasmada.

O sonho começou em janeiro de 2014 e ganhou contornos de realidade em outubro do mesmo ano quando alugaram um espaço para dar aulas em Santos. Hoje, quase dois anos depois, Anjos diz que já passaram pelas aulas dadas por Rafael Alvarez e Leonor Tavares mais de cinquenta doentes de Parkinson, embora agora se mantenham assíduos cerca de uma dúzia. Não é a quantidade que interessa, mas a qualidade das aulas dadas. Por isso, crescer é um objetivo de toda a equipa de Dançar com Parkinson. Já há cidades com as portas abertas para recebê-los, como Évora, Porto e Viseu, mas Anjos acredita que estes voos têm de ser feitos com calma. No horizonte mais próximo, está um workshop de Dance for PD.

«Os nossos professores já estão acreditados. Queremos voar, mas com uma estrutura segura. Gostávamos de formar outros bailarinos para lançá-los nas suas próprias aulas.» Para ajudar o Dançar com Parkinson a crescer, Anjos Macedo, que faz parte da direção, achou que precisavam de financiamento e assim concorreu a vários prémios. Há dois anos, a iniciativa foi galardoada com uma menção honrosa do Prémio BPI Seniores 2014, galardão que permitiu que todas as aulas fossem gratuitas. «Só podemos não cobrar graças a este prémio e ao grande apoio da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que nos cede o espaço.»

A participação nas aulas necessita de inscrição prévia através do e-mail dancarcompk@gmail.com ou dos telefones da Associação Portuguesa de Doentes de Parkinson (09h00-18h00): 213850041 e 939672545. Há aulas todos os sábados no Convento de São Pedro de Alcântara, em Lisboa.

A DOENÇA DE PARKINSON EM PORTUGAL
Estima-se que existam cerca de vinte mil doentes de Parkinson no país, a segunda doença neurodegenerativa com maior prevalência cá. Um estudo de 2014 – Estudo Epidemiológico de Avaliação da Prevalência da Doença de Parkinson em Portugal – concluiu que a maioria dos doentes eram homens com mais de 65 anos. Embora a tremura seja o sintoma que mais se associa ao Parkinson, há outros sinais de alerta: cansaço extremo, depressão, lapsos de memória, irritabilidade e/ou dificuldade de concentração, sobretudo se acompanhados de dores musculares, rigidez e movimentos cada vez mais lentos do corpo.

Mónica Menezes
Fotografia: António Pedro Santos