OPINIÃO

Os primeiros desfiles dos criadores portugueses

Oito designers de moda partilham as suas memórias.

Histórias, segredos e memórias de momentos marcantes na passerelle (e na carreira) de alguns estilistas.

Anabela Baldaque, 1994

«Ao longo dos anos percebi que tenho a particularidade de me sentir sempre feliz e otimista, apesar das contrariedades. Este desfile foi uma verdadeira aventura porque os geradores elétricos dos Armazéns Pereira da Fonseca, em Lisboa, decidiram falhar durante a apresentação da coleção. O que fez que o desfile da coleção de outono-inverno 1994-95 fosse interrompido três vezes.»

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Nuno Gama, 1994

«Era a primeira edição do Portugal Fashion e eu pude vestir a top model Claudia Schiffer – o que, além de um prazer, era uma grande responsabilidade. No final do desfile primavera-verão 1995, nas escadarias da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE), no Porto, o vestido foi vendido a uma senhora que estava a assistir. Depois de receber a caixa, começou a vasculhar à procura de qualquer coisa. Acabou por perguntar onde estava a roupa interior da Claudia Schiffer. Entre a adrenalina natural que sinto antes e depois de qualquer desfile que faço, esta história estará para sempre na minha memória.»

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(Fotografia Acacio Franco)

Leia também a entrevista a Nuno Gama.


João Rolo, 1999

«Eu já fazia desfiles há vários anos e decidi apresentar a coleção de homem-mulher para o outono-inverno 1999-2000 num dos lugares-sensação da altura, o Alcântara Café, em Lisboa. Sou muito perfecionista, gosto de estar a par de tudo o que se passa e sei que isso nem sempre ajuda os outros, mas acaba tudo por correr bem. Convidei os Anjos para encerrar e o Eduardo Beauté está na fotografia porque era o cabeleireiro responsável.»

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(Fotografia Vítor Cupertino)

Luís Buchinho, 1991

«Eu tinha 21 anos, no ano anterior tinha ganho um prémio da Portex de 500 contos (2500 euros) que me permitiu fazer um fundo para começar a minha marca. Na manhã do desfile da coleção outono-inverno 1991-92, no Teatro são Luiz, em Lisboa, percebi que tinha de arranjar cabeleireiros para pentear as manequins. Andei horas a bater de porta em porta, na zona de Benfica, à procura de quem me pudesse ajudar. Acabei por conseguir. Não me lembro do nome do cabeleireiro. E como era muito tímido não sabia que no final do desfile tinha de ir agradecer. Fui empurrado pelas manequins para a passerelle

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José António Tenente, 1992

«Apresentei a coleção para mulher e homem 1993 inspirada na leitura de Tous Les Matins Du Monde, de Pascal Quignard. O romance fez-me descobrir dois compositores barrocos, Sainte-Colombe e Marin Marais, e o instrumento que ambos tocavam, a viola de gamba. Uns meses antes deste desfile da ModaLisboa, no Teatro São Luiz, apresentei uma coleção na passerelle Gaudí, em Barcelona. Lembro-me de a responsável espanhola pelos desfiles se querer certificar se era mesmo aquela que pretendia. Reconheço que na altura era muito fora do ritmo habitual. Fiquei receoso mas mantive-me fiel à ideia inicial. Em Lisboa também fiquei ansioso com esse pormenor…»

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(Fotografia Fernando Peres Rodrigues/ModaLisboa)

Katty Xiomara, 1996

«Ainda a estudar no Citex, fui convidada a participar no Portugal Fashion. Era uma jovem [22 anos] que sentia a adrenalina a fervilhar e tinha de pensar numa quantidade de coisas ao mesmo tempo, sem saber muito bem por onde começar. O estilista tinha a seu cargo uma série de responsabilidades que hoje estão distribuídas por várias pessoas – muitas vezes tínhamos de ir à procura de quem nos emprestasse produtos de maquilhagem e de cabelos, porque não havia dinheiro para pagar. Após esse desfile percebi que ainda tinha muito para aprender.»

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Miguel Vieira, 1998

«Foi um desfile da coleção outono-inverno 1998-99, na Filmoda, que decorria regularmente na antiga FIL – e que num dos dias tinha apresentações de três ou quatro estilistas. Eram organizados pelo Vítor Nobre e na assistência estava uma série de pessoas consideradas importantes na sociedade, incluindo primeiras-damas. Era um acontecimento social. O ritmo dos desfiles era completamente diferente dos de hoje, pois demoravam muito mais tempo.»

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Nuno Baltazar, 1998

«Não foi uma apresentação de coleção mas um desfile de gala no Mercado Ferreira Borges, no Porto, a convite do Portugal Fashion. Eu e o Paulo Cravo estávamos a trabalhar em conjunto e estes convites eram a oportunidade de dar a conhecer o que fazíamos, mas, mais importante, de poder partilhar a passerelle com nomes que eram referências para nós. O trabalho e o esforço eram ultrapassados pelo orgulho de estarmos naquele lugar, naquele momento.»

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(Fotografia Estela Silva)

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