Volante, para quê? Os carros podem andar sozinhos

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Entrar no carro, escolher o destino e relaxar? Sim, o futuro está próximo.

A indústria que nos deu o gosto pela condução prepara-se para ser ela a conduzir. A diminuição da sinistralidade ou a proteção ambiental estão entre os argumentos a favor. Contra? Lá se vai parte do gozo da coisa.

A condução autónoma vai trilhando o seu caminho…sem volante. São cada vez mais os fabricantes de automóveis empenhados em desenvolver tecnologias nesse sentido. Uma inquietação para os que veem na condução um prazer, um alívio para os que só conduzem por necessidade.

Por enquanto, a experiência levada a cabo pela Google veio provar que os carros autónomos também têm acidentes, até em número ligeiramente superior. Não por culpa própria, mas porque são desprovidos de perceção. A um condutor normal é possível detetar fatores de imprevisibilidade como a condução errática de alguém que fala ao telemóvel enquanto conduz ou evitar um carro desgovernado. «A arte de adivinhar» é um dom do ser humano e ainda uma lacuna da inteligência artificial. Possível solução: eliminar os condutores. Isso mesmo. Ou seja, suprimir a possibilidade de um dos ocupantes ter um volante com o qual pode controlar a direção da viatura: apenas a rota e o destino estão dependentes dele.

Entre os argumentos de peso estão a diminuição da sinistralidade e a responsabilidade ecológica. Com velocidades controladas e regulares que limitam os consumos de combustível, carros mais duradouros porque menos sujeitos a desgaste provocado por condução humana ou gestão de estacionamento mais eficaz, em função das dimensões da viatura e do espaço disponível para estacionamento nas cidades, espera-se que estes carros do futuro sejam mais amigos do ambiente.

Ainda recentemente, numa demonstração em Amesterdão, a Jaguar tentou mostrar aos ministros dos Transportes dos países da União Europeia os progressos na locomoção autónoma conseguidos pela marca britânica. «Estamos todos a trabalhar em tecnologias de condução autónoma entusiasmantes», disse na altura Wolfgang Epple, diretor de investigação e tecnologia da Jaguar Land Rover. «Para disponibilizar estas tecnologias com êxito, a indústria precisa de uma abordagem comum aos fabricantes de automóveis, aos operadores de telecomunicações móveis e aos fornecedores de sistemas de infraestruturas viárias. Isto irá permitir a normalização e a harmonização, possibilitando que os automóveis comuniquem entre si e com a estrutura viária circundante de forma eficiente e eficaz.»

Normalização: a palavra que ameaça os apaixonados pelo volante, para quem se vai formando uma nuvem negra ao fundo da estrada. Para os que pensam que as pistas podem ser um oásis, as notícias também não são animadoras: vem aí a Roborace, uma competição automóvel que deixa de fora o piloto. As primeiras corridas estão previstas já para 2017.

Contudo, existe ainda muito por resolver. Questões como dirimir responsabilidades num acidente que envolva uma viatura de condução autónoma ou o modo de uma autoridade indicar a um carro sem condutor que a via para a qual se dirige está vedada ao trânsito são apenas dois exemplos. Outra questão prende-se com a indústria dos automóveis desportivos. A Porsche já fez saber que não está interessada na condução autónoma e aconselha os clientes a manterem os telemóveis nos bolsos enquanto se divertem ao volante, numa clara intenção de separar as tecnologias. É realmente difícil imaginar que alguém compre um 911 para se sentar no banco do lado.

Sendo um tema complexo, a condução autónoma irá ainda suscitar muita controvérsia, e o facto de se saber que a polémica Uber é um dos parceiros da Google num projeto que visa a implementação de veículos autónomos será apenas mais uma acha na fogueira. É preciso não esquecer que muitos dos que seguram um volante fazem-no para ganhar a vida. Autoridades e fabricantes de automóveis trabalham já em parceria para criar legislação e normas técnicas que apressem o futuro. Enquanto isso, os construtores de automóveis aceleram o passo, apontando metas já para 2020. Um camião da Mercedes sem condutor tem feito múltiplas e bem-sucedidas viagens experimentais pelas autoestradas alemãs. E, no próximo ano, a Volvo promete ter cem carros a circular autonomamente nas estradas públicas.

 

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AUTONOMIA EM MOVIMENTO
Com a maioria das marcas de automóveis em processos avançados na área da condução autónoma, já há quem se destaque pelas provas dadas no terreno. É o caso do Future Truck 2025, um camião de longo curso da Mercedes que apenas precisa de que o levem até à autoestrada; depois, ele faz o resto. Também a Google tem sabido aproveitar as tecnologias da condução autónoma, tendo desenvolvido um gracioso veículo para tarefas de cartografia. As ambições da Google não se ficam por aí: a empresa acaba de anunciar um acordo com a Fiat Chrysler Automobiles, tendo no horizonte um programa conjunto na área da condução autónoma com tecnologia cedida pela própria Google.

[Publicado originalmente na edição de 26 de junho de 2016]