OPINIÃO

O troféu de caça mais valioso do mundo é português

Extinta durante um século, a cabra-montês voltou a Portugal. Agora debate-se se deve voltar a ser caçada.

Extinta em Portugal durante um século, a cabra-montês conseguiu voltar ao Gerês na viragem do milénio e, desde então, a população não para de crescer. Mas o animal continua a ser um dos troféus mais valiosos do mundo e, quando um grupo de caçadores veio dizer que era tempo de voltar a caçá-lo – como acontece na Espanha –, o verniz estalou. O futuro caprino, visto dos penhascos.

Tac. Tac. Tac. Tac. Estão ali dois machos de cabra-montês a lutar pela dominância da manada e o embate duro dos chifres ecoa pela Mata de Cabril, o vale mais escarpado da serra Amarela, a 33 quilómetros de Ponte da Barca, no Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG). Os bichos não estão visíveis, mas aquelas pancadas, secas e abafadas, são tão fortes que ressoam por toda a montanha. Tac. Tac. Tac. Tac. A percussão dura largos minutos e depois o barulho cessa. A única coisa que se escuta agora é o vento, que sopra gelado e implacável, não tardará muito para chegar a neve.

De repente, por detrás de um rochedo de granito, aparece um bode. É um espécime magnífico, imponente, de cornadura longa e orgulhosa. Mesmo estando a pouco mais de cem metros de distância, põe-se a fitar os humanos sem medo. Atrás dele assomam entretanto outros machos e, timidamente, algumas fêmeas. Às tantas o grupo engrossa, já há cabras-monteses de todas as idades, umas boas dezenas delas. «Não é difícil perceber porque é que há tanta gente a querer caçar este animal», diz então Carlos Pontes, o ambientalista que nos guiou até aqui. «É tão belo, e tão raro, que conseguir um troféu destes é uma tentação.»

Em outubro deste ano, a publicação de um artigo na revista Caça e Cães de Caça ateou um pequeno incêndio nas redes sociais. Chamava-se «Cabra-montês no Gerês – Poderemos vir a caçá-la?» e lançava a ideia de que usá-la para fins cinegéticos teria um elevado potencial económico para a região. «O crescimento da espécie nos últimos anos torna esta questão pertinente», defende Pedro Vitorino, diretor da revista. «Do lado espanhol da fronteira as licenças são leiloadas por milhares de euros e esse dinheiro reverte a favor das políticas de conservação. Abater alguns animais faz sentido quando se fala de controlo da espécie e, no caso da cabra-montês, isso está a tornar-se cada vez mais uma evidência.» A reportagem mostrava inclusivamente fotografias de machos abatidos em Espanha por caçadores portugueses. E foram essas imagens que se tornaram virais no Facebook. Vários grupos ambientalistas, com o partido PAN (Pessoas – Animais – Natureza) à cabeça, condenaram a ideia de imediato: foi a caça que extinguiu há cem anos a cabra no Gerês e poderá ser a caça a extingui-la novamente, se for legalizada.

Os dois lados da questão podem decidir-se inteirinhos naqueles animais que passeiam pela Mata de Cabril. Para quem vê o potencial cinegético da espécie, o argumento é este: são animais que circulam livres entre fronteiras – e se em Portugal estão protegidos, em Espanha são passíveis de caça. Uma licença para abater um espécime em leilão chega a custar trinta mil euros, dinheiro que é pago aos parques naturais e permite preservar populações e habitats saudáveis. Mas os mesmíssimos bichos servem o argumento oposto. «A reintrodução desta espécie foi um triunfo incalculável para a conservação da natureza», defende Miguel Dantas da Gama, que foi fundador da Quercus, porta-voz daquela associação para a área do PNPG durante largos anos – e hoje é dirigente do FAPAS – Fundo para a Proteção dos Animais Selvagens. Foi ele que detetou a chegada dos primeiros indivíduos em 1999, precisamente na serra Amarela. «Estava no monte e ao início pensei que eram corços, mas depois peguei nos binóculos e vi um casal de cabra-montês. Avisei imediatamente as autoridades, foi uma grande emoção. Publicamente andava há anos a defender a reintrodução da espécie, alegando que a cabra não voltaria a ser perseguida. Mas não demorei muito a perceber a enorme pressão que o animal iria sofrer.»

Para os responsáveis do PNPG, o estatuto da cabra-montês mantém-se por enquanto inalterado. «É uma espécie criticamente em perigo, apesar dos sinais animadores de recuperação», atesta Luísa Jorge, que dirige os projetos de planeamento no Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Se na viragem do milénio não havia mais de um casal no Gerês, em 2003 a população tinha crescido para 75 e, dez anos depois, atingia já os 576 indivíduos. «Hoje são seguramente mais de 600, e estou a ser bastante conservador com os números», diz Henrique Carvalho, que lidera o projeto de conservação da espécie no único parque nacional do país. «Estão distribuídas em dois grandes núcleos, um na serra Amarela, outra no lado transmontano do Gerês, junto a Pitões das Júnias.» É um crescimento galopante, ninguém o nega, e pode ter consequências a longo prazo. A sobrepopulação traz riscos de destruição do coberto vegetal da serra, essencial ao equilíbrio do ecossistema e à viabilidade de outras espécies. E de consaguinidade e doenças, por falta de diversidade genética. Além de que já há sinais de hibridação entre animais domésticos e selvagens. «Mas a zona protegida é muito extensa e ainda está longe do excesso de ocupação. Para todos os efeitos, esta continua a ser uma espécie crítica que não pode ser usada em Portugal para fins cinegéticos. Ainda assim, sabemos que a tentação dos caçadores é grande.»

A caça furtiva já fez algumas vítimas na população caprina e os representantes do parque são os primeiros a admitir que esta é uma questão complicada no Gerês. «Há catorze vigilantes para uma área de 70 mil hectares, o que é manifestamente pouco», assume Henrique Carvalho. Há meses, na região da mata de Cabril, as autoridades encontraram uma viatura com uma arma e o cadáver de uma cabra-montês lá dentro, mas não conseguiram identificar o caçador e este escapou impune. Carlos Pontes, o ambientalista que nos levou a conhecer o rebanho na mata de Cabril, uma zona de reserva integral, diz que é comum ouvir tiros ali. «Passo semanas nestes montes sem ser abordado por ninguém. E sei de vários casos em que há caça furtiva de espécies protegidas. Não são normalmente os locais que o fazem, mas sim pessoas que vivem noutro lugar mas têm aqui residência. Ou seja, conhecem o terreno mas não têm a mesma preocupação com a sustentabilidade. E podem fugir a qualquer momento.»

O íbex, nome porque também é conhecida a Capra pyrenaica, é uma das presas mais raras do mundo e por isso um troféu valioso para um caçador. «O que a maioria das pessoas não imagina é que se paga mais para abater um macho-montês do que um leão africano», diz Ascenso Oliveira, um médico de Ponta da Barca que já caçou ambos. Tem 67 anos de vida, 51 de caçador. A sua casa nos arredores da vila é todo um altar às caçadas. Tem uma coleção invejável de espingardas e carabinas, outra de latas de pólvora, uma biblioteca extensa dedicada ao assunto. As paredes estão decoradas com as cabeças de corços, lobos, veados, javalis e, no centro de tudo, uma cabra-montês. «É a coisa mais preciosa que tenho, de longe. Este animal tem uma mística única. Em primeiro lugar, porque só existe neste território. Depois porque a aproximação é difícil, é um bicho que se esquiva, que vive empoleirado nos penhascos. Para abatê-lo, é preciso caçá-lo por aproximação. E essa é a forma mais pura desta arte, porque para ter sucesso só contam três coisas: o homem, o bicho e a paisagem.» Faz uma festa na cabeça da cabeça do macho e diz: «Aqui cabe toda a alma de um caçador.»

Em 2013, Ascenso comprou uma licença espanhola para abater um macho montês. Existem três categorias de presa: as representativas, as seletivas e as medalhas – que, em termos de qualidade do troféu, seguem uma ordem crescente, consoante a imponência do bode e a perfeição da cornadura. A autorização máxima custou dez mil euros, uma pechincha, e aquele troféu que hoje enfeita a parede foi morto no fim de uma tarde de outono na província de Aragão, a uma centena de quilómetros da cidade de Teruel. «Fui sempre acompanhado por um vigilante da natureza que me indicou os animais a que podia apontar. Não se pode dar cabo do líder do rebanho, por exemplo, porque isso vai ter um impacto muito sério sobre o grupo. As pessoas estão habituadas a confundir a caça com as touradas e não percebem que pode haver um papel muito útil no equilíbrio das populações selvagens. Se não existissem montarias ao javali, por exemplo, a agricultura portuguesa estaria hoje destruída.»

São seis da manhã quando o Sol irrompe pelos penhascos da Peneda, hoje é dia de caçada na aldeia de Castro Laboreiro, concelho de Melgaço. A esta hora as brumas ainda tomam conta do vale, mas quando os cinquenta caçadores largarem para as portas da montaria já o ar estará limpo. Silvestre Gonçalves recebe as inscrições, veio gente do Minho e do Douro, mais uns quantos transmontanos. «Atenção, meus senhores e minhas senhoras», avisa no final do taco, o pequeno-almoço reforçado que é servido antes da ida para o campo, «hoje só atiramos a raposas e javalis. Se virem um veado, ou um corço, ou um lobo, ou uma cabra-montês, deixem-nos passar e não disparem. Estas espécies estão protegidas.» Toda a gente anui e promete cumprir as indicações. «O problema não são os caçadores legais», dirá mais tarde Silvestre, «até porque esses são controlados e bem controlados. A grande questão está nos que atuam à margem dos grupos».

Mais de metade da superfície do maior parque natural do país pode ser utilizada para caça. O mesmo acontece em todas as áreas protegidas portuguesas, que estão divididas em áreas naturais e rurais, sendo certo que nas segundas há essa utilização do espaço por parte das populações locais. E a montaria acontece hoje num planalto junto ao Castelo de Laboreiro, onde circulam os animais em perigo. Cada caçador ocupa uma porta, cercando toda a mancha de arvoredo onde a vida selvagem se esconde. Não pode disparar para as árvores, apenas para os terrenos livres à sua volta. A caça de montaria é sobretudo um labor de paciência.

Trinta cães – podegos, gastons, beagles, grifões, uma cadela dogue-argentino – estão prontos para a largada. Motivados pelos matilheiros, lançam-se ao mato e não tardam a apanhar o rasto das feras. Pum, pum, dois javalis tombam no chão. Pum, mais uma raposa. Do bosque fugirão cervos e veados em pânico, mas lobos e cabras nem vê-los. Os primeiros são mestres na arte da esquiva, as segundas encontram maior segurança nos penhascos. Pum, pum, e há mais dois porcos bravos na contabilidade. «Claro que não disparamos sobre uma cabra, mas faria bastante sentido que eliminássemos as mais velhas, porque isso ajudaria melhor a população das que existem», opina Filipe Veloso, que leva ao lombo uma carabina Beretti e duas décadas de caçada na região do Parque. «A caça controlada dá dinheiro para a conservação da natureza e contribui para a biodiversidade. O problema é sempre o mesmo», ri-se, «como é que se consegue controlar os caçadores?»

No século xix a cabra foi perseguida a tal ponto no Gerês que acabou por se extinguir. O último exemplar da subespécie lusitanica da Capra pyrenaica foi capturada pelo zoólogo Tude de Sousa a 20 de setembro de 1890, na mata de Albergaria, e levada três dias depois para o Jardim Zoológico de Lisboa para ser estudada pelos cientistas. Em 1907, para dispersar rumores de que ainda existiriam bodes selvagens nos montes, a revista Ilustração Portugueza enviou uma expedição às serras nortenhas para procurar exemplares, sem conseguir cumprir o objetivo. A presença milenar do animal na região tinha deixado os seus traços na toponímia – Rio Cabril, Altar dos Cabrões, Costa da Cabra – mas, para todos os efeitos, o ramo português dos caprinos selvagens desapareceu para sempre nesta altura. E os animais que encontramos hoje são cabras-monteses, sim, mas não são lusitanas.

Nas décadas seguintes, as autoridades de Lisboa tentaram sempre negociar com a Espanha a reintrodução destes animais no Gerês. Se já não havia a subespécie lusitanica, acreditava-se em São Bento, que se trouxesse o ibex da serra de Gredos, no centro da Meseta Ibérica, também ele uma Capra pyrenaica, ainda que os chifres fossem menos quadrangulares. João Maria Bravo, fundador do Clube Português do Tiro a Chumbo, era o rosto da exigência a Franco. Américo Tomaz, presidente da República durante a ditadura, insistiu várias vezes com o generalíssimo para a reintrodução da cabra-montês no Gerês, mas o espanhol nunca cedeu. Aquele troféu era demasiado valioso para partilhar.

A partir de 1971, com a criação do PNPG, sucederam-se estudos sobre o regresso do animal ao Gerês, mas Portugal não se comprometia a abolir a caça e, do lado espanhol, a perda de exclusividade era questão que não se punha. No início dos anos noventa, a FAPAS, pela voz de Miguel Dantas da Gama, começou a pressionar o Ministério do Ambiente para trazer a cabra-montês e comprometer-se a não usá-la para fins cinegéticos. A Espanha, entretanto, começou a reintroduzir animais na zona de Salamanca e na Galiza. Em 1998, foram trazidos quatro machos e oito fêmeas para a zona do Xurês, o parque fronteiriço. Um casal saltou a vedação e tomou a serra Amarela. Foi por uma casualidade que o animal voltou ao Gerês.

Em Pitões das Júnias, Montalegre, há uma taberna que tem os chifres de uma cabra pendurados na parede. No Entrudo, os rapazes da aldeia pedem a cornadura emprestada a Margarida Paiva e Bruno Pinto, donos do estabelecimento. «Usam-na para se vestirem de farrapão e poderem pregar partidas aos vizinhos», conta ela. Nessa noite, coloca-se a crossa de palha sobre os ombros e uma renda a tapar a cabeça, para não se ser reconhecido. Quem leva os cornos saltita pela rua, como uma cabra nos penhascos, e indica com os chifres a direção da próxima casa a atacar. Em terras de celtas, a inspiração para festa são os deuses que o povo vê há milénios empoleirado nas ravinas – como aquele monte que fecha a aldeia, o Altar dos Cabrões.

Do outro lado do Parque, o ambientalista Carlos Pontes volta a sair para a Mata do Cabril. Não se cansa de ir ver as cabras-monteses e sabe que esta é a altura do ano em que a atividade está ao rubro. Tac. Tac.Tac.Tac. Os machos a lutar pela dominância é ruído e visão para guardar na memória. O rapaz também era caçador, durante anos viveu do dinheiro que fazia como matilheiro para as montarias, mas um dia ganhou pena aos bichos e converteu-se em fotógrafo de natureza. «Eu sei que uma cabra é uma cabra, mas esta cabra não é só uma cabra», diz enquanto galga os rochedos. As evidências parecem dar-lhe razão: há caçadores a persegui-las, mas também há empresas turísticas que querem rentabilizá-las em percursos de observação. «É um animal com uma destreza impressionante e dotes acrobáticos admiráveis. Quando o vemos a olhar para os vales no alto das rochas, percebemos que é ele o senhor destes montes. E é só por isso que o perseguimos. Porque sentimos uma inveja incrível.»

Ricardo J. Rodrigues
Fotografia Miguel Pereira/Global Imagens