O padre de Leiria que salvou judeus

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Em Roma, na Segunda Guerra Mundial, um padre português salvou dezenas de pessoas. Duas delas ainda estão vivas – e contam, pela primeira vez, a sua história.

Durante a Segunda Guerra Mundial, em plena ocupação nazi de Roma, um padre português acolheu 50 refugiados num colégio e ajudou a encontrar abrigo para mais de cem mulheres e crianças. O feito, com risco da própria vida, valeu-lhe o título de «Justo entre as Nações», o mesmo que Aristides de Sousa Mendes recebeu do Estado de Israel. Apenas dois destes homens que foram salvos ainda estão vivos. E um deles conta, pela primeira vez, a sua história.

Luigi Priolo recorda-se bem das razões que levaram a mãe a enviá-lo para o Colégio Pontifício Português de Roma, no final de 1943. Vivendo em Reggio Calabria (a cidade mais a sul, na «bota» do mapa italiano), mulher de um dirigente socialista local, Gina Priolo queria proteger o filho de uma incorporação militar nas tropas fascistas – ou mesmo, da sua prisão – se o apelido o denunciasse. Já para não falar no perigo dos bombardeamentos dos Aliados.

«Se me mandassem parar, assim que vissem o meu apelido, não seria poupado e poderia ser preso ou incorporado», diz Luigi mais de setenta anos depois, agora a viver em Roma. O pai, advogado, seria nomeado pelos Aliados como sindaco (presidente do município) de Reggio Calabria no final de 1943, após a libertação da cidade. Foi depois escolhido para governador da região, antes de ser deputado e governante.

Através de uma freira de quem era amiga, Gina conseguiu que o filho fosse para o Colégio Português sob a proteção do padre Joaquim Carreira, reitor da instituição onde ficam alojados os padres portugueses a estudar na capital italiana. «Fui salvo pelo padre Carreira», diz Luigi. Ele foi um dos cerca de cinquenta refugiados que, naqueles meses, até à libertação de Roma, a 4 de junho de 1944, procuraram a proteção do padre português. Entre eles estiveram alguns judeus. A investigação sobre os factos então ocorridos e o testemunho de Elio Cittone, um judeu que esteve refugiado no colégio e vive ainda perto de Milão, valeram a Joaquim Carreira o título de «Justo entre as Nações», atribuído pelo Yad Vashem, o Memorial do Holocausto, de Jerusalém (a história sobre os factos foi publicada no Público a 23 de dezembro de 2012). A medalha foi entregue a 15 de abril do ano passado, em Lisboa, à família de Carreira.

Além de Cittone, Priolo será o único refugiado ainda vivo que esteve no Colégio (todos os outros eram mais velhos e já adultos). Mas, ao contrário do judeu italiano, que nunca mais se cruzou com Joaquim Carreira, Luigi Priolo voltou a procura-lo por achar que tinha uma dívida de gratidão para com o português. Em outubro de 1961 (17 anos depois de ter estado no colégio), o padre Carreira celebrou o casamento de Luigi com Marisa. Priolo tinha então 31anos e desde 1958 era «referendário» (técnico superior) do Senado italiano – onde chegaria a desempenhar o cargo de vice-secretario-geral, trabalhando com toda a geração de políticos italianos do Pós-Guerra: Alcide de Gasperi, Aldo Moro, Giovanni Spadolini, Amintore Fanfani, Francesco Cossiga. Nessa altura, Carreira já deixara as funções no colégio. A instituição mudara entretanto do palacete no centro histórico de Roma, perto do Castel Sant’Angelo, para um edifício construído de raiz, um pouco mais longe do Vaticano.

Luigi chegou ao Colégio Português a 29 de dezembro de 1943 ou a 2 de Janeiro de 1944 – a memória não guardou o dia exato. Desde setembro de 1943, e após a demissão de Mussolini, Roma estava sob as ordens do comando militar alemão. No livro Reggio Calabria – dalla Guerra alla Rivolta, organizado pelo jornalista Enzo Lagana, com histórias da cidade, Priolo escreve: «O período que mais me enriqueceu foi o que decorreu do Natal de 1943 a 4 de Junho de 1944 (dia da libertação de Roma), no Colégio Pontifício Português.» E justifica: «A diabólica capacidade da minha mãe conseguiu “enfiar” um miúdo de 14 anos, exemplar único, num sinédrio de refugiados políticos, personalidades da ciência, do direito, da medicina…»

Entre as pessoas que procuraram refúgio no colégio estava também um tio de Luigi, Mario Zagari, oficial do exército, referido igualmente no relatório da atividade da casa sobre o ano letivo 1933-34. E havia Mário Jacopetti, professor de Engenharia na Universidade de Nápoles, e os médicos Giuseppe Caronìa e Cesare Frugoni, conhecidos na capital italiana. Caronìa era reitor da Universidade de Roma e dirigente do Partido Popular/Democracia Cristã Italiana, tendo escondido muitas pessoas na Clínica das Doenças Infecciosas da Universidade, que dirigia – à conta disso começou a ser vigiado, acabando por ter de se refugiar no colégio. Frugoni era diretor da Clínica Médica Geral da Universidade de Roma e um dos mais conhecidos clínicos da capital italiana, com clientes como o Duce fascista Benito Mussolini, o físico Guilherme Marconi, inventor da rádio, e o maestro Arturo Toscanini. No livro de Enzo Lagana, Luigi Priolo acrescenta um nome que o padre português não registou no relatório: Gustavo Colonnetti (1886-1968), engenheiro e matemático que chegaria a ser reitor do Instituto Politécnico de Turim e presidente do Conselho Nacional para a Investigação, em Itália.

Com quem Priolo não se cruzou foi com a família Cittone, identificada no relatório de Joaquim Carreira como «hebreus». Foi o testemunho de Elio Cittone, na altura com 16 anos, que permitiu ao Yad Vashem declarar o padre português como «Justo entre as Nações», em 2014. Os Cittone (os irmãos Isacco e Roberto e Elio, filho deste último) terão saído antes de Luigi chegar.

Mas houve três outros judeus com quem Luigi esteve no colégio, embora não se recorde dos nomes. No livro citado, Priolo descreve o seu lugar na «imponente mesa em U», e com as posições marcadas, segundo a importância social dos comensais. Como estava ao fundo da mesa, beneficiava, por vezes, de suplemento: quando havia carne, os judeus perguntavam a Luigi o que era; e ele, invariavelmente, respondia «porco», o que os inibia de comer – mas não a ele, que ficava com o prato dos vizinhos de mesa.

Foram cinco meses ricos, mesmo se arriscados. No colégio, o jovem Priolo percebeu desde cedo que tinha de comportar-se como um adulto e cumprir regras básicas de segurança. Apesar de ser considerado território da Santa Sé e estar relativamente protegido das operações alemãs em Roma, a casa não podia atrair suspeitas.

«O padre Carreira arriscou muito», recorda. «Tínhamos de respeitar algumas regras, para não pôr nada em causa – nem as nossas vidas nem as dos padres que nos protegiam e que não podiam ter-nos ali escondidos.» Persianas e cortinas permaneciam fechadas o mais possível, mesmo durante o dia. À noite, os abat-jours colocados no chão evitavam que a luz fosse detetada desde o exterior. Os lavatórios deveriam estar limpos e secos e a roupa devia ser colocada no meio da dos padres. Um dos refugiados, capitão dos Carabinieri, chegava a polvilhar com pó a mobília e a cama, depois de arrumar o quarto. «Havia um código de comportamento. Era preciso ter os quartos arrumados de modo a não parecer que estivessem ocupados e não podíamos sair do edifício nem chegar à janela de modo a sermos vistos da rua.»

A ação do padre Carreira não se limitou ao Colégio Português, vocacionado apenas para padres – e que só recebeu homens e rapazes, também para não levantar suspeitas. Ela estendeu-se a mais de cem mulheres e crianças, a avaliar pelo testemunho que Maria da Conceição Primitivo recolheu do próprio sacerdote.

Costureira aposentada, da zona de Leiria, Conceição correspondeu-se com Joaquim Carreira nos últimos meses da vida do reitor – morreu em dezembro de 1981. Ele lia os artigos dela no jornal da diocese de Leiria (concelho em que nasceu) e escreveu-lhe a dizer que gostava. Além das cartas que trocaram, encontraram-se duas ou três vezes, no verão desse ano, quando o padre Carreira esteve pela última vez de férias em Portugal – e onde celebrou os cinquenta anos de sacerdócio. Nessa altura, «falou das senhoras e das crianças de várias idades». «O número era muito superior ao dos homens. [Um dia, durante a ocupação nazi de Roma] conduziu um grupo, depois de dividido, para não dar nas vistas, à Igreja de Santo António dos Portugueses, fazendo-lhe Companhia alguns padres do Colégio. Pensou então em dirigir-se a três casas de religiosas, onde sentiu haver espaço e acolhimento.»

Apesar dos receios iniciais, as freiras cederam ao apelo do reitor. «Logo nessa noite se recolheram nas três casas, sem mantimentos para tanta gente», terá dito o padre a Conceição. «Suei, perdi peso e cabelo. As mães com filhos ficavam juntas no mesmo lugar. Uma sinfonia de crianças a chorar.»

Joaquim Carreira regressou nesse mesmo dia ao Colégio Português para levar leite em pó, bolachas e arroz. Nas casas das freiras, as novas hóspedes deitaram-se no chão como puderam. «Não me deitei e andei a noite toda furando Roma, mudando caminhos, acordando padeiros para trazer sacos de farinha, no dia seguinte, fazer papas com manteiga. E tive de tratar da distribuição, de descarregar os mantimentos, de encorajar as freiras e de ouvir as mulheres que não sabiam dos maridos e de alguns filhos», contava o padre Carreira a Maria da Conceição. Ao mesmo tempo, tinha de assegurar a vida do Colégio o mais normalmente possível.

Quando os nazis foram ao colégio, o sacerdote ficou com medo de que atacassem as casas das freiras. O que não aconteceu. Mas surgiram outras preocupações: várias crianças adoeceram. Joaquim Carreira levou-as a médicos amigos. Depois, era ele que explicava às mães a medicação.

«Qualquer das três casas ficou com mais de meia centena, espalhadas pelos sótãos», recorda Conceição Primitivo, com base no que o padre Carreira lhe terá dito. Uma carta, escrita pelo próprio a 22 de outubro de 1981 (mês e meio antes de morrer), já em Lisboa, confirma as memórias de Conceição: «Quando recordo os saltos que deu este coração e as voltas do meu miolo cerebral ao meter dentro da casa que a Providência me entregou [o Colégio Português] tantos refugiados judeus, inclino a cabeça cheia de respeito pelo dom da vida que me foi concedido guardar aquela pobre gente.» E acrescenta, recordando o que fizera: «Se não fosse o caminho percorrido pelos arredores de Roma a fim de adquirir mais barato o alimento para os habitantes do colégio, não sei o que seria. Conhecia moleiros, padeiros, leiteiros, agricultores e nessa altura tive de reforçar compras e fornecedores.»

A última confissão de Joaquim Carreira não deixa dúvidas sobre os sentimentos que tinha de vencer para poder fazer o que fazia: «Fui-me refugiar na catacumba de São Calisto e chorei naquela ansiedade. Não sabia como atacar tanta urgência e arranjar paciência, caridade e mansidão contra a luta do inferno que estava a tentar-me contra a minha luta. Esse era o meu terror e o meu medo. Isso era o que mais me custava.»

 

ROMA, CIDADE ABERTA AOS REFUGIADOS
A personagem do padre Pietro em Roma, Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini, não é casual: é pároco numa zona pobre da cidade e protege partigiani e antifascistas, fazendo também de intermediário e correio da resistência. Descoberto pelos alemães, acaba fuzilado.

Na Segunda Guerra Mundial, e sobretudo durante os nove meses da ocupação nazi de Roma, muitos colégios e casas religiosas foram refúgio para judeus, antifascistas e outros perseguidos. Luigi Priolo e os refugiados do Colégio Português não foram caso único. Um terço das casas religiosas de Roma (ou seja, 220 em 750 conventos, mosteiros ou colégios) acolheram pessoas necessitadas que tentavam escapar à incorporação militar. Só no caso dos judeus (a comunidade de Roma tinha umas 10 a 12 mil pessoas), terá havido pelo menos
4300 refugiados.

Aristides Sousa Mendes, Carlos Sampaio Garrido, diplomata português em Budapeste em 1944 e José Brito Mendes que, com a mulher, acolheu a filha de um casal amigo, são os outros três portugueses com o título de «Justos entre as Nações».

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