Ana Sousa Dias Ana Sousa Dias

O Natal não estava branco mas tinha muitas luzes

Se existe um paraíso para os consumidores mais consumistas, ele chama-se Nova Iorque em tempo de Natal. Luzes, enfeites, cânticos, árvores. Lojas em tresloucadas promoções que hão de culminar no dia a seguir à festa.

A árvore imponente da praça Rockefeller, iluminada desde o dia 30 de novembro, atrai cada dia 500 mil pessoas que aproveitam para espreitar a fachada do Saks. As únicas pessoas fartas de ouvir a banda sonora do filme Sozinho em Casa, que acompanha o feérico espetáculo de luzes do Saks na 5ª Avenida, eram naquela noite os polícias que tinham passado todo o turno a ouvir sucessivamente a mesma música. Estavam muito gratos por serem onze e meia da noite e a coisa terminar. Quem passava não tinha a mesma opinião, queria mais, mas podia sempre ir espreitar os patinadores na pista de gelo por debaixo da árvore gigante.

Há toda uma história no passado desta árvore. Todos os anos é escolhida uma nas florestas dos Estados Unidos e do Canadá, e transportada de camião ou mesmo de avião para a chegada triunfal à praça. Depois são vários dias para instalar andaimes e decorações e finalmente, no topo, a luminosa estrela Swarovski de três metros de diâmetro.

Estava-se em plena Depressão, em 1931, quando a primeira árvore de Natal foi colocada naquele lugar, paga pelos trabalhadores que faziam a demolição para abrir espaço ao Rockefeller Center. Com decorações feitas pelos operários e familiares, era uma árvore com seis metros de altura e os salários desse dezembro foram pagos à sua sombra. Quando o edifício ficou pronto, um trabalho que envolveu 46 mil pessoas, a árvore passou a ter presença todos os anos, cada vez mais alta. Atualmente, não fica por menos de 30 metros e tornou-se um ícone do Natal nova-iorquino. A inauguração tem todo um cerimonial, uma festa com transmissão em direto e milhares a acotovelar-se para assistir.

Festa idêntica marca a noite em que o Saks, o grande armazém da 5ª Avenida, revela pela primeira vez a iluminação do ano. Às sete da tarde de 21 de novembro, 85 alunos da escola Jacqueline Kennedy Onassis, do American Ballet Theatre, dançaram em plena avenida, cortada para o efeito. Seguiu-se o espetáculo de luzes e no fim houve fogo-de-artifício. Com as portas da grande loja escancaradas para mais surpresas, ofertas e, objetivo central, compras. Muitas compras.

É nesta época que Nova Iorque se torna um centro comercial gigante. Há muito mais, basta andar nas ruas ou entrar no Grand Central Terminal, onde estão instaladas barraquinhas para vender de tudo. A estação do Ground Zero, com a estrutura de arcos que revela de imediato que foi desenhada por Santiago Calatrava, é mais discreta nas festividades. Com o solo pintado de branco, faz lembrar um rinque de patinagem no gelo. No exterior, o extraordinário Memorial às vítimas do 11 de Setembro corta a respiração, tão forte é a atração do abismo, do buraco negro rodeado de todos os nomes dos que morreram.

Mas a época é de festa, até porque estou em Nova Iorque a testemunhar o juramento de António Guterres como novo secretário-geral das Nações Unidas, e oiço-o a agradecer a Portugal por lhe ter dado os valores fundamentais da solidariedade, da tolerância e do diálogo. Enquanto a cidade de Aleppo é esmagada e Trump usa o Twitter para fazer política externa.

Então regresso à árvore, porque ali ao lado a loja da Lego é uma perdição.

[Publicado originalmente na edição de 25 de dezembro de 2016]