OPINIÃO

Onde nascem os relvados?

O futebol europeu joga-se em relvados alentejanos.

É no litoral alentejano que nasce a relva que cobre alguns dos mais importantes campos de futebol europeus. Do Real Sociedad ao Marítimo, passando pelo Málaga, várias equipas pisam relvados criados entre Vila Nova de Milfontes e a Zambujeira do Mar. Real Madrid, Futebol Clube do Porto, Benfica e Sporting também já fizeram parte da carteira de clientes da Camposol. O mais curioso é que a relva desportiva representa apenas um por cento dos negócios da empresa alentejana.

É verão e, embora o dia não esteja particularmente quente, os canhões de rega estão a funcionar em pleno, regando os campos. Ao longe, o trator avança, preparado para o corte de vários tapetes de relva, enquanto as andorinhas fazem voos rasantes ao relvado e uma ou outra cegonha coloca uma nota de branco no meio do manto verde. É no Parque Natural do Sudoeste Alentejano, entre Vila Nova de Milfontes e a Zambujeira, que nascem os relvados onde se disputarão alguns dos mais importantes jogos de futebol da próxima época.

«Em termos de solo e de clima, este é o melhor sítio para esta cultura. Um dia de calor como o de hoje – que não passa dos 26.º C – é fantástico para produzir relva», diz Peter Knight, sócio fundador da Camposol. A empresa, criada em 1992, fez os primeiros ensaios de relva quatro anos mais tarde e iniciou a venda em 1998.

É a relva desportiva que dá fama à Camposol mas, ironicamente, esta é uma ínfima parte do negócio da empresa que se dedica, acima de tudo, à produção de hortícolas.

«A relva representa 20 por cento do negócio e, destes, 99 por cento são para jardins, só um por cento é destinado a relva desportiva. Mas, como o futebol faz girar este país, a Camposol é conhecida por relvar estádios», diz Peter Knight, que veio para Portugal ainda nos anos 1980, para uma exploração que produzia alface iceberg. Peter admite que, acima de tudo, a empresa aposta na relva desportiva pela publicidade: «Quando fizemos o Real Madrid, foi notícia durante uma semana.»

Além do Real Madrid, a lista de clubes que já tiveram os seus estádios relvados pela Camposol inclui, entre outros, o Bétis de Sevilha, Lyon, Mónaco, Real Sociedad, Celta de Vigo, Valência, o Marítimo e os três grandes do futebol nacional: Futebol Clube do Porto, Sport Lisboa e Benfica e Sporting Clube de Portugal.

Uma lista que parece não impressionar Guilherme Ramos, o responsável pela equipa de produção de relva da Camposol. Aos 36 anos e natural da região, Guilherme não é grande adepto de futebol. O que não o impede de sentir orgulho a cada novo contrato. Alguns destes clientes são difíceis de esquecer. É o caso do Marítimo, que lhe tirou horas de sono há cerca de quatro anos. «A relva ia estar cinco dias fechada em contentores frigoríficos – ia de barco – e enquanto não chegou lá e se percebeu que estava tudo bem e não tinha fermentado, foram momentos de grande stress», recorda. Por regra, a relva destinada aos campos de futebol é colhida durante a noite, entre a uma e as seis da manhã, quando as temperaturas são mais baixas, para evitar a fermentação durante o transporte.

O transporte para o Real Madrid, embora memorável pelo aspeto mediático, foi mais calmo. No total, o processo demorou vinte horas e a relva foi transportada em camiões TIR refrigerados até à capital espanhola. Regra geral, são necessárias seis horas de recolha e vinte camiões de relva para o relvado de um estádio. Já a colocação demora cerca de três dias.

«O sistema de produção de relva é, basicamente, como o de qualquer outro produto agrícola. A diferença é que temos de ter a terra muito bem nivelada. Escolher as sementes – as mais bonitas, as mais resistentes, as que precisam de menos água –, fazer a mistura e semear», explica Peter Knight. Neste caso há uma mistura das variedades Lolium perenne (60 por cento), de rápida germinação, boa resistência ao pisoteio e rápida regeneração, com a Poa pratensis (40 por cento), de crescimento mais lento, boa capacidade de recuperação e muito tolerante às diferentes condições climatéricas. Em conjunto, garantem o relvado adequado para o futebol: no qual a bola desliza mais facilmente e os jogadores sofrem menos lesões.

«Mas nós estamos mais preocupados com o que não se vê, com as raízes, do que com o que se passa à superfície», diz Peter, adepto do Sporting, pelo qual chegou a ser meio-fundista federado, tendo Moniz Pereira como treinador.


Leia também a entrevista a Moniz Pereira.


Em Inglaterra, torce pelo Leeds, que caiu para a segunda divisão. «Como sportinguista estou habituado a sofrer», diz, com humor resignado. As raízes, diz, querem‑se longas e saudáveis, para garantir o bom estado do tapete durante a produção, no transporte e posterior utilização pelos clubes.

Guilherme Ramos junta‑se à conversa para alertar para a importância do solo no crescimento de um bom tapete de relva. «O campo tem de estar perfeitamente nivelado. Além disso, todos os anos as culturas rodam para evitar o desgaste. Para o ano podem estar aqui cenouras ou batata‑doce», explica.

Desde o momento da sementeira, feita em duas épocas – de setembro a novembro e entre março e abril –, até estar pronto, um tapete de relva desportiva precisa de um ano.

Entretanto, são necessários vários cuidados para que o resultado seja perfeito. Depois da sementeira, é passado um rolo de quatro toneladas sobre o relvado. E depois ainda há que garantir a manutenção, com a rega e os cortes que garantem o tamanho de folha ideal. Quando o tapete tem a consistência necessária e é assinado um contrato, é feito um último corte, seis semanas antes da recolha.

O resultado são extensões de relva fresca e com ar por vezes demasiado convidativo: os responsáveis da Camposol já se depararam com festivaleiros acampados nos seus relvados por alturas do Festival do Sudoeste. E também há quem, à socapa, aproveite para dar uns pontapés na bola na relva que depois será pisada pelos craques. Uns e outros são convidados a sair de campo assim que são descobertos.

Todo o processo – da sementeira à recolha – é mecanizado. Mas, para que o relvado não fique danificado, os tratores têm pneus especiais que garantem uma melhor distribuição do peso e não deixam marcas no terreno. É Igor Gorbunov, de 46 anos, que opera a máquina de recolha. O engenheiro aeronáutico russo está em Portugal desde 2002 e na Camposol há dez anos.

Por cá sempre trabalhou na agricultura e, até ao momento, não se arrependeu da escolha. «Lá passava o dia fechado, aqui ando ao ar livre e tenho este clima», diz, com ar sério e os olhos claros a sobressaírem na pele tisnada pelo sol. Passa pouco da hora de almoço e Igor manobra a máquina de modo a que a recolha seja feita de forma milimétrica – a faca vibra sobre o relvado, corta a relva e enrola‑a. Recolhe‑se relva para jardins, com rolos mais pequenos. No caso da relva para os campos de futebol, cada rolo pesa entre uma tonelada e uma tonelada e meia. Adepto do Spartak de Moscovo, Igor assume uma postura diplomática sobre o futebol português: «Gosto dos que jogam bem, não necessariamente dos que ganham.»

A pouca distância estão os armazéns da Camposol e um terreno em fase de preparação. É ali que a empresa vai ensaiar, ainda neste ano, a produção de relva híbrida – metade natural, metade sintética –, que clubes como o Real Madrid estão a preferir. «É colocado um tapete artificial e depois é semeado um tapete natural por cima. Um campo híbrido resiste melhor aos jogos. Acredito que vai ser o futuro», diz Peter Knight.

A PRECISAR DE SOLÁRIO
«Em qualquer estádio com mais de 55 mil cadeiras, a relva está condenada.» Peter Knight é perentório quanto às fracas condições que recebe a «sua» relva num estádio. Em Portugal, o estádio de Alvalade é o mais problemático e exige manutenção intensiva com a aplicação de luz artificial e ventoinhas. «Não há ar que entre ali», lamenta o fundador da Camposol. Os campos do Benfica e do Futebol Clube do Porto também apresentam problemas, mas são francamente melhores. Mas nada bate o sistema do Arena Stadium, em Amesterdão, em que a estrutura do estádio é amovível, o que permite à relva ficar a apanhar luz direta durante uma semana. «Quando há concertos, exposições ou outro tipo de eventos, isso não é prejudicial porque a relva não está lá. Está muito bem pensado», elogia Peter Knight.

Susana Torrão
Fotografia Orlando Almeida/Global Imagens