OPINIÃO

O coração da Maria

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Entre a criação e a destruição, as duas forças que nos movem a todos lutam por ocupar o maior espaço na nossa vida. Qual delas ganha, cabe-nos a nós decidir.

Pela facilidade com que hoje apontamos o dedo ao nosso vizinho do lado, acusando-o de todos os nossos males, parece que o ódio está a ganhar a corrida. Eu contribuo para perpetuar o ódio que aponto ao apontá-lo com ódio.

Sobretudo, é muito difícil não ceder ao medo de me deixar contaminar pelos discursos de ódio e de perder a capacidade de gostar da diferença.

Diferença precisa-se, para que o mundo que eu crio não esteja cheio de eus. Quero o meu mundo cheio de indivíduos muito diferentes de mim, que me ensinem coisas e me façam crescer, crescer, crescer, até que não caiba no mundo que criei e tenha de criar um novo, maior, melhor, porque o anterior se tornou pequeno, restrito, como um colete de forças.

Quero criar um mundo que não me aperte como um colete de forças. Que não espartilhe a vontade de ninguém, que seja feito à medida das necessidades de cada um dos que nele vivem. Um mundo que ame mais do que odeie. Que não odeie de todo, se fosse possível. Mas que, pelo menos, ame mais do que odeie.

Tal como silenciar o amor, silenciar o ódio também não me parece solução.

Fugir de um problema alimenta-lhe o ego, fá-lo crescer até atingir dimensões desmedidas. Muitas vezes, é quando finalmente falamos acerca dele que acabamos por colocá-lo no devido lugar. Deixou de se apoderar de nós e passamos a apoderar-nos dele, rotulando- o, colando-lhe as palavras certas, delimitando-o, contendo-o.

Falemos do ódio, para lhe perdermos o medo. Enfrentemo-lo, delimitemo-lo, colemo-lhes as palavras certas. Acho que só assim poderemos encerrá-lo como assunto no nosso coração e voltarmos a nossa atenção para a única força criadora do mundo: o amor.

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Um coração que consegue manter a sua cor viva, mesmo num fundo negro: o da fotografia foi feito por uma menina chamada Maria. Deu-mo, dizendo que tinha começado a estudar música por causa de mim. E eu entrego-lhe este texto, como gesto de gratidão e de esperança. Se puder dar algum contributo ao mundo, que seja o de inspirar Marias a entregar os seus corações a a quem as ouve.

(Fotografia de Ana Bacalhau)

[Publicado originalmente na edição de 21 de agosto de 2016]