Ney Matogrosso: one man show

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Aos 75 anos, Ney Matogrosso continua a dar espetáculo. Entrevista ao cantor, antes de atuar em Portugal.

Ney é ser. Alienígena, transformador, híbrido, humano, animal, sexual, produto da sua íntima criação que atrai ou repudia, magnetiza ou afasta. Poucos dias antes dos concertos em Portugal, o mistério de Ney Matogrosso revela-se-nos numa longa conversa mas curta resposta à intriga que nos assola, enquanto, tranquilamente, vai desfiando a sua história de vida, entre várias peles: músico, amante, personagem.

Se corre a máxima entre jornalistas de que é arriscado entrevistar os ídolos, não vá a deceção ocorrer, o risco é zero quando se desliga o telefone e se recupera a respiração. Uma das maiores lendas vivas do Brasil deixa‑nos o coração inquieto e a mente nublada. Afinal, aos 75 anos de vida e quase 45 de carreira, Ney consegue sempre o mais difícil, transversal ao tempo e à era em que vive. Sem máscara, sem figurino, é exímio no hastear do sonho e da liberdade que nos inspira dentro e fora de cena. Vai poder comprová‑lo nos próximos dias 2 de outubro, no Coliseu do Porto, e 4 e 5, no Casino Estoril.

Podemos começar pelos dias passados em Mato Grosso do Sul, sozinho com os seus cães dentro do mato. Era uma criança invulgar?
Eu era uma criança muito calada e reservada, mas tinha uma coisa natural de brincar com os amigos, na zona norte do Rio, era comum irmos para fazendas abandonadas de plantação de fruta. Aos 13 anos, saí para uma vila militar recém-constituída, na base aérea de Campo Grande. Botaram abaixo um pedaço da mata e construíram certo no seu sítio. Até hoje procuro esse encontro com a terra.

Essa procura fora de casa era para compensar a autoridade do seu pai?
Não sei bem responder‑lhe porquê. Eu enfrentava‑o desde criança, e as primeiras memórias são mesmo daí. O meu pai chegava a casa com um pacote de balinhas [rebuçados], eram quatro ou cinco, eu gostava muito, e ele dizia assim: «Só vou dar essas balas para quem me beijar». Já com essa idade eu achava um absurdo ter de beijar alguém para ganhar balas! Não podia ser.

Talvez fosse uma forma de se aproximar…
Não havia isso, na minha casa ninguém se tocava nem abraçava, eram outros costumes, não era hábito as pessoas trocarem gestos de amor, os adultos eram muito secos, não era comum pai ou mãe beijar o filho, era tudo muito hierárquico e distante. A autoridade era algo a respeitar e pronto!

Quando decide sair?
Eu pensava: «Eu não vou ficar de castigo com 17 anos! Não tenho idade para isso!» Houve uma vez que ele foi com um revólver atrás de mim, aí decidi que tinha de viver a minha vida. Alistei‑me na Aeronáutica, como voluntário e, naturalmente, foi um pretexto para sair de casa. «Vou cair fora dessa vida que não me está agradando, quero conhecer o mundo», aquilo lá no interior também não era satisfatório para mim, apesar da natureza maravilhosa, os seres humanos eram muito desagradáveis, havia muito preconceito.

Reparavam em si?
Vou contar‑te uma coisa: lá no Rio de Janeiro, passava o dia inteiro na rua, coisa normal na altura, e andava sempre de short ou, como se diz, de calção, as crianças andavam sem camisa, em tronco nu. Já em Campo Grande, um dia, saí da casa da minha tia e fui para a casa da minha avó, as pessoas me olhavam tão sérias, era moleque, não percebia porquê mas a minha avó veio logo dizer: «Como é que andou na rua assim, hein?» Era grave!

E a sua mãe?
Defendia‑me. Anos mais tarde, percebi que a minha mãe sempre quis que a paz prevalecesse e isso significaria a minha submissão. No dia em que saí, o meu pai disse que nunca me ajudaria, mas eu expliquei que não queria nada dele, eu só queria viver a minha vida, sair dali. Jamais me submeteria. Ele chegou a vir ter comigo, depois, a oferecer‑me dinheiro, eu não quis, eu tinha feito uma opção na minha vida, não depender de ninguém, apenas de mim.

Estávamos a caminho dos anos 1970 quando viveu como um hippie. Era feliz?
A minha felicidade eu penso que encontrava na arte. Nunca aprendi com ninguém. No momento em que me aproximei da pintura, entrei num ateliê, vi o chão cheio de bolinhas e quis criar anéis, colares, adorava inventar, sentia essa habilidade para o artesanato, fabricar à mão, o meu pai achou aquilo pavoroso e disse que me arranjava um emprego.

Pensou em aceitar?
Eu conseguia viver. Mal, é certo, mas conseguia. Nunca fui uma pessoa ambiciosa de querer tudo, de querer dinheiro, não ocupava a minha cabeça isso de ter um automóvel, o meu ideal de trabalho era trabalhar num jardim, e o artesanato era a resposta à minha capacidade artística.

E o teatro surge por aí?
Também. Quando saí da Aeronáutica, fui para Brasília, e foi lá que me aproximei de todas as artes. Cantava, fiz parte de vários coros, sentia‑me próximo de tudo o que fosse o expressar, o exprimir.

E não estamos longe da música.
Pois é. Por esses dias, surgiu um convite para cantar num grupo, eu tinha uma voz aguda, eles queriam fazer um trio, não queriam mulheres, no coro onde eu estava, eram os homens que faziam as vozes agudas. A minha voz era naturalmente aguda, nunca fiz esforço nenhum…

Pensava em ser cantor?
Não. Achava que o ato de cantar era útil ao ator, mas nunca pensei nessa hipótese.

O que o levou a aceitar o convite de João Ricardo para integrar os Secos e Molhados em 1970?
Aí pensei, porque não? Não tinha nome a zelar, não tinha compromissos, eu vou lá, se der certo deu, se não der, eu toco a minha vida. Eu sou livre, sempre fui, sempre senti que não vivia preso a convenções, aos limites da sociedade organizada, desde muito cedo [ver caixa].

No lendário Água do Céu Pássaro, em 1975, usou chifres, penas e peles em palco. O regresso à natureza?
Eu sou totalmente guiado por ela. Tinha lido sobre os feiticeiros africanos que usavam penas de animais, como uma proteção, um para-raios, eu usava os chifres nos ombros como proteção. Estava entrando numa história que podia se tornar pesada para mim, já não havia mais grupo nem banda, ali estava sozinho, e havia uma ditadura militar no Brasil.

Em 1977, atua numa prisão e é considerado um símbolo da liberdade no Brasil. Teve ameaças?
Várias vezes, sim. Recebia muito recado, como dizer, para «maneirar» o meu estilo… Chico Buarque contou uma história quando foi chamado à prisão e ouviu a seguinte frase: «Ney Matogrosso não tem mais jeito, só matando.» Eles jogavam pessoas vivas dos aviões no mar, eles faziam o que quisessem. Fui ficando cada vez mais ousado, mais arrojado, mais transgressor.

No que acreditava?
No meu espírito. E em direitos individuais, sempre. Até hoje acredito nisso.

E em plenos anos 1980 já tem toda a gente a seu lado, gozando dum prestígio inigualável.
A campanha contra mim foi só no começo, sou muito respeitado aqui no Brasil, percebo que as pessoas têm um afeto muito grande, me dão carinho na rua, olha que coisa boa, o que posso querer mais da minha vida?

Houve quem não lhe achasse graça na primeira noite do Rock in Rio, a 11 de Janeiro de 1985, o Ney é o primeiro a subir ao palco de tanga e pena na cabeça. Lembra‑se?
[Risos] Atenção que é uma pena do gavião-real, uma ave sagrada para os índios do Brasil. Eu fui o primeiro artista em palco, era uma noite de heavy metal, na hora em que eu entrei, estava adorando me ver, começaram a atirar ovos, eu chutava de volta na cara dos metaleiros.


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Que show nunca esqueceu?
Entrego‑me sempre com a mesma alma, tenho uma carreira muito estável, faço parte de um olimpo de artistas brasileiros que canta há mais de quarenta anos. Gosto de alguns shows mais do que de outros, mas na verdade todos me refletiram no momento em que os fiz. E o mesmo sinto com os álbuns. O que me dá mais prazer na vida é subir ao palco e cantar para as pessoas.

Tem alguma superstição antes de entrar?
Eu acredito… melhor, eu aceito que tudo é energia, mesmo uma mesa, uma pedra e o pensamento são energia. Minutos antes, fico ali enviando pensamentos para aquelas pessoas, fico exercitando os chacras, emanando cores, fico fazendo essas coisas, sabe?

E o que pede para si? Ainda se surpreende?
Olha, é uma pergunta interessante porque não é todo o dia, você vai mergulhando cada vez mais, você vai perceber até onde consegue entender a palavra. Com o Bandido aconteceu: «Porque é que só entendi isso agora?»

Viveu uma era dourada antes do aparecimento da sida. Sente que protagonizou uma revolução sexual?
É meio paradoxal isso agora. Ao mesmo tempo que não se pode ou não se deve transar sem camisinha, hoje, entre os 15 e os 25, as pessoas estão a ser contaminadas. Elas não viram o que nós vimos.

Fala numa semana fatídica quando foi três vezes ao cemitério.
É verdade, depois da sida e de perder tanta gente, fiquei meio desfragmentado. Antes, a vida era só festa, alegria, viver disponível para todas as pessoas interessantes que aparecessem. Sem barreiras. Eu tinha 30 anos, as hormonas jorravam, não tinha como refrear isso, estava feliz da vida, como era bom o sexo, e, ser, sobretudo, uma pessoa sexualizada.

Ainda considera o sexo como a nossa liberdade primeira?
É a única experiência superior, é no seu ser mais íntimo, a única arrebatadora, no meu entender. Tentam abafar, ocultar, negar, mas não há nada de errado com o sexo. Coloca‑te em contacto com algo superior, ninguém pode domar, como dizer? É isso: «Não tem vergonha nem nunca terá, não tem governo nem nunca terá.»

Como vê a sexualidade no Brasil?
As pessoas são livres, mas por outro lado existe uma homofobia muito clara, e como o Congresso brasileiro está tomado pela Igreja Evangélica, existe uma mentalidade retrógrada dentro da política, que pela Constituição brasileira não poderia, o Brasil é um país laico pela sua Constituição, religião e política não se misturariam.

O que tem de acontecer?
Cada um viver a sua vida, ora! Eu vivo a minha vida, independentemente de qualquer religião, não sou uma pessoa que vai para a rua de estandarte, sabe, não tenho necessidade de bandeira, é a minha vida privada, sempre pensei assim.

E as relações virtuais?
Nunca frequentei nada disso, não tenho interesse, eu acho um caldeirão das bruxas [as redes sociais], as pessoas são radicais, agressivas para todos os lados, não me interessa estar no meio disso, acho que não caminhamos para bom rumo, e não estou interessado no que pensam a meu respeito.

Numa entrevista à jornalista brasileira Marília Gabriela, diz que hoje em dia é carinho o que procura nas relações. E antigamente?
[Risos] Olhe, eu digo. Chegavam perto de mim, me olhavam nos olhos, eu já percebia e eu já ia, podia ser qualquer pessoa, homem, mulher, não importava, o sexo era tão normal como lavar as mãos. E tinha outra coisa, eu era escravo do sexo, escravo, eu dependia do sexo, se eu não praticasse eu não dormia, olha que loucura! Hoje passa pelo carinho, se não tiver, não tem interesse, sabe?

Mas naquela época desvalorizou o amor?
Não, nunca. Mesmo que nunca mais visse aquela pessoa, eu amava‑a naquele momento, nunca tive arrependimento ou nojo. Coisa que oiço dizer de algumas pessoas em relação ao momento em que tiveram prazer. Como é que se pode ter nojo de alguém que esteve assim connosco?

De novo a liberdade?
Isso. Está sendo tudo oferecido ao mesmo tempo. Estou falando de viver a vida com respeito pelo próximo, com amor, porque eu trato as pessoas como gosto de ser tratado, sou carinhoso e respeitoso. Essa a minha máxima.

O que ainda não descobriram sobre si?
Olha, a minha vida particular jamais, porque só a mim diz respeito e a quem esteve comigo, tá? É a única coisa de que eu não abro mão. O Cazuza escapou, porque também era muito conhecido, e na altura da sua morte eu estava muito tocado e falei que amava ele.

Foi o amor da sua vida?
Foi um dos grandes amores da minha vida, sim. Não foi o único.

Quanto tempo estiveram juntos?
Oficialmente três meses, mas durou a vida toda. Não só ele como todos os outros que passaram. Estão dentro de mim. Até hoje.

Como vive agora?
Tenho uma vida normal, faço exercício, tenho a minha horta com as minhas plantas e legumes, como de tudo, não tenho nenhuma restrição alimentar. Leio muito, vou ao teatro, ao cinema, à praia.

Sei que gosta de fotografia.
Muito! Andar pelos lugares e fotografar, para mim é tão prazeroso. Mas não sou um solitário, um eremitão, sou aberto para o mundo e para os amigos e para as pessoas.

Podemos esperar o Ney Matogrosso de sempre nestes três espetáculos em Portugal?
Este espetáculo já passou por aí, mas é um show que está muito maduro. Já estamos no quarto ano, fiquei sabendo que temos agenda até abril, eu continuo com o mesmo prazer de fazer. Tem músicos fantásticos e muita dança.

Muita troca de figurino?
Decido na própria noite o que vou usar.

Um sítio secreto cá?
Há uma lojinha em Lisboa, onde costumo sempre ir. Tem sementes e raízes que trago sempre que vou aí para plantar aqui em casa. É isso [ri].

SECOS E MOLHADOS
Fenómeno da música popular brasileira, em apenas um ano e meio, o trio saltou dos shows em pequenos recintos, superando a marca de um milhão de discos vendidos no Brasil, e deixou saudades até hoje. Ney destacou‑se pela expressão corporal e a pintura, inspirada no teatro japonês kabuki, através da qual resguardava a sua identidade. «As máscaras serviam para me proteger, eu ouvia dizer que artista não tinha vida privada, artista não podia andar na rua, eu tinha 31 anos, como é que ia perder esse direito? Houve uma temporada da banda de um grande sucesso no Rio de Janeiro e, no dia seguinte, eu estava na praia, ouvindo os comentários a meu respeito, ninguém fazia a mínima ideia de que era eu, foi engraçado! Quando fomos para palco, a minha cabeça já estava cheia de minhoca, e aí perguntei: “Vem cá, o que sobra de espaço para mim aqui?” Esse meio metro quadrado é seu, pode fazer o que quiser, me disseram. Foi aí que reproduzi o que já estava experimentando nas três peças musicais durante esse ano. Saí porque eles queriam tocar só o que era nosso e eu queria interpretar outros cantores e compositores, era muito mais velho do que eles, tinha outro tipo de conhecimento e formação musical, pode dizer‑se assim. Nunca reneguei os Secos e Molhados e estou grato ainda hoje, mas havia muito mais informação que eu tinha de passar para a frente. Saí em agosto de 1974 e em março de 1975 estreei o meu show a solo.»

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