OPINIÃO

Música sem barreiras

No grupo Mãos que Cantam, a surdez não é impedimento para se fazer música.

Sentem a música de forma diferente. Foi através dela que descobriram outra maneira de se integrarem na sociedade. Sobem ao palco, dão concertos, levam a sua arte aos outros. E o facto de serem surdos não os impede de se expressarem através da música. O grupo Mãos que Cantam está a preparar um documentário que estreia em setembro.

Se nunca imaginou ser possível ser surdo e cantar, provavelmente nunca assistiu a um concerto do projeto Mãos que Cantam. Nascido há seis anos, o coletivo surgiu da necessidade de promover a integração dos alunos da licenciatura em Língua Gestual Portuguesa do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa (ICS-UCP) nas atividades da instituição.

A ideia partiu do diretor do ICS-UCP, Alexandre Castro Caldas, e da professora Ana Mineiro, coordenadora do curso, que convidaram o maestro Sérgio Peixoto. «A surdez não é um impedimento para a expressão musical», diz o também diretor artístico e maestro do coro da UCP. «E eu desconhecia a realidade da comunidade surda. O meu contacto com surdos tinha sido nulo até então.»

O grupo, composto por surdos, já teve outros elementos, mas os atuais quatro – António Cabral, Cláudia Dias, Patrícia Carmo e Débora Carmo – são os resistentes. E a surdez, apesar de os limitar em algumas coisas, não os impede de tudo o resto. Trabalham, conduzem, são casados, têm filhos. Acima de tudo, acreditam que as principais barreiras são impostas pela sociedade. «Falta abrir mentalidades. A música é para todos. Não interessa se somos surdos, cegos ou ouvintes. Todos temos música dentro de nós», diz Cláudia Dias. Aos 41 anos, garante que sente a música. Mas de forma diferente. «Quando estou numa discoteca, sinto a vibração. O ondular do mar, para mim, é uma música. O movimento dos pássaros a voar é uma melodia.»

O artigo 1º da Declaração dos Direitos Humanos garante que «todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos». E todos eles têm «direito à educação e cultura», defende o ponto 1, do artigo 73º do Capítulo III, da Constituição da República Portuguesa. Mas, ainda assim, continua a haver alguma discriminação perante pessoas com surdez permanente. Todos se queixam disso. Mas, no palco, passam a artistas, em concertos mais ou menos intimistas, onde as mãos ganham destaque. Expressam-se através de gestos. «Também eles se transformam quando estão em palco», diz o maestro. «Dão aos outros a sua arte.» Entretanto, Sérgio Peixoto concluiu o nível I de língua gestual portuguesa na Associação Portuguesa de Surdos, por sentir necessidade de comunicar cada vez melhor com os elementos do seu «coro». Para trás fica a memória da primeira vez que esteve com eles, em que se sentiu perdido por não conseguir comunicar.

Ensaiam uma a duas vezes por semana, consoante a disponibilidade de cada um e a agenda de concertos. Já deram mais de cinquenta espetáculos nestes seis anos e garantem que chegam a «não ter mãos» para tantos convites.

Tem sido um processo evolutivo, um caminho percorrido em conjunto. «Este tipo de trabalho é inexistente em Portugal. Fomos descobrindo ao longo dos tempos que era possível.»

Mas como é isto, exatamente, de música expressada por quem não ouve? A primeira fase, após a escolha de determinado tema, consiste em passar o texto para língua gestual, processo a que se dá o nome de glosa. «A passagem não é literal, é preciso fazer adaptações. Escolhem depois os gestos mais artísticos com os quais mais se identificam, passando para papel o seu significado.» Segue-se o trabalho preparatório de «sentir o ritmo», em que se trabalha a respiração. «Mesmo sem música tentamos perceber se os gestos escolhidos são os mais indicados e se cabem no ritmo.» Só depois é que se introduz a música. É um processo conjunto que pode demorar dias e horas. Atualmente já é mais fácil, pois seguem a metodologia que foram construindo ao longo do tempo.

Com o sucesso e o crescimento do projeto, quiseram ir além da música e avançar com outras ideias na área educativa. É o caso do e-book disponível no site Mãos que Cantam, integrado no projeto Partis (Práticas Inclusivas para a Inclusão Social) da Fundação Calouste Gulbenkian. Construído a partir de algumas experiências realizadas na Escola Secundária da Quinta de Marrocos, em Benfica (Lisboa), este e-book pretende sensibilizar os professores de música para integrarem alunos surdos nas aulas de Educação Musical. «Logo à partida, são alunos excluídos destas aulas», diz Sofia Figueiredo, a intérprete do grupo, um elemento crucial para agilizar a comunicação entre o diretor artístico e os coralistas.

No ano de 2014, o grupo foi premiado com o Prémio BPI Capacitar e, com os trinta mil euros que receberam, gravaram o documentário Como Nasce Uma Música em Língua Gestual, com a participação de Jorge Palma. O músico aceitou o convite para cantar com o grupo a canção Estrela do Mar. As filmagens já terminaram, estão a ser visionadas e a estreia terá lugar em setembro. Foi também nesse ano que o grupo passou a integrar a associação Histórias para Pensar, a entidade promotora do projeto, que tem sido uma alavanca para financiamentos, necessários para avançar com as várias ideias que vão surgindo.

No próximo ano esperam organizar workshops de três dias direcionados a professores de educação musical e a pessoas surdas, contando com a participação de outros músicos portugueses. Procuram novos palcos onde possam trabalhar e dar a conhecer o seu projeto. E quem já conhece? Como reage às atuações do grupo? «Emocionante», diz António Cabral. Os ouvintes ficam na dúvida e perguntam como é possível os surdos fazerem música. Interessam-se, emocionam-se e vêm falar connosco no final». Débora Carmo acrescenta: «Normalmente, as pessoas ficam perplexas, não estavam à espera do que iam ver e dizem-nos que é um trabalho lindo. A música é universal, não tem limites».


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Cláudia Pinto