Michael Nyman: Um poeta ao piano

Michael Nyman

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A entrevista exclusiva ao compositor que não gosta de ser conhecido como o autor da banda sonora de O Piano, mas que provavelmente a tocará na Casa da Música, no Porto, dia 11 de maio.

Há filmes que nos marcam. E há músicas de filmes que ficam na memória, notas que não voltamos a esquecer. O Piano, de Jane Campion, consegue esse efeito desde 1993. Michael Nyman é o inventor da partitura que ainda hoje nos suspende o fôlego quando lembramos o velho piano à beira-mar naquela praia da Nova Zelândia, adorado por uma incrível Holly Hunter.

Na noite desta quinta-feira, 11 de maio, poderá fechar os olhos e regressar à melodia inesquecível, quando Michael Nyman a dedilhar na Casa da Música, no Porto, no primeiro de seis concertos agendados para Portugal [ver One Man Show]. A partir de Inglaterra, onde mora, o compositor confessou à Notícias Magazine, em primeira mão, o agrado que ainda sente ao saber que há miúdos que aprendem piano para poder tocá-la.

Consegue identificar o momento em que soube que a música iria acompanhá-lo para sempre?
Comecei relativamente tarde, para alguém que um dia viria a ser músico profissional. Aos 8 anos, tive a sorte de ter um professor de música, em Chingford, que percebeu que teria algum talento e começou a ensinar-me, quase numa base diária, todas as artes musicais – desde o canto à teoria musical, performance, gravação, harmonia e contraponto na melodia. O meu treino, se preferir, também envolveu visitas a salas de concertos e óperas com atuações ao vivo. Já no liceu, as minhas habilidades musicais estavam tão à frente das outras capacidades académicas que pareceu não haver dúvidas de que seguiria Música, em vez de História ou Literatura Inglesa. Fui para a Academia Real de Música e não para a Universidade de Oxford. Lá tive a liberdade para estudar disciplinas enquanto me formava como pianista e compositor. A música tornou- se um interesse inevitável.

E lembra-se precisamente do dia em que tocou nas teclas pela primeira vez?
2 de junho de 1952. Tinha 8 anos.

Era o miúdo que ficava em casa a tocar enquanto os outros jogavam à bola na rua?
Fui o puto que jogava à bola até então, sim. E aos sábados de manhã, havia sempre programação para os miúdos no cinema local, The Odeon, ao qual deixei de ir quando o meu professor insistiu para que não faltasse às aulas de música. Mas acho que consegui um bom equilíbrio entre vida e trabalho para um miúdo supostamente talentoso, mais do que depois, no resto da minha vida. O amor pelo futebol, durante toda a minha infância, por exemplo, nunca me largou (como espetador, não como participante! [ri])

Vamos aos aplausos, não no estádio, mas no palco. Lembra-se da primeira vez que os ouviu?
Deveria ter uns 10 anos, quando ao piano acompanhei o coro da escola, na Primária de Chase Lane. O David Beckam iria para lá muitos anos mais tarde! [ri]

Assume que o palco não é lugar para as suas fraquezas e receios quando a cortina sobe.
Diz que eu sou um pianista, mas a verdade é que sou um «pianista» que toca a sua própria música. Como compositor ou intérprete, sou totalmente livre, não só para escolher o que toco mas como toco, o que faz toda a diferença. E isso é influenciado por muitos fatores: o meu estado de espírito, o meu impulso, a curiosidade, a acústica do ambiente, a alimentação, as preocupações; mais raramente, o espírito do auditório, uma vez que toco durante cerca de 75 minutos sem quaisquer pausas entre as peças para os aplausos. A minha atuação acaba por se tornar numa «composição» própria que me permite controlar o próprio ambiente musical, e, presumo eu, a reação do público.

A solo, portanto. E quando está com a sua banda?
É logo diferente. Tocamos em sets de três ou quatro peças com palmas pelo meio.

O que guarda para si depois de cada atuação?
Às vezes, levo para casa nada mais do que uma memória de atuar perante um grande número de pessoas, geralmente num auditório escuro, com quem tenho um contacto o mais íntimo possível, isto é, toquei a música que eles parecem adorar. E, o pequeno contacto com pessoas do público (à parte de lhes vender CD a seguir ao concerto). É essencial ter contacto com os fãs, que de outra forma seriam anónimos.

Passa a vida em aeroportos e hotéis. Como gere os seus momentos de tranquilidade?

Continuando a escrever música nesses aeroportos, nesses aviões e nesses hotéis, e até táxis, quando não estou a escrever em minha casa. Interpretar depois a música, e toda a preparação que isso acarreta, parece que fica em segundo plano.

Sobre a sua banda – Michael Nyman Band –, fundada em 1976, diz que funciona como um trabalho de laboratório para a sua própria experimentação e invenção no seu trabalho como compositor. Pode explicar melhor?

Depois de ter saído da Academia, em 1964, interrompi o meu trabalho como compositor para me tornar um musicólogo e crítico de música até 1976, quando criei «The Campiello Band». Tratou-se de uma «composição» de palco para interpretar a minha banda sonora para a produção de abertura do Teatro Nacional, em Londres, Il Campiello, de Goldini. Quando retiro os músicos do palco, tenho de me reinventar como compositor. Tenho o som disponível mas sem essa «composição» para a tocar! E esse grupo que seria mais tarde a Michael Nyman Band não só me permitiu a experimentação de ideias musicais muito pessoais mas também um estilo de interpretação único para mim, para essa música e para esses músicos, alguns deles a tocar comigo desde 1981. E agora que estou a meio do processo de
escrita de 17 sinfonias, apercebo-me de que o meu estilo de orquestração é muito mais uma forma de espelhar o estilo de Michael Nyman Band – com os saxofones e baixos – num ambiente orquestral, em que, naturalmente, esses instrumentos não existem!

Em 1974, explora a influência do pioneiro John Cage, um dos músicos mais importantes do século XX para os compositores clássicos que declarava a música como um despertar para a vida. Também sente o mesmo?
Poderia passar muito tempo a falar sobre a influência e não influência de Cage no meu pensamento enquanto compositor, mas é demasiado complexo para discuti-lo aqui. E dado que a música, no meu ponto de vista, é totalmente separada da vida – exceto quando há o privilégio de fazer parte dela –, encontro esse despertar de que Cage fala também na fotografia e nos filmes, em relação aos quais faço uma abordagem em termos de multiplicidade e consciência acidental de uma maneira muito «cageniana».

Em Sublime, livro de fotografia da sua autoria, no qual une a música à sua paixão pela fotografia, diz que tal como na composição, quando encontra um tema na fotografia, persegue-o até à exaustão, confessando que se sente uma criança numa loja de brinquedos. Aos 72 anos, ainda é o miúdo que quer experimentar tudo?
Há imensas coisas que não me despertam curiosidade em experimentar, já é arriscado para começar com esta idade! O conteúdo musical de Sublime é mais decisão do editor do que minha enquanto fotógrafo. É bastante óbvio que o Michael Nyman fotógrafo é o Michael Nyman compositor.

E é como compositor de bandas sonoras que é mais conhecido.
Sim, e isso chateia-me muito! Já escrevi óperas, quartetos de cordas, sinfonias etc., mas a verdade é que o meio de transmissão de música para filmes é mais universal para o público em geral.

Como aparece o realizador Peter Greenaway na sua vida?
Foi-me apresentado pela minha irmã em 1962, na Academia Real de Música.

Das dezenas de bandas sonoras que incluiu nos seus filmes, quais lhe são mais queridas?
A banda sonora de O Contrato, porque estabeleceu a minha música para o público pela primeira vez e permitiu-me usá-la para servir a experiência global de um filme de uma forma tão surpreendente. Em segundo, escolheria Memorial de O cozinheiro, o ladrão, a sua mulher e o amante dela, porque foi uma peça já escrita como tributo às vítimas do desastre do Estádio de Heysel em 1985, e quando Greenaway a pediu emprestada, não tive de ter qualquer contacto direto com o filme. Memorial acabou por se tornar peça central da minha obra Sinfonia nº 11: Tributo de Hillsborough, dedicada aos 96 fãs do Liverpool que morreram num jogo de futebol em abril de 1989 – sobre os quais o relatório judicial das suas mortes será feito daqui a duas horas no momento em que escrevo este texto.

Inevitavelmente vou ter de falar de O Piano. A banda sonora do filme vendeu mais de três milhões de cópias em 1993. Compô-la num hotel, certo?
Estava eu e a Jane Campion fechados num quarto de hotel em Sydney, verdade. Foi lá que compus os primeiros 12 minutos de música que acompanham os primeiros 12 minutos do filme. Esta música foi depois omitida do filme pela realizadora, contudo, pode ser encontrada no álbum da banda sonora de O Piano. São situações típicas da produção de música para filmes!

Como explica o seu sucesso?
Não faço mesmo ideia! Terá de perguntar a si mesma ou a outros fãs!

Tem noção de quantas vezes já a tocou?
Não tenho noção do número – foram já uns milhares de vezes, talvez. Mas mais importante é o número de vezes que é tocada por pianistas amadores – que têm lições de piano pela primeira vez ou até compram pianos para aprender a música do filme. Passados mais de 20 anos, é motivo de deslumbramento e o que me traz mais prazer.

E à parte da emoção que vai ser recordar o tema ao vivo, que surpresas traz na mala no seu regresso a Portugal?
Talvez vão ouvir música que nunca levei para palco antes, como solista – vão ter de esperar para ver! Certamente os dois concertos no Porto vão ser radicalmente diferentes – e não só porque um vai incluir os meus filmes e o outro não!

Vai conseguir ter tempo para filmar ou fotografar por cá?
Se uma fotografia ou um filme se me apresentarem, então, à moda de Cage, vou filmar ou fotografar, pois claro!

Michael Nyman