Médicos depois dos 80

Mário Reis

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Histórias de quem atingidos os 70 anos, até aqui idade limite no setor público, continuou a trabalhar, no privado. E, depois dos 80, ainda dá consultas e opera.

O governo anunciou que quer os médicos reformados de regresso ao Serviço Nacional de Saúde e promete-lhes salário completo, além da reforma. Mas há muitos profissionais antigos que, atingidos os 70, até aqui idade limite no setor público, continuaram a trabalhar, no privado. E há até clínicos com mais de 80 anos que dão consultas e operam doentes. Adaptaram-se às novas tecnologias e revoluções que a medicina foi sofrendo ao longo dos anos e garantem que a experiência e o saber acumulado compensam os transtornos da idade.

Estava calmamente em casa quando, às 22 horas de uma noite fria do mês passado, foi chamado de urgência ao Hospital da Ordem da Lapa, no Porto, onde trabalha. Havia um problema com uma sonda a colocar num doente que ia ser operado no dia seguinte e era preciso o médico resolver. O facto de já ter quase 82 anos não o impediu de sair a correr, àquela hora, rumo à unidade de saúde. «Sou médico, opero e tenho responsabilidades», explica Mário Reis, um dos clínicos mais velhos do país ainda a exercer. «Devo ser mesmo o urologista mais antigo ainda em funções», calcula. Mas pela sua rotina semanal ninguém adivinharia. Todas as semanas atende, em média, mais de 20 doentes e opera quatro. Quando está no bloco é ele quem lidera a equipa. «As mãos não tremem e tenho a cabeça boa», diz.

Na Ordem dos Médicos estão inscritos 2007 clínicos com mais de 80 anos, mas muitos já não exercem. Há poucos casos como o de Mário Reis e, do seu curso de Medicina, só uma colega está ativa nos hospitais. Teresa Osório, ginecologista, de 83 anos, dá consultas no Hospital de Santa Maria, no Porto, orienta alguns doentes com cancro e às vezes faz intervenções cirúrgicas. «Só não faço partos, pois implica uma disponibilidade de horas, incluindo à noite, que já não tenho», diz.

Mário Reis e Teresa Osório tiveram de deixar os hospitais públicos onde trabalhavam quando fizeram 70 anos, como obriga a lei. «Fiquei espantado quando recebi a carta que me mandou embora. Não faz sentido ficar em casa a ver televisão quando gosto do que faço e estou em condições», lamenta o urologista, sublinhando que a medida que o governo anunciou este ano de recrutar médicos reformados para o Serviço Nacional de Saúde, prometendo pagar-lhes um salário completo além da reforma, é tardia: «Andaram a desperdiçar médicos.»

 

Alberto Matos Ferreira

Alberto Matos Ferreira

O seu colega de especialidade Alberto Matos-Ferreira, de Lisboa, que completou 80 anos em outubro, também está no privado e nunca parou de exercer desde que se formou, em 1959. Como ficou em primeiro lugar no concurso para internos, conseguiu, em 1960, um lugar nos Hospitais Civis de Lisboa. E hoje atende doentes no seu consultório e faz cirurgias no British Hospital. Em algumas operações conta com a colaboração de uma colega do curso de Medicina, a anestesista Maria Cristina Câmara, de 85 anos. «Ainda recentemente operei um doente com ela», conta Matos-Ferreira. Os dois partilham ainda o facto de terem sido médicos de Salazar. Ela foi a anestesista escolhida para participar na cirurgia ao cérebro do antigo presidente do Conselho, em 6 de Setembro de 1968, na sequência da célebre queda da cadeira. Ele foi um dos especialistas que, nos dias em que Salazar esteve internado no Hospital da Cruz Vermelha, foi chamado para o tratar de um problema urológico.

Matos-Ferreira fala das vantagens dos médicos mais velhos. «A experiência» que, no seu caso, lhe permite muitas vezes, «através das conversas» com os doentes, perceber o que se passa. «Hoje em dia há a mania de passar logo muitos exames, e exames caríssimos. E, às vezes, basta falar com o doente e ouvir a história clínica dele». É dos poucos que está a trabalhar, entre um grupo de médicos da sua idade que costumam juntar-se para almoçar. Entre as exceções está também o ortopedista António Meyrelles Souto, de 81 anos. Apesar de fazer poucas consultas ainda não arrumou de vez na gaveta a sua cédula profissional com o número 9313. «Vou ao consultório para atender pessoas que estão habituadas a mim», conta o médico, que se licenciou em 1958.

 

António Gentil Martins

António Gentil Martins

Nessa data, já António Gentil Martins estava formado há cinco anos. E hoje, aos 85, e 15 depois de se reformar, o cirurgião pediátrico e plástico ainda dá consultas e opera no setor privado. Quando completou 70 anos teve de sair do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, onde esteve 40 anos, mas pôde continuar ligado ao Instituto Português de Oncologia (IPO), onde trabalha agora todas as sextas-feiras. Dá consultas a crianças num dos gabinetes de paredes pintadas de azul claro. «Como fui eu que criei o serviço de pediatria do IPO, o primeiro no mundo, fui autorizado a ficar mesmo depois de me reformar», explica, acrescentando que esta possibilidade foi dada pelo Ministério da Saúde a alguns profissionais. «Aqui no instituto há outros na mesma situação, mas todos mais novos do que eu», diz, garantindo ser «o médico mais velho do IPO».

Apesar disso, ninguém dá pela sua idade. Movimenta-se agilmente, a sua conversa é fluida e nem sequer usa óculos: «Fui operado às cataratas há cerca de quatro anos e agora, se existir uma boa iluminação, até consigo ler a lista telefónica». Admitindo que as pessoas podem «ficar assustadas» se souberem que um médico tem 85 anos, garante que se virem que está em boas condições ficam sossegadas e até agradadas. Muitos dos pacientes que lhe aparecem vão pedir-lhe uma segunda opinião.

Quando tem de operar algum doente recorre a um dos hospitais privados, como a Cruz Vermelha e a Clínica de Todos os Santos. «Só a CUF é que proíbe médicos com mais de 75 anos de operar», revela. Gosta de fazer o diagnóstico conversando e tocando no doente com as mãos. «Não sou contra as ecografias nem as novas tecnologias, mas primeiro tem de se ouvir e observar a pessoa», diz, admitindo que houve um importante progresso na medicina.

Aliás, prova desta enorme mudança, nota o urologista Mário Reis, é o facto de as cirurgias que se faziam na altura em que iniciou a carreira já não serem usadas É o caso da sua primeira intervenção: uma «operação à bexiga», a que tecnicamente se chama uma cistolitotomia, para tirar as «pedras» que o paciente tinha. «Atualmente já quase não se faz essa operação, pois através da uretra, com laser ou ultrassons, retira-se os cálculos (pedras)», explica o urologista, recordando que esta cirurgia foi feita em 1965, no Hospital de São João para ser avaliado pelos peritos da Ordem dos Médicos. Ao passar no exame, tornou-se especialista e começou a ganhar três mil escudos. Antes, tinha trabalhado três anos sem receber nada. Na época em que Mário Reis se licenciou no Porto, em 1961, só em Lisboa, nos Hospitais Civis, existiam estágios remunerados para os médicos. «Entre 1961 e 1964 trabalhei como voluntário sem ganhar». Foi um dos dois primeiros estagiários do serviço de urologia do Hospital São João, inaugurado em Junho de 1959. E quando, forçado pela idade, deixou os corredores do hospital em 2004 era diretor desse mesmo serviço.

Pelo meio, e depois de em 1969 ter sido feito, em Coimbra, o primeiro transplante renal em Portugal, foi ele quem inaugurou a técnica no Norte do país. Para isso, preparou-se intensamente. «Estive em Barcelona a tirar um curso em Cirurgia Vascular e treinei com cães.» Ao todo, no laboratório experimental da Faculdade, fez transplantes em mais de 50 animais. A evolução na medicina acabou por tornar o seu dia-a-dia muito diferente. «Fazem-se muito menos operações, mas as que se fazem são mais complicadas», explica. Apesar das mudanças, Mário Reis sente-se adaptado. Faz operações de extração total da próstata e trabalha em quatro unidades de saúde. E, apesar de existir uma lei que permite que alguns médicos passem receitas em papel, gosta de computadores e utiliza sempre as prescrições eletrónicas.

 

Teresa Osório

Teresa Osório

Já a ginecologista obstetra Teresa Osório continua a preferir as receitas em papel, que a fazem recordar os tempos em que começou a sua dedicação à medicina. «Nessa altura não havia listas de espera e nós só íamos para casa quando já não havia doentes para ver», conta, acrescentando: «E também não recebíamos horas extra». Ainda se lembra do primeiro parto. «Foi muito emotivo», confessa, ao recordar-se do bebé rapaz que ajudou a nascer naquele ano de 1967 no Hospital de São João. Um parto bem mais intuitivo e diferente do último que fez, em 2013, em que a grávida levou epidural e todos já sabiam que ia nascer um bebé do sexo masculino. «Houve uma grande evolução na ginecologia e no diagnóstico pré-natal. Hoje, antes de o bebé nascer sabemos tudo sobre ele», diz Teresa Osório, que só em 1980, quando esteve no Hospital Universitário em Bruxelas, com uma bolsa da Organização Mundial da Saúde, viu pela primeira vez uma ecografia a um feto: «Fiquei espantada ao ver os bebés mexer.»
Depois de criar, em 1971, o serviço de ginecologia do Hospital de Lamego, começou a dedicar-se mais à área oncológica, tendo-se tornado a primeira mulher chefe de serviço do IPO do Porto. Quando se reformou estava ali há 30 anos. «Gosto muito do que faço e os doentes fazem-me muita falta. Por isso não fazia sentido parar», explica a médica, que foi uma das personalidades condecoradas no 10 de Junho por Cavaco Silva em 2015.

Também Gentil Martins tem uma carreira cheia de louvores e distinções. No ano passado recebeu o prémio carreira Miller Guerra, atribuído pela Ordem dos Médicos, e em 2012 recebeu a grã-cruz da Ordem do Infante D. Henrique.

Decidiu ser médico há 74 anos, quando era criança e viu na rua um homem no chão, cheio de sangue, depois de ser atropelado. Depois de se licenciar, em 1953, conseguiu um dos 30 lugares para entrar nos Hospitais Civis de Lisboa como interno, disputados por 300 candidatos. «Fiquei em 19º. Não foi nada mau». Passou a ganhar 300 escudos por mês. Seguiu para Inglaterra, onde esteve três anos e meio e se especializou em cirurgia pediátrica. «Lá trabalhava como um escravo. Estava de escala dia sim dia não e em cada três fins-de-semana trabalhava um.» Num só dia chegou a fazer sete operações à apendicite. Quando voltou em 1960 foi para o Hospital Dona Estefânia e um ano depois teve de passar por cinco duras provas para ser assistente hospitalar (o atual chefe de serviço). «Uma era a prova do cadáver», que deixou de ser realizada. Por achar que os cadáveres fazem falta para o treino dos médicos, há cerca de um ano tomou uma decisão: «Doei o meu corpo à Faculdade de Ciências Médicas».

Passou entretanto a dividir a sua carreira entre o Hospital Dona Estefânia e o Instituto do Cancro, dirigido pelo seu avô materno. Em 1978, um ano depois de se tornar presidente da Ordem dos Médicos, fez uma das suas operações mais emblemáticas: separou duas siamesas. No final de 2015, encontrou-as por acaso na rua. «Têm 37 anos e estão ótimas», relata. Ao longo da sua carreira fez sete operações para separar siameses, a última a dois bebés de Moçambique. «Hoje já não há siameses porque quando aparecem nas ecografias aborta-se», diz, assumindo discordar desta opção.

Já a maior operação que fez demorou 12 horas. «Foi a um rapaz de 11 anos que tinha vários tumores na cara». Conseguiu remover toda a pele daquela zona e repô-la com enxertos do corpo da criança. Gentil Martins ainda não decidiu quando vai parar. «Pedi aos meus assistentes para me dizerem quando acharem que devo parar para não correr o risco de não fazer as coisas como devo.»

Alberto Matos-Ferreira também não sabe quando irá deixar de vez a medicina, para dedicar o seu tempo aos livros, aos gadgets e à música de que tanto gosta. Mas é difícil deixar para trás uma carreira de sucesso. «O meu consultório era brutal. Chegava a atender 30 doentes por dia».

Matos-Ferreira era dos mais concorridos médicos urologistas do país. Além de Salazar, também José Saramago, Miguel Torga, David Mourão-Ferreira e Azeredo Perdigão confiaram nas mãos deste médico, que os operou no Hospital São Luís. Ficou amigo de Miguel Torga, de quem tem, aliás, todos os livros autografados. Muitas das operações de Matos-Ferreira estão registadas em fotografias, que guarda todas no seu computador ao lado do registo digitalizado do filme a preto e branco com a récita em que participou, com 23 anos, para marcar o fim do seu curso. Já lá vão 57 anos.

MAIS DE 4500 REFORMADOS
Em Portugal há 4785 profissionais com mais de 70 anos, e por isso reformados do Serviço Nacional de Saúde (SNS), segundo dados da Ordem dos Médicos a que a Notícias Magazine teve acesso. Mas apesar de ser possível por lei, desde 2010, regressarem ao setor público sob certas condições, apenas 335 clínicos o aceitaram fazer. Neste momento, e uma vez que alguns entretanto desistiram, apenas 209 profissionais aposentados estão a trabalhar no SNS. O insucesso da medida deve-se, em grande parte, ao facto de os médicos que optam por regressar ao ativo terem de cortar um terço do valor da reforma ou do salário. O Ministério da Saúde quer agora alterar a situação, permitindo que os cíclicos recebam os dois vencimentos por inteiro. Ao todo, na Ordem estão inscritos 49 152 médicos.