OPINIÃO

Marcelo Rebelo de Sousa

Uma campanha de afetos
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EXCLUSIVO. O fotógrafo Rui Ochoa seguiu de perto Marcelo Rebelo de Sousa. Esteve com ele três meses na estrada e o resultado é um livro, Afectos, lançado nesta semana, com prefácio do presidente eleito. É um diário de bordo de uma campanha low cost, sem cartazes , com um candidato próximo, atento a todos e com quem todos queriam fazer selfies, também chamadas «marselfies». Pré-publicação com fotografias inéditas e um texto do fotógrafo com o seu olhar sobre o que fará de Marcelo um presidente diferente.

Dia 12 de dezembro foi um sábado soalheiro, mas frio. Era um dia especial na vida do candidato Marcelo Rebelo de Sousa (M.R.S.), o dia do seu aniversário. Na véspera, havia‑nos sido dito – à equipa que o acompanhava, da qual eu fazia parte, como fotógrafo – que não havia nada de especial na agenda. Estava marcada uma visita a um centro de dia da Misericórdia no Cadaval, terra da zona do oeste, bem perto de Lisboa.

A entrada da comitiva no centro de dia foi encarada com surpresa por grande parte dos utentes, a maioria mulheres idosas. E, no meio da visita, eis que surge um bolo, azul, com duas velas no topo, o cenário perfeito para ser entoado o Parabéns a Você… a M.R.S. que, surpreendido, não consegue disfarçar uma certa emoção. Ato contínuo, o próprio assume a tarefa de cortar o doce símbolo, distribuindo‑o pelas várias dezenas de pessoas presentes.

Este momento de emoção foi o primeiro sinal do que seria a tónica forte desta campanha e desta candidatura: os afetos. No seu dia de aniversário, num desconhecido centro de dia para idosos, pude perceber que M.R.S. iria pautar a sua ação pelo contacto próximo, ouvindo tudo e todos, atentamente, sem pressas, como se os problemas de todos os que se lhe acercavam fossem os dele. Seria uma campanha, portanto, em que o afeto (um forte traço da sua identidade pessoal) acabaria por ser uma constante – a trave mestra do seu objetivo final: ser eleito presidente da República.

Essa seria mais uma das idiossincrasias desta campanha que, como o candidato não se cansava de dizer, seria feita com poucas pessoas. Uma campanha, até pelos meios de que dispunha, low cost. Ninguém acreditava. Diziam os «entendidos» em campanhas que não era possível fazer nada sem um mínimo de cinquenta ou sessenta pessoas e uma boa dezena de automóveis. Uma fórmula muito batida em muitas outras campanhas, baseadas numas dezenas de megaalmoços (e jantares igualmente mega) a que foi dado o nome da «carne assada» e muitos cartazes, e papéis, muitos papéis, a esvoaçar pelo país, dizendo aquilo que todos já sabiam. E bandeirinhas, mais ou menos made in China.

Mas esta seria uma campanha sui generis, que tanta inquietação (e algum descrer) criou, mesmo àqueles que acreditavam no candidato M.R.S. Voltando um pouco atrás, muito tempo antes do encontro do Cadaval, mais exatamente no mês de outubro, fui convidado para ir ao Porto, para fotografar um comício de campanha de Marcelo Rebelo de Sousa.

Por ali, sem eu saber ainda quem eram, circulavam os meus três futuros companheiros de equipa. O Duarte Vaz Pinto, o Ricardo Coutinho e a Mariana Correia, todos jovens – muito jovens e desconhecidos – que iriam conviver comigo durante mais de três meses seguindo o candidato. Durante esses três meses, convivemos num mesmo veículo, mais ou menos apertados, mais ou menos stressados, percorrendo quilómetros de uma ponta à outra do país.

À frente, seguia sempre M.R.S. Normalmente sentado no banco do lado direito do táxi – é mesmo!, um táxi preto, daqueles sem taxímetro, mas com licença – guiado por um entusiasmado Sr. Vítor – o dono do táxi, já se vê, e agora convertido em motorista oficial da campanha.

Houve dias em que o táxi (e o Sr. Vítor) eram trocados por um pequeno Mercedes, propriedade do candidato e guiado pelo próprio. Às vezes aparecia a sua Sofia, como foi o caso do dia 31 de dezembro, no Algarve. Fomos visitar a região com o objetivo de ver e ouvir os comerciantes de Albufeira que tinham sido vítimas das cheias de dezembro. Encontramo‑nos na praia, a meio da tarde do último dia do ano de 2015. Não éramos os seis habituais mas apenas quatro, não contando com o presidente da câmara. Os muitos que por ali estavam a gozar um quente sol algarvio transformaram o encontro num pequeno comício, obrigando M.R.S. a ser modelo fotográfico de dezenas de selfies, uma nova fórmula de armazenar afetos. A visita aos comerciantes esteve em perigo, dada a grande quantidade de pessoas que quiseram comprovar e mostrar aos amigos que estavam naquele lugar com o celebre professor dos comentários de domingo da TVI.

À noite, um inesperado (pelo menos para nós) concerto de Anselmo Ralph, obrigou‑nos a permanecer pelas imediações. Era noite do réveillon e às 23 horas já 50 mil pessoas se estendiam pelo vasto areal da praia de Albufeira, esfuziantes de alegria. Foi com toda a certeza o maior ajuntamento de pessoas que o candidato presidencial pôde presenciar, do alto da zona VIP da festa, onde se encontrava com mais umas 50 pessoas, igualmente VIP, convidadas pelo presidente do município.

A noite de ano novo acabou um pouco depois da uma da madrugada, com o fogo-de-artifício e o fim do concerto. Havia que voltar ao hotel, a pé, pois as ruas da zona baixa de Albufeira, encontravam‑se pejadas de pessoas e estava fora de questão conseguir sair dali de carro.

M.R.S. e a filha tentaram disfarcar‑se o melhor que podiam para poderem passar incógnitos no meio de tal multidão. O candidato colocou o seu boné castanho na cabeça e disse‑me: «Vamos, Rui, e seja o que Deus quiser.»

Eu, para que a dissimulação fosse mais credível, escondi uma das minhas máquinas debaixo do casaco e avançámos aos ziguezagues pelo meio da mole imensa e ruidosa, seguidos de perto por Sofia e pelo Ricardo, o nosso homem do vídeo. Mal andámos cem metros e o professor foi descoberto pelos gritos de uma entusiasmada foliona: «Olha o Marcelo! Ó professor, dê cá um beijinho, vamos fazer uma selfie?» A voz da jovem mulher ecoou forte nos ouvidos das restantes pessoas que deambulavam alegremente pelas ruas. Num ápice estávamos cercados amistosamente por dezenas que gritavam: «Marcelo, Marcelo, Marcelo», a que juntavam um som vitorioso: «Vamos ganhar…» E então resolvi participar e desatei a fazer fotografias aos selfistas amistosos.

Naquele instante percebi, se é que tinha algumas dúvidas, que M.R.S. iria ganhar. Só podia ganhar, tal era a adesão espontânea das pessoas àquele homem. Ali, numa rua, na madrugada de Albufeira, desprotegido de seguranças ou amigos, Marcelo conseguiu superar uma dura prova.

Dia 9 de janeiro, quando acordámos num hotel da periferia de Santarém, ao pequeno-almoço, bem cedo, apercebemo‑nos de que algo havia mudado. A presença ruidosa de um vasto grupo de jornalistas fazia agora sentir‑se. A campanha eleitoral começava nesse fim de semana. Para nós os quatro tudo era igual, mas tinha‑se juntado a nós o diretor de campanha, o Pedro Duarte e o seu adjunto Marco Almeida, que exercia também as funções de motorista, secretário e assessor.

Cerca das 10h00 saímos do hotel e passámos a ser três automóveis, seguidos de uns cerca de dez ou 15 veículos que transportavam os jornalistas. Agora sim, éramos uma verdadeira caravana eleitoral. Confesso que me entusiasmei por alguns momentos e disse aos meus três parceiros: «Estão a ver, isto é que é uma campanha, vão ver…»

Caía uma chuva miudinha enervante naquele primeiro dia da campanha dita oficial, por força da lei. A viagem até ao centro da cidade foi curta. Saímos do carro e caminhámos a pé, por uma rua deserta e fria. Ao dobrar de uma esquina, para entrarmos mais à frente num café, o nosso grupo foi dar de caras com umas pessoas que estavam à porta de uma das muitas sedes de campanha do outro candidato, Sampaio da Nóvoa. Todos ostentavam camisolas com o rosto do candidato e tinham nas mãos propaganda que iriam distribuir daí a alguns instantes. Eram uns dez e a surpresa foi total e contagiante: «Olha o professor Marcelo, bom dia, professor», disseram todos com a maior simpatia, e M.R.S. respondeu igualmente simpático e desarmando algum embaraço. «Bom dia meus amigos, aqui é que é a sede do vosso candidato?» Responderam que sim – como era bem visível pelas grandes letras postadas na fachada do edifício – e convidaram‑no a visitar o edifício. O que M.R.S. fez, para surpresa de todos. Chegou mesmo a comer uns bolinhos que havia numa mesa do primeiro andar. No final, todos se desejaram boa sorte mutuamente.

Os jornalistas mais velhos – que eram poucos, nesta campanha – olhavam incrédulos para o que havia ocorrido. Isto não podia acontecer, nunca aconteceu, diziam. Mas esta era definitivamente uma campanha diferente, como à frente sempre iria continuar a constatar-se.

Este dia, que acabaria em Vila Real, foi de facto empolgante dada a intensa agenda que nos levou a Coimbra, onde teve lugar um pequeno comício. Antes havíamos visitado, sob intensa chuva, duas instituições de solidariedade social. Tudo muito calmo, privilegiando o contacto direto com as pessoas, sem pressas. Cumprindo os horários, mas sem correrias.

Após o comício de Coimbra, a que o candidato preferia chamar contacto com as populações, passámos pela Mealhada, onde pudemos usufruir do primeiro de apenas uma meia dúzia de jantares à mesa ao longo dos quase três meses de campanha. Aqui o leitor pensa: finalmente um megajantar. Pois, não éramos mais de dez à mesa – a contar com três jornalistas que nos seguiam mais de perto. E no domingo à noite já estávamos de regresso a Lisboa: o candidato/ professor tinha exames de doutoramento na sua faculdade.

Campanha, campanha a sério, só foi retomada no fim de semana. No intervalo houve uma escapadela ao Barreiro, uma ida aos Bombeiros de Sintra e à Lourinhã, para pequenos contactos ou para visitar instituições. O último dia oficial da campanha foi no Porto, Viana do Castelo e Braga, acabando cerca das 23h00 onde tudo havia começado: em Celorico da Beira. Foi um dia de emoções, iniciado bem cedo no mercado de Viana do Castelo, visitado ao pormenor. M.R.S. falando com todos os vendedores, comprando cenouras que ia roendo à medida que ia sendo interpelado com as mais diversas perguntas às quais respondia até à exaustão.

Em Barcelos, segundo o programa, havia um almoço frugal. Animamo‑nos, pois haveria um dos – raros – almoços. Quando chegámos, percebemos que não era mais do que umas quantas sandes de queijo e fiambre espalhadas pelo balcão de uma pastelaria. Havia também umas empadas, cafés e sumos.
Em Guimarães tivemos um aperitivo para o comício de Braga (o único com esse nome). A população veio à rua e criou algum frisson entre os jornalistas, tal foi a quantidade de pessoas que envolveram o candidato para o saudar e tirar uma «Marselfie» ‑ termo adaptado da coqueluche do momento, a selfie, que circulava há alguns dias no interior da campanha.

A campanha dos afetos chegava ao fim, com a conclusão da caminhada na terra natal dos avós de M.R.S. Em outubro, o candidato havia partido dali para esta empreitada, com um discurso proferido na biblioteca com o seu nome. Agora, a apenas duas horas do fim da campanha, o povo de Celorico vinha todo para a rua para ouvir as suas últimas palavras de apelo ao voto.

O que havia a fazer estava feito. Havia apenas que votar, no domingo à hora do almoço, e que esperar até à noite. Aquela que se revelou a grande noite de Marcelo Rebelo de Sousa. No local onde viveu toda a sua vida como professor: a Faculdade de Direito. Saiu dali presidente da República. Sem surpresa para quem o seguira de perto nestes três meses.

«Enganaram-se os muitos que pensaram que abertura de espírito e capacidade de diálogo eram iguais a indefinição de princípios ou flutuação de condutas. Mais do que o acerto da linha traçada, foi a persistente firmeza na sua concretização que mais importou. Faltava ver se as portuguesas e os portugueses compreendiam o que lhes propunha. E se me queriam para seu presidente da República. Queriam. Eis-me, pois, ao seu serviço. Ao serviço de portugal.»
Marcelo Rebelo de Sousa no prefácio de Afectos

«O sobreviver independente à pré-campanha. (…) a campanha de rua com as pessoas, sem cartazes, sem anúncios e propagandas. O poupar aos portugueses mais de um milhão e quinhentos mil euros a que teria direito pelos votos obtidos, gastando cerca de 145 mil. O acabar rodeado de gente excecional, (…) muita dela neófita em campanhas.»
Marcelo Rebelo de Sousa no prefácio de Afectos

Era preciso «perceber que uma parte importante da população se encontrava vulnerável, não só do ponto de vista económico e social, mas também do ponto de vista afetivo. Em suma transmitir que a relação política também é uma relação de afetos que completa todos e cada um.»
Marcelo Rebelo de Sousa no prefácio de Afectos

«Claro que se sabia da minha notoriedade e credibilidade como analista político, com uma vida na imprensa, na rádio e na televisão. Mas isso não pesou demasiado na definição estratégica. Quem garantia que a empatia televisiva se transferiria para a candidatura política?»
Marcelo Rebelo de Sousa no prefácio de Afectos

 

Rui Ochoa, jornalista e fotógrafo. Foi até 2008 diretor de fotografia do Expresso. É autor de vários livros e foi fotógrafo oficial de Sá Carneiro e Cavaco Silva. Dá aulas de fotojornalismo.
Fotografia de Rui Ochoa