OPINIÃO

Manuel João Vieira

«Terei sido inconveniente e arrogante, mas neste momento sou um gajo completamente normal»

A uma semana do arranque da campanha para as eleições presidenciais, uma conversa com o candidato Vieira – que pela terceira vez não conseguiu reunir as assinaturas obrigatórias para ir a votos – sobre música, pintura, política. E sobre si próprio. Uma rara entrevista séria com o músico pintor e performer Manuel João Vieira, o homem por detrás das personagens.

Enquanto bebe um chá verde (aprendeu recentemente que a água não mata) vai contando: que gostou muito de fazer tudo o que fez até ao presente e que se sente contente com o resultado. Mas também que se esteve nas tintas para a carreira nas artes e que hoje, aos 53 anos, o lamenta profundamente. Que foi indolente e intolerante, que deu tiros nos pés, que pagou todos os preços. Mas é a vida, diz, e pensa nela de vez em quando. Como agora. O encontro foi no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa, onde vive. Manuel João Vieira está em modo Manuel João Vieira. Dentro do possível, claro.

_Nascido em Lisboa, vive em Campo de Ourique há mais de cinquenta anos. Quais são as memórias mais antigas que tem do bairro?
As imagens da minha casa, tinha eu talvez uns 3 anos. Lembro-me de ir com a minha avó à igreja, de ir comprar uns maços de cigarros para a minha avó com o meu primo, lembro-me de jogar ao berlinde. Do jardim-infantil, lembro-me das festas, das batas e dos bibes.

_Fez aqui a escola primária?
No Liceu Francês, na secção francesa. Mas só porque tinha uma tia – a minha tia Manelinha – que era lá professora.

_Era um miúdo «cabeça no ar»?
Era sobretudo bastante solitário. Tinha um amigo ou dois e um mundo muito próprio.
Com um primo que vivia comigo, fazia coisas como esburacar as paredes de casa. Achava que elas guardavam um tesouro. E andava sempre à bulha.

_Filho de pintor [João Rodrigues Vieira, 1934-2009], ainda recorda o cheiro a tinta?
Os meus pais separaram-se quando eu tinha menos de 2 anos. Não me recordo.

_É considerado um dos melhores desenhadores portugueses, o melhor para muitos. Com que idade começou a desenhar?
Acho que temos uma história de excelentes desenhadores em Portugal, como o Fernando Brito, o Pedro Proença ou o Jorge Queiroz. No meu caso, desenhar a tinta-da-china é escrever uma espécie de solo de jazz ou de discurso indelével. Bem, posso sempre rasgá-lo e metê-lo no caixote. Respondendo à pergunta: muito, muito, cedo. Mas não era o único. Tinha colegas que também desenhavam. Eles carros, eu desenhava cavaleiros.

_De onde vinham esses cavaleiros?
Em vez de mesada, a minha mãe dava-me semanalmente a revista Tintin. Era uma
ansiedade semanal. Havia também o Cavaleiro Andante.

_Desenhava bem ou tinha apenas jeito?
Nos primeiros anos, desenhava por compulsão. E quando se repete muito uma coisa ganha-se treino e uma tendência mecânica para a fazer. Apesar de tudo, havia alguma
diferença entre a banda desenhada que fazia com seis anos e a que fazia com 18.

_Banda desenhada aos 6 anos?
Aprendi a ler antes dos 6 anos, com livros de banda desenhada. Nessa idade, a senhora
Beatriz, que tinha uma livraria de coisas em segunda mão, trocava-me livros de BD. Sim, aos seis fazia já uma espécie de banda desenhada. Os heróis eram uns gatos.

_Estava escrito que ia para Belas-Artes?
Não completamente. Estive indeciso entre ir para Letras ou Belas-Artes. Para mim, a
banda desenhada era uma mistura de belas artes com literatura. Também cheguei a pensar em arquitetura porque era uma coisa mais certinha, mas a minha tendência para Matemática era nula.

_Gostava da escrita?
Escrevia umas coisas. Mas a minha escolha tinha que ver com a banda desenhada. Sobretudo tinha que ver, primeiro, com não ter Matemática e, segundo, com aprender a desenhar de uma forma académica. Não me interessava muito a arte. Interessavam-me mais as questões de desenho, e dentro destas as naturais da banda desenhada.

_Foi um bom aluno?
Desde que saí do Liceu Francês, nunca mais estudei. Cheguei ao (ciclo) preparatório português e percebi que não era preciso estudar. Basicamente, era muito fácil. Com
exceção para a Matemática de 11º ano e Geometria Descritiva, na Faculdade. Aí fui obrigado a estudar. Mas recordo que, na altura, a média de entrada para Belas-Artes era 9. A minha não era grande coisa – eu também não me esforçava grande coisa – mas sempre era um quinze.

_Além da banda desenhada, que outros interesses despertaram na adolescência?
Uma banda de música, a Banda Almôndega, e um programa de rádio, com o meu primo João Lucas. Com gravadores de cassete e microfones é possível fazer algumas coisas interessantes. Chamava-se Paripiranga e era, digamos, um programa bastante
experimental. Tinha notícias, bandas, as que inventávamos. Lembro-me de uma entrevista: um tipo à procura de um baterista – chamava-se Jo-jo-jo, pronuncia-se em inglês – e estava no meio da multidão durante 15 minutos sempre a procurar o baterista. Era muito divertido. E as raparigas. A minha primeira namorada foi aos 16, 17 anos.

nm1232_mjvieira03

_Com que idade começou a beber e a sair à noite?
Raramente saía do bairro, andávamos sempre na casa uns dos outros. De vez em quando bebia umas cervejas num bar para os lados dos Prazeres. E também ia ao Bota
Velha. Quando fiz 15 anos bebi uma cerveja e fiquei completamente bêbado. Comecei a
beber sistematicamente só depois dos 20.

_Que pensava a mãe da tendência artística?
Preferia uma coisa mais certinha, mas, como filho de pintor, tinha desculpa e eu
aproveitava. A certa altura, estive para suspender as Belas-Artes, como fez o meu pai.

_Porquê?
Fui para Belas-Artes com 18 anos e algum espírito positivo. Passados dois anos, comecei a achar que não se aprendia lá muito, a não ser com os próprios colegas. Fiquei, porque achei que o curso podia dar-me jeito para fazer a pós-graduação e safar-me da tropa. Quando saí, consegui um adiamento de incorporação por um ano. Ao fim desse ano, fui ao DRM [Distrito de Recrutamento e Mobilização] e disseram-me que todos os reservistas de incorporação que eram de pintura passavam para a reserva territorial. Foi uma sorte, nunca mais pensei nisso.

_Teria aguentado a tropa?
Sim. Naquela altura fazia natação e boxe.

_Acabou por fazer a pós-graduação?
Quem me deu essa ideia foi até o meu pai. Era uma coisa em Londres que acabei por não fazer, já não me lembro porquê. Se calhar, porque já estava com as bandas.

_Foi aluno do seu pai.
Sim, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, aulas de modelo. Foi aí que reencontrei o meu amigo Pedro Proença (tínhamo-nos conhecido na preparatória, aos 12 anos), que já na altura fazia umas bandas desenhadas fantásticas e uns desenhos «à Picasso» melhor do que o Picasso.

_E o Manuel João?
Nessas aulas, fazia umas coisas mais livres. «À Matisse.» Era divertido ter o contacto
com o modelo nu.

_Temia comparações com João Rodrigues Vieira?
Nunca quis ser pintor. Descobri já nas Belas-Artes que gostava de pintar. Julgo que terá sido à força de ser obrigado a fazê-lo. Mas não só. A banda desenhada dá muito
mais trabalho do que a pintura, na pesquisa, no pormenor a que obriga. Então, se calhar por preguiça, dediquei-me à pintura.

_Dizem que era bem mais arrogante do que preguiçoso, com o movimento Homeostética [1983], de que fizeram parte também Fernando Brito, Ivo, Pedro Portugal, Pedro Proença e Xana, utilizando o humor como estratégia de demarcação
crítica.
É verdade, era muito arrogante. Eu e todo grupo. Éramos provavelmente o grupo mais arrogante da escola de Belas-Artes. Arrogante e completamente indiferente ao mundo dos críticos de arte, dos galeristas, dos curadores, de todos os agentes artísticos. O que contava era o génio e o talento, aquelas coisas que sentimos na idade da força, do ímpeto e a da jactância. Foi um tempo em que cometi, portanto, erros atrás de erros de relações públicas, que aliás me prejudicariam para o resto da vida.

_Arrogante a que ponto?
A ponto de agarrar um certo crítico pelos queixos e lhe dizer «ora deixa ver os teus
dentes, a ver se és um bom crítico para nós comprarmos». Fui de uma arrogância extrema aí até aos 25 anos.

_Tem 53. Que pensa hoje, dessa arrogância?
Havia alguma estupidez na minha arrogância, infantilidade e falta de discernimento
sobre o que era a minha situação. Estava-me nas tintas para qualquer tipo de constrangimentos. Não tinha qualquer interesse em fazer coisas por interesse. E pronto, paguei por isso. E paguei também pelas bandas. Por ter optado por um estilo de linguagem que me limita automaticamente o acesso à rádio, por exemplo.

_Quando começou a sentir na pele os efeitos?
Julgo que só aos 40 anos. Estive-me nas tintas até muito tarde.

_Ainda vai a tempo de se render?
Já não me posso render. Não tenho outro caminho senão continuar a fazer aquilo que bem me apetece. Já não me dão hipóteses de voltar atrás. Mas não seria rendição. É velhice.

_Disse numa entrevista que está condenado a dizer umas graças e a fazer umas palhaçadas.
Parece que sim. No final de um espetáculo em que cantei só boleros, houve um tipo que me disse que não tinha viajado do Algarve para aquilo.

_Num país como Portugal, por que razão escolheu esta forma arriscada, de provocação, de sátira, de caricatura?
Nos anos 80, achava a música pop completamente imbecil, a começar pelas letras. Era um rumo atrasado mental, uma coisa simples e idiota. Reagi a isso fazendo uma música assumidamente idiota, com letras idiotas, juntando as caralhadas a uma vertente surrealista. Não vou falar de grandes nomes como Frank Zappa ou Georges Brassens, que utilizaram uma linguagem obscena – mas era meu objetivo quebrar aquele tipo de música. Nunca pensei que fosse para continuar até hoje.

_Não só continuou como a multiplicou por várias bandas.
A partir de certa altura, os Ena Pá 2000 deixaram de cobrir todo o espetro musical que me interessava. Acabei por diversificar em várias bandas, mantendo em comum a
letra – ou obscena ou surrealista ou crítica ou caricatural. Comecei a ganhar algum
dinheiro com as bandas e isso deu-me jeito. Na altura, ganhava dinheiro com a venda
de arte e com as bandas.

_Foi mais longe e misturou os dois mundos. Orgasmo Carlos, «o melhor pintor do mundo», cola de vez o músico ao artista plástico.
O Orgasmo Carlos caricaturiza um determinado tipo de artista contemporâneo, meio saloio, meio Zé dos Bois. Mas o que sempre me interessou mesmo foi a arte.

_Nunca se arrependeu?
Arrependi-me de algumas atitudes tontas que tomei em determinadas alturas. Mas
também não tenho culpa que as pessoas achem que as coisas são incompatíveis. O problema é o tipo de linguagem, que muitas vezes vai de encontro a um público mais
ansioso por cerveja de que por outra coisa qualquer. Sou o engraçadinho e o palhaço.

_E essa não tem sido uma forma de sabotagem à sua pintura?
Acaba por ser. Acabo por dar tiros no pé sistemáticos e não sei muito bem como hei de
sair disto. A minha atividade musical colide aparentemente com a minha atividade como pintor. De vez em quando penso nisso. Mas gostei muito de fazer tudo o que fiz até agora. Foi muito divertido. Fiz concertos em que me diverti, gosto muito dos discos, acho que são bastante razoáveis. Sinto-me contente com o trabalho feito. Nem sei se seria possível fazer de outra maneira, para dizer a verdade. Estou muito satisfeito com a maioria das exposições que fiz. Lamento ter-me estado completamente nas tintas para uma carreira dentro das artes plásticas. Ou da música. Fui indolente e intolerante, mas é a vida. Em ocasiões terei sido inconveniente e arrogante, mas neste momento sou um gajo completamente normal e dou esmola ao tipo que toca acordeão na esquina. Espero que um dia ele faça o mesmo por mim.

_Músico, pintor, performer, só um deles ou todos?
Eu sou pintor.

_Ena Pá 2000, Irmãos Catita – o que mudaram em Portugal?
No caso dos Ena Pá 2000, se calhar criámos um monstro. Há um tipo de linguagem que acabou por se popularizar noutras áreas que não as da música. Embora hoje em dia as canções continuem a estar proibidas na rádio. Nessa matéria, estamos num nível quase anterior ao 25 de Abril.

_Censura?
É normal em Portugal, sobretudo na rádio. Compreendo que no horário nobre se evitem certas músicas. Mas a verdade é que não passam sequer as que não têm essas características. Além do disco que saiu agora com a Blitz, com várias bandas minhas não editadas, como o fabuloso quarteto 4444, editou-se em agosto um disco dos Irmãos Catita mas as pessoas não sabem que existe porque não passa na rádio. E eu não tenho tempo para andar a chatear ninguém. Dava-me jeito ter uma secretária. Mas só quando tiver uns tostões. Agora estou a pagar a Segurança Social, as multas do IRS, as da polícia municipal. Aliás, as multas parecem ter vida própria, como aqueles dragões fabulosos que apesar de terem várias caudas cortadas continuam a renascer.

_Como classifica a sua música?
Se analisarmos do ponto de vista meramente musical, é uma banda perfeitamente normal, mais para o bom. Os arranjos, etc., tudo o que se ouve, se não percebermos as palavras é uma banda porreira. Tanto uma como a outra. Mas parece que as pessoas se preocupam apenas com as letras, ostensivamente estranhas. Coisas como Frank Zappa não têm um grande problema na América. É um problema em Portugal.

_Há vários problemas em Portugal, segundo o candidato Vieira. É uma das suas personagens mais conhecidas. E já nasceu em 2001.
Inicialmente, o candidato Vieira foi pensado para ser uma série de televisão. Só depois
transpus a ideia para o campo político, tentando arranjar as assinaturas necessárias e
entrar no jogo. Não consegui até agora encontrar uma estrutura que me resolvesse o
problema das assinaturas. Não tenho tendência para a organização e não encontrei ninguém que a tivesse. Seria interessante entrar no jogo e não vou desistir, desde que consiga fazer a minha vida normal.

_Para Vieira, os políticos são todos iguais – corruptos e criminosos. É uma ideia perigosa.
Por um lado, os políticos funcionam sobretudo como uma espécie de interface entre o poder e o público – atores que representam interesses que não são os da população
portuguesa mas sim os interesses de uma minoria financeira detentora da força e do poder. Há políticos que tentam equilibrar isso, é verdade, ensaiando pôr em prática uma visão social-democrata, mas neste momento essa visão dificilmente consegue vingar. Por isso, não digo que todos os políticos são iguais mas os resultados andam lá perto. Temos dois partidos novos no arco da governação, é uma novidade, boa quanto ao princípio. Qualquer movimento que haja nesta democracia podre é bom. Dê-se-lhes o benefício da dúvida.

_Diz o candidato Vieira que é importante desconstruir as frases absurdas dos políticos. Pode dar alguns exemplos?
«A sabedoria natural do povo português»; «Saímos pelo próprio pé»; «O melhor povo do mundo»; «Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses»; «Angola é nossa».

_Que conclusões tirou destes dois últimos meses?
Os políticos querem infantilizar o público. Estive uns dias doente e, mesmo sem olhar para a televisão – não consigo –, ouvi as notícias. E verifiquei isto: mais de metade do noticiário é sobre futebol, o restante são repetições sobre política. Constatei também que os proprietários dos media são homens de direita e que, tirando o Avante!, os media em Portugal são de direita. O que é natural. Fica a saber-se que a democracia só é democrática se se votar na direita. Vamos ver o que vai passar-se com este novo quadro político. Com esta Europa, se votar fizer a diferença, podem crer que será proibido. Acho, portanto, que vai haver problemas.

_O que nos falta para sermos um país mais desenvolvido?
Falta-nos organização. Falta-nos olhar para nós próprios, enquanto cidadãos adultos, e não como criancinhas do Portugal dos Pequenitos. Governos e media têm imposto aos cidadãos que se vejam a eles próprios criancinhas que gastaram a mesada dos pais e que, por isso, merecem tautau. E as pessoas deixam-se ir, não se organizam. A nossa tradição enquanto cidadãos irresponsáveis vai até 1928.

_Que povo aceita de forma tão resignada a austeridade?
Existe uma taxa de analfabetismo ainda grande, de alcoolismo também, a da pobreza é enorme. E as elites também não são lá muito cultas. Somos, por isso, um país muito atrasado, muito mais perto do terceiro que do segundo mundo. Fizeram-se esforços, na educação científica, por exemplo, mas logo foram quebrados. O que me parece é que há muita gente que tem vontade de que o povo continue mais ou menos atrasado mental. Antigamente, a ditadura era manipulada pela força das armas. O poder aprendeu que isso é escusado. É muito mais eficaz dar às pessoas a sensação de que têm alguma escolha e que ela adianta. Mas vale zero. Por isso, quero criar o partido da abstenção.

_Como se apela a essa mole?
Com um paradoxo: pedir a essas pessoas que votem no seu próprio partido. Assumir nas urnas que se abstêm. E a partir daí criar uma força diferente na democracia.

_Como seria a cúpula desse partido?
Não tem uma direção. Somos todos iguais. Ninguém manda. Temos uma rede e comunicamos online. As decisões são tomadas por todos, em referendo.

_De repente, o candidato Vieira entrou na conversa?
Não, entrou uma ideia.

nm1232_mjvieira01

_Não é fácil de mais, bater nos portugueses, como povo?
Só porque são os que conhecemos melhor. O que noto é um profundo desprezo pela nossa autonomia cultural. E isso está patente nos media e nesta vocação que é agora usar termos ingleses por tudo e por nada. Vide Facebook.

_O que há em si de muito português, em virtudes e defeitos?
Não sei se tenho em mim alguma coisa de muito português. Tenho afeto pela paisagem do meu país, pelos montes alentejanos, pelas aldeias de granito. Gosto de coros alentejanos durante meia hora. Gosto da comida. O que se passou foi que Portugal sofreu um movimento muito forte no 25 de Abril, de tal maneira que não tivemos tempo para passar devidamente de sociedade agrícola à competição industrial. Por isso, olhamos para os outros países como se estivesse ali o progresso. Os portugueses continuam a achar que progresso é o que era há cem anos. Prédios altos, mesmo que sejam muito feios. Os portugueses confundem estética com a noção de utilidade. Interesses culturais são a cozinha tradicional e o futebol, que, por sua vez, confundem com desporto.

_Um remédio para isto?
Temos de ser mais inteligentes, de pensar para lá da caixa, de dar um pulo para fora de tudo isso. Talvez através da lógica do absurdo seja possível. Estamos num circo de atrasados mentais e as elites não são melhores. Não há grandes cabeças.

_Em Portugal, qual foi a última «grande cabeça»?
D. João II.

_Nas eleições presidenciais, vai votar em quem?
Acho que deviam ser todos eleitos. Uma equipa de futebol. Não vejo aqui nenhuma pessoa muito interessante. O que Marcelo [Rebelo de Sousa] diz é um chorrilho de lugares-comuns.

_Qual foi o melhor ministro da Cultura?
Helder Macedo, secretário de Estado da Cultura, no governo de Maria de Lourdes Pintasilgo.

_Como vai a cultura em Portugal?
Em Portugal, as elites e Goebbels têm uma coisa em comum: quando ouvem falar em cultura sacam da pistola.

_É um viciado em museus. Há bons museus em Portugal?
O Museu Nacional de Arte Antiga é um museu aceitável. Estou há quatro anos a tentar fazer um museu em Vidago, na casa onde nasceu o meu pai. Estou a trabalhar com a Câmara de Chaves num projeto que poderá ser uma coisa significativa para a cultura regional.

_Arte e subsídios.
A arte existirá, com ou sem subsídios. A questão é outra. Enquanto não formarmos um público para a arte, o problema não será resolvido. As palavras-chave são educação e criação, em cada português, de uma estrutura intelectual que suporte a cultural. Não interessa manter uma orquestra ou uma companhia de bailado só para podermos dizer que não somos o Burundi. É preciso criar condições para que alguns portugueses apreciem música e bailado. Quanto aos subsídios, nunca recebi nenhum.

_Nunca se candidatou?
Nunca me candidatei porque sou analfabeto organizacional, ou seja, incapaz de pôr um papel para pedir uma coisa. Ou melhor, uma vez recebi um dinheiro da Fundação Luso-Americana para ir a Nova Iorque, ver arte e trabalhar.

_Como conseguiu?
Foi quando eu era casado. A minha mulher preencheu os papéis. Eu não sou capaz.

_Acha uma certa graça a isso, não?
Adorava ser mais organizado. Os meus dias não têm organização, ritmo ou disciplina. Limito-me a uma agenda que guardo no computador e escrevo lá coisas. Quando há uma multiplicação de demasiadas coisas, o caos pode acontecer. Por exemplo, uma coisa idiota: já pensei concorrer ao Festival da Canção mas não sei como se faz. Deve ser preciso preencher uns papéis ou falar com alguém. Quem? Devia investigar esse
género de coisas.

_Como é essa desorganização diária?
Como pintor tenho uma atividade solitária. Pinto umas seis horas por dia. Agora, que estou a trabalhar numa música para um pequeno filme [para a Direção-Geral de Saúde, realizado por Pedro Portugal, acerca da saúde mental] tenho de pôr algum tempo de parte. E quando tenho um disco, interrompo a atividade de pintor para estar dois meses num estúdio. Há cinco anos, sou também professor na Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha, no Instituto Politécnico de Leiria e na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

_Conseguiria viver só da pintura?
Dificilmente vivo da pintura, desde há uns anos. Há pintores que conseguem, mas têm uma carreira mais bem estruturada, não cantam músicas obscenas e conseguem até fazer da arte uma pequena indústria. Devo dizer, com algum pesar, que lamento nunca me ter organizado nesse sentido.

_Expõe regularmente.
Exponho. Há uma pequena minoria que vai conhecendo o trabalho. Outros não se interessam pelo que faço. O corpo do meu trabalho é a pintura e a pintura está fora do mundo de vanguardas em que se tornou a academia. Sou moderno e não contemporâneo. Tive uma educação estética convencional, portanto, quase nenhuma [risos].

_Além disso, diz que «os meus temas nem sempre são bonitinhos».
Os temas parecem não pedir licença para me visitar. Odeio chavões e gostava de ser racional mas devo dizer que é o que sai. Pelo contrário, quando faço obras do Orgasmo Carlos, existe um cálculo antes de as fazer porque são programáticas: caricaturas da situação económica e política da arte, num imaginário mundo dos PALOP. Nos outros casos, sigo o meu inconsciente nas formas que vou construindo na pintura, por facilitismo, admito. É talvez pueril. Aceito que há um universo que posso visitar e trazer de um poço inesgotável partes desse mundo. Depois logo penso a composição e a cor.

_Gostaria de regressar à banda desenhada?
A tentação paira há algum tempo. Mas teria de me disciplinar. Fazer banda desenhada assemelha-se à preparação de um filme. Gostava de ter tempo para isso. Penso em
alguns personagens, como o Cacto Donald, o Homem-Barata e as fabulosas aventuras de Luís Mendonça, agente da PIDE.

_Entre 2005/6 e 2010, fez a direção artística do antigo cabaré Maxime. Em 2015 abriu no Cais do Sodré o Maxime sur Mer. Como está esse projecto?
Vou propor aos meus sócios que passe a chamar-se Titanic Tejo, um sítio onde nos podemos afundar nuns copitos. Nomes há muitos. Cheguei a registar o nome Maxime sur Mer mas parece que uma grande empresa de construção comprou o nome primeiro e vai usá-lo em algumas atividades.

_Em 2016, vai editar algum disco?
Desde há dois anos, tenho composto, por razões pessoais, canções românticas e apetece-me mesmo fazer um interregno. Será um disco de canções sentimentais, para descansar do labiríntico zigurate caralhiforme que erigi.

«DESCOBRI QUE A ÁGUA NÃO MATA»

_É difícil encontrar guarda-roupa para alguns dos personagens?
Quando comecei, utilizava roupas dos anos 70 que encontrava nos armário dos meus pais. Era o mais estranho que havia e correspondia à farda do homem da Regisconta. A certa altura, tivemos o fato com o funil na cabeça, uma espécie de uniforme. Fomos pioneiros no avacalhanço total e, dentro desse mundo, na pesquisa.

_Revê os concertos?
Não costumo ouvir-me a posteriori. Mas acabei de escolher umas canções gravadas ao vivo no Maxime com bandas que nunca publiquei, o Quarteto 1444, Lello Minsk e o Pianista de Boite e o Lello Perdido – que são fados – e apercebi-me de que era, de facto, completamente desbragado naqueles concertos. Uma coisa completamente de fugir.

_Pioneiro no avacalhanço, mas obedecendo ao estereótipo do performer tímido.
O álcool desinibe, sobretudo na condução. É por isso que vamos diretos a candeeiros. Tenho afeto pelo álcool. Podemos também vomitar para cima daquela rapariga com quem nem conseguimos falar. Por problemas de saúde, estive uns tempos sem beber. Percebi então que era capaz de tocar sem beber e que a água não mata. Até lá, a timidez ou indiferença do palco eram vencidas pelo Deus Bagaço. Houve uma altura em só bebia em palco. O resto do tempo estava de ressaca. Bons tempos.

Alexandra Tavares-Teles
Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens