OPINIÃO

Bruno Rocha põe Lisboa à mesa

Apostámos em Bruno Rocha como a revelação gastronómica de 2016. O chef deu-nos razão.
Bruno Rocha, aposta da Notícias Magazine para a área da gastronomia em 2016.

Na última edição do ano, a Notícias Magazine faz sempre as suas apostas para os 365 dias seguintes. Apontamos as figuras que acreditamos que se vão destacar, da música à literatura, da ciência ao desporto. Na área da gastronomia, em 2016, o nome escolhido foi Bruno Rocha. E, hoje, o chef apresentou o seu primeiro menu à frente do restaurante Flores do Bairro, do Bairro Alto Hotel, em Lisboa.

Antes da apresentação do menu, houve uma volta de elétrico até à Graça, para provar um cocktail de Gin Hendricks com sumo de pepino e clara de ovo, mais um aperitivo de requeijão em escabeche de pimentos e outro de meia desfeita de bacalhau. Já no restaurante, houve tártaro de tomate, pregado e pata negra em molho de fragateira, lombo de vitela com esparregado de acelgas e um creme de arroz doce e citrinos com gelado de bolacha maria. «É um menú, muito português e muito lisboeta, que se inspira e atualiza os bairros da cidade.»

Na última edição de 2015 da Notícias Magazine dizíamos que o melhor conceito para definir a cozinha de Bruno Rocha, 37 anos, era o de gastronomia em viagem. Porque é aos desvios de rota que o chef vai buscar inspiração – e tem-nos tido em quantidades massivas. A começar pelo sítio onde vive. É um algarvio que nasceu em Lisboa, ou se calhar um lisboeta que se fixou no Algarve. E agora, que se afirmou nas cozinhas do Sul do país, voltou à capital.

Luís Baena tinha sido o jurí a apostar nele para 2016. «Esteve muito tempo escondido no Algarve, mas tem um talento impressionante e estou certo de que este vai ser o ano dele.» Até porque os dois conhecem-se bem, viajaram por meio mundo a fazer show-cookings e mostras gastronómicas, podem ter estilos diferentes mas há raízes que são as mesmas. «A gastronomia que pratico é quase um tripé», diz Bruno. «Tenho a raiz da comida portuguesa, mas tento aplicar-lhe o rigor francês e muita técnica asiática.» Lisboa reinventada, foi isso que ele serviu.

Para Bruno Rocha, cozinha foi um acaso que se tornou paixão. Aos 18 anos, com o 12º ano feito, pensou estudar jornalismo e depois decidiu voltar atrás três anos, para fazer um curso profissional de cozinha na Escola de Hotelaria de Faro. «Tinha uma turma de grande qualidade, éramos competitivos e puxávamos uns pelos outros.» Então decidiu que era mesmo isto que queria. Passou um ano no Sheraton e oito no Vila Vita, onde viu Hans Neuner ganhar a primeira estrela Michelin (hoje tem duas) para o restaurante algarvio Ocean. «Depois era altura de me testar sozinho ao leme.»

Há seis anos, mudou-se para o Tivoli de Vilamoura. «Passei dois anos a testar e outros quatro a construir uma cozinha de referência.» Sobretudo no restaurante Emo, que conquistou quatro garfos de ouro consecutivos do roteiro ‘Boa Cama Boa Mesa’. «Quando decidi entrar no curso, virei-me para a minha mulher e disse-lhe: um dia ainda me vais ver nas revistas.» Já está.

Ricardo J. Rodrigues
Fotografia de Jorge Simão