OPINIÃO

Histórias com duche e manteiga, em nome da arte

Vendeu em todo o mundo milhões de fotografias e de livros que mostravam meninas adolescentes meio despidas ou nuas, em poses sensuais, uma coisa muito kitsch que provocava reações contraditórias, entre a pornografia infantil, a babosice e a admiração pela beleza das imagens «tão bonitas». A imagem de marca era a névoa que envolvia as […]

Vendeu em todo o mundo milhões de fotografias e de livros que mostravam meninas adolescentes meio despidas ou nuas, em poses sensuais, uma coisa muito kitsch que provocava reações contraditórias, entre a pornografia infantil, a babosice e a admiração pela beleza das imagens «tão bonitas». A imagem de marca era a névoa que envolvia as meninas numa luz irreal – o primeiro livro, aliás chamava-se Sonhos de Meninas. David Hamilton suicidou-se a 25 de novembro em Paris, aos 83 anos, dias depois de cinco mulheres terem revelado que ele as violara na adolescência, durante as sessões fotográficas.

Um dos livros mais divulgados do fotógrafo chama-se A Idade da Inocência, título roubado a um romance de Edith Wharton que falava das grandes mudanças sociais do início do século XX, com um drama cuja sensualidade foi bem vincada por Scorsese, ao convidar Michelle Pfeiffer e Daniel Day Lewis para os principais papéis. Mas adiante, que essa é uma história de amores adultos e de perdas de inocência em vários sentidos. Hamilton suicidou-se sem ter desencadeado, como tinha anunciado, processos por difamação às mulheres que o acusam.

A jornalista francesa Flavie Flament, hoje com 42 anos, tinha 13 quando foi modelo de Hamilton. Conta que desde o primeiro momento a forma como ele lhe tocava era estranha, mas depois houve um dia em que ele a levou para o duche e a violou. «As outras costumam pedir-me para lhes dar banho, gostam muito», disse-lhe ele.

A morte de Hamilton – que Flavie classifica de cobardia – não coloca um ponto final nesta história sórdida, porque a jornalista foi entretanto nomeada pelo governo francês para coordenar uma missão que vai estudar a questão dos prazos de prescrição dos crimes sexuais. Em França, o crime de violação prescreve dez anos depois do facto ou, se envolver menores, 20 anos após a vítima ter atingido a maioridade. Em Portugal, o prazo é de 15 anos ou, no caso de menores, quando a vítima chega aos 23 anos. O tema foi discutido em tempos, suscitado pelo processo Casa Pia, mas os prazos são estes. No estado norte-americano da Califórnia, após o escândalo com o ator Bill Cosby que acabou por confessar ter drogado raparigas para ter sexo, estes crimes deixaram de poder prescrever.

Claro que os crimes sexuais não são apenas uma questão legal. São conhecidas as razões que em muitas situações inibem as vítimas de os denunciarem mais cedo. No caso de Flavie, foram necessários quase trinta anos para ela vir a público e quando o fez sabia que legalmente seria duplamente vítima: por ter sofrido a agressão e por poder vir a ser condenada por difamação.

O assustador de tudo isto está, desde logo, no facto de terem passado por «artísticas» fotografias de crianças de 13 ou 14 anos de que o autor se aproveitou para abusar. Hoje olhamos para essas imagens, à luz de tanto debate e tantos casos das últimas décadas, e sentimos desde logo o abuso que elas contêm: mesmo que não as tivesse efetivamente violado, ele expusera aquelas crianças a situação de voyeurismo pedófilo, em nome de uma ideia de «arte» que justificaria tudo e mais alguma coisa.

A atriz Maria Schneider fez 20 anos durante as filmagens de O Último Tango em Paris, em 1972. Era uma jovem desinibida, vivia na França do Maio de 68, despiu-se com a maior naturalidade quando lho pediram no casting. Este filme, que foi o mais notório de todos aqueles em que participou, foi também aquele que mais a destruiu. E tudo por causa da sequência mais famosa, conhecida como «a cena da manteiga». As lágrimas que ela chora enquanto Marlon Brando a domina são reais, não são resultado de um esforço de interpretação: nem o realizador Bernardo Bertolucci nem o ator a tinham avisado do que ia passar-se, o argumento dizia apenas que seria uma violação.

Já Maria tinha morrido quando Bertolucci falou do caso numa entrevista, velho e numa cadeira de rodas. Disse que se sentia culpado mas que não estava arrependido porque o que ele queria era que Maria reagisse não como uma atriz mas como uma mulher humilhada.

E até explica entre risos: «Decidimos fazê-lo ao pequeno-almoço, nessa manhã. Havia uma baguete e havia manteiga, olhámos um para o outro e sem dizermos nada sabíamos o que queríamos.» Em nome da arte e de uma suposta liberdade: «No cinema para conseguirmos uma coisa temos de ser completamente livres.» Ocorrem-me algumas palavras impróprias para comentar esta frase.

[Publicado originalmente na edição de 4 de dezembro de 2016]