OPINIÃO

Portugueses que salvam vidas

Há gente que não se acomoda à vida confortável que tem nem se conforma com a injustiça das vidas difíceis com que se cruza mundo fora. Esta semana, damos-lhe a conhecer cinco pessoas que fazem a diferença. Helena Ribeiro Telles é uma delas.
Helena Ribeiro Telles
Helena Ribeiro Telles

Helena ajuda meninos das ruas de Moçambique. Marta está numa favela no Quénia a ajudar 76 rapazes e raparigas a estudar. Fernando passa temporadas na Birmânia a garantir que crianças com cancro tenham acesso ao hospital. Teresa apoia órfãos da sida no mesmo país e Carlos faz cirurgias de guerra no Sudão. Todos sentem que há muito por fazer. Eis a história de Helena Ribeiro Telles.

Há muitos problemas por resolver e a fome é um deles, acredita Helena Ribeiro Telles, de 49 anos, que neste momento procura ajuda para conseguir mais dinheiro e poder arranjar comida para as crianças da escola de Mafarinha, no Dondo, Moçambique. A associação que dirige em Portugal, a Apoiar, já construiu ali uma cozinha, além das quatro que financiou em escolas primárias da província do Niassa. Mas precisa de mais apoios.

A sua ligação aos meninos de rua moçambicanos começou há 17 anos. Por isso, fica contente quando vai agora a Maputo e encontra alguns dos primeiros que ajudou, já adultos. «A senhora dava‑nos pão, lembra?», costuma perguntar‑lhe Carlitos, de 25 anos, quando hoje em dia se cruza com ela. «Então não lembro», responde sempre Helena Ribeiro Telles. Apesar dos anos que passaram, a portuguesa não esquece os momentos que naquela época lhe mudaram a vida.

Tinha acabado de chegar a Maputo, em 1999, para acompanhar o marido que tinha tido uma proposta de emprego, quando se deparou com centenas de miúdos na rua a pedir dinheiro. «Disse‑lhes que se quisessem podiam ir a minha casa buscar pão na manhã seguinte.» Carlitos, então com oito anos, foi um dos primeiros. A partir daí, a casa de Helena passou a receber logo pela manhã cada vez mais crianças que ia ajudando. Tinha uma filha pequena, de seis meses, mas durante a semana às vezes ia à Beira, que fica no Norte do país, onde o marido estava destacado. E aí costumava também apoiar as crianças a estudar. «Dava explicações debaixo das árvores.» Começou a perceber que muitas, apesar do esforço, não tinham rendimento na escola por causa da fome. E, como desde sempre sentiu vontade de ajudar, não perdeu tempo e começou a montar o que veio a tornar‑se a Fundação Lusalite Vida, no Dondo, na província de Sofala, onde «lançou escolinhas para crianças dos 2 aos 12 anos». Hoje esta fundação garante alimentação a 250 crianças moçambicanas por dia.

Helena Ribeiro Telles

Só em 2010, já com cinco filhos, Helena regressou a Portugal, onde passou a dirigir também a Apoiar. Mas continua a ir regularmente a Moçambique. «É muito gratificante», diz, ver o que se consegue melhorar na vida dos outros. Apesar disso, acha que o que faz é ainda «pouquíssimo», tendo em conta os episódios a que assiste.

Um dia, estavam vários miúdos na fila para irem buscar a comida na escola, quando uma menina de seis anos caiu no chão. «Estava cheia de fome. Tinha estado de férias e, por isso, sem comer.» «Há imensa pobreza, há muitas crianças a morrer à fome», lembra.

Sempre se preocupou, desde pequena. É a oitava de dez filhos. O seu pai, o cavaleiro David Ribeiro Telles, e a sua mãe habituaram‑na a viver dessa maneira. Residiam no campo, na Torrinha – alguns dos filhos passavam a semana em Lisboa a estudar –, e já com 14 anos fazia voluntariado com as Vicentinas, a ajudar nos bairros de lata da capital. A mãe dava catequese e também montou cantinas em aldeias vizinhas, na zona de Coruche. O pai acolhia em casa todos os que precisavam.

Helena foi, porém, a única da família que acabou por fazer do voluntariado a sua vida profissional. Tirou um curso no Instituto Superior de Serviço Social e ainda trabalhou como assistente social em instituições, como a Casa Pia. Hoje, dedica‑se a ajudar e é voluntária na Misericórdia de Almeirim, onde vive. A sua primeira experiência em África foi com 21 anos, ainda decorria a guerra em Angola. Viajou nos meses de verão com um grupo da Universidade Católica, onde aliás conheceu o marido, e esteve a ajudar no Hospital Central de Luanda e depois na leprosaria, onde estavam os doentes com lepra, em Kifandongo. No ano seguinte voltou para ajudar a acompanhar os mutilados da guerra. Foi aí que sentiu pela primeira vez que precisavam de si. Este ano, a sua filha mais velha, de 17 anos, seguiu os seus passos e foi durante três meses para Moçambique.

Conheça também a história de Marta Baeta, Fernando Pinho, Teresa Paiva Couceiro e Carlos Ferreira.

Catarina Guerreiro
Fotografia Leonardo Negrão/Global Imagens