Foi você quem pediu um acerto de mentalidades?

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Trabalhadores vs. patrões

A 1 de maio, a luta de classes: de um lado, um membro da associação Precários Inflexíveis e, do outro, um patrão flexível. João Camargo representa os trabalhadores e Pedro Joel os patrões. Um braço-de-ferro sem consequências violentas apesar da sessão fotográfica…

Quarenta e dois anos depois do primeiro 1 de Maio em liberdade, esta continua a ser uma data para refletir sobre o lugar do trabalhador. Depois de muitas conquistas e alguns retrocessos, continua a haver necessidade de lutar pelos direitos laborais. Os Precários Inflexíveis, associação sem filiação partidária, existe para dar apoio aos trabalhadores precários, sobretudo jovens a recibo verde. Do outro lado, há cada vez mais PME que apostam na valorização dos seus talentos, como é o caso do grupo Float.

João Camargo é o engenheiro que dá a cara pelos Precários Inflexíveis. Pedro Joel é o patrão da Float. Empenhado, diz, num sistema social mais justo, estará do mesmo lado dos Inflexíveis? Ele afiança que sim: «É simbólico isto do 1º de Maio. Creio realmente que é preciso mudar a mentalidade da entidade patronal. Há que transmitir uma ideia de proximidade com o trabalhador. Claro que este meu discurso é o de um capitalista disfarçado, mas eu explico: os meus pais são trabalhadores, do Barreiro, terra de luta… Mais do que as manifestações e discursos, estes dias têm de ser transformados em ações.»

O lado ativista de João não reage logo, mas pega na deixa para chamar a atenção para o facto de as condições e direitos dos trabalhadores sem contrato estarem a sofrer recuos: «É importante a contestação e a luta, seja através de greves, manifestações ou outras formas de protesto, sobretudo usando as redes sociais.»

Sendo a especialidade da sua empresa a comunicação e as armas publicitárias, lançamos um desafio a Pedro Joel: o que melhorava ele nos Inflexíveis? «Antes de mais, o João deveria entender melhor a realidade das empresas nacionais. Existem vários tipos de empresas e é importante perceber como é que o patronato pensa e quais os seus valores. É preciso entender que as empresas também têm problemas e custos e responsabilidades. Muitas vezes, o mercado não nos permite mudar algumas coisas.» Recado dado.

Para João, colocar-se no lugar do patronato não é hipótese: «O que eu queria é que o patronato respeitasse a lei. Pode não ser fácil, mas era positivo que a primeira opção empresarial para melhorar resultados não fosse cortar custos com os empregados… Depois, há outro problema, em Portugal: a maioria dos trabalhadores são mais e mais bem qualificados do que os patrões.» Pedro volta à carga: «Os teus pontos de vista são bastante assertivos, a única coisa que peca é o mind set. Diria que é importante perceber que os patrões são pessoas, tal como os empregados.»

Voltamos a picar o patrão: afinal, o que ele não suporta nas queixas dos trabalhadores? «O que mais me irrita são aqueles que nem trabalhadores querem ser. Descubro-os em muitas entrevistas de emprego. Tipo: digo que tenho 1000 euros para oferecer e ouço: “Mas eu estou no fundo de desemprego, ganho 800 euros, compensa-me ir trabalhar?” Como entidade empregadora, desmoralizo quando ouço isto.»

João respeita, mas não se fica: «Claro que o desemprego em massa que existe em Portugal e na Europa não pode ser explicado por isso. Em Portugal, mais de metade dos desempregados não têm direito a qualquer apoio.» O que irrita mais, então, ao João, no discurso do patronato? «Acharem que é um favor empregar um trabalhador, quando na verdade esta é uma relação bilateral.»

«Na minha empresa, falo com os meus cinquenta e tal trabalhadores. Só não falo mais porque não tenho tempo… A verdade é que gosto de estar ao lado das pessoas. E a mentalidade do patrão tem de ser esta: estar ao lado!», responde o empresário.

A conversa não ficou por aqui. Visões diferentes em relação aos contratos de trabalho, mas acordo sobre o papel do Estado nos incentivos às empresas. Uma luta de classes sem marteladas ou ferimentos de serra. Milagre de 1 de maio.

JOÃO CAMARGO
Engenheiro do ambiente, neste momento a fazer doutoramento em alterações climáticas, dá a cara neste confronto por uma associação de cidadãos, os Precários Inflexíveis. Tem 33 anos e é um dos membros deste movimento criado em 2007. Os Precários têm um serviço para ajudar trabalhadores com dúvidas. Estiveram ligados a protestos célebres como Geração à Rasca e Que se Lixe a Troika!

PEDRO JOEL
Formado em Gestão de Empresas, é um patrão que se assume liberal. A sua empresa é a Float Group, um grupo que engloba um conjunto de agências a atuar em diferentes áreas, nomeadamente na publicidade em saúde (Float Health), na ativação digital (Float Play) e no marketing de influência (Blog Agency). Com presença em vários países da Europa e da América Latina. Tem 42 anos e vive em Lisboa.