OPINIÃO

Filhos improváveis

Crianças que nasceram desafiando lógicas e diagnósticos clínicos. Sete testemunhos de quem passou a acreditar que não há impossíveis.

Chamam-lhes milagre. Aquele que tanto desejavam, mas que lhes garantiam não ser possível. Até ao dia em que um teste de gravidez mudou expetativas, contrariou provas físicas e dados científicos, desafiou estatísticas e lhes prometeu um filho. Sete histórias com um denominador comum: a improbalidade.

Mafalda Januário, 38 anos
«VIVO POR ELES E PARA ELES»

Como pode uma atleta sofrer de uma doença cardíaca? Foi o que pensou Mafalda Januário (na foto de abertura com os filhos Afonso e Salvador) quando optou pela área de desporto, no 9º ano, e foi submetida a exames médicos que lhe diagnosticaram um bloqueio aurículoventricular completo congénito. Tinha 15 anos. Aos 29, já casada e com um filho, Afonso, na altura com 2 anos, teve de se submeter a uma cirurgia para implantação de um pacemaker, a solução adequada para os seus batimentos cardíacos muito brandos. «No decorrer da primeira gravidez, fui alertada para os riscos que corria e tive de passar a fazer medicação para o meu problema cardíaco e para regular a pressão arterial», diz. Antes do nascimento de Afonso, Mafalda já tinha passado por três abortos não ficando comprovado que as mortes dos fetos estivessem relacionadas com o seu problema, mas tudo indicava que o seu «fraco coração não aguentava as batidas cardíacas dos dois». Afonso nasceu prematuro, às 35 semanas. Foi então aconselhada pelos

médicos a não voltar a engravidar porque uma nova gravidez seria um risco acrescido para si e para o bebé. Apesar de o saber, decidiu tentar novamente. Ao fim de pouco mais de ano após a implantação do pacemaker nascia o Salvador, um nome que é uma homenagem. «Reconheço que as gravidezes constituíram os maiores riscos que corri na vida mas o que antes era arriscado hoje é uma enorme felicidade.» Nenhum dos filhos herdou a doença da mãe, embora o Afonso tivesse nascido com um sopro inocente que, segundo os médicos, poderá desaparecer com a mudança de idade.

Mafalda tem dificuldade em explicar a maternidade por palavras, mas foi através dela que realizou os seus sonhos. Gostava de ter mais filhos caso pudesse «ter o privilégio de apreciar a gravidez na sua plenitude e sem sobressaltos». Tem uma vida normal e não necessita de cuidados especiais por ter um pacemaker. «Às vezes, até me esqueço que o tenho.» Faz vigilância em consultas regulares de cardiologia, não bebe, não fuma, pratica exercício físico e brinca com os filhos. «Mantêm-me jovem e ativa sem tempo para pensar em doenças. Dão-me força para ultrapassar as adversidades. Vivo por eles e para eles».

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Daniela Subtil, 35 anos
«O DANIEL QUERIA SER PAI, MAS PREFERIA ENVELHECER COMIGO»

Aos 35 anos, Daniela tem várias histórias para contar. Daquelas que dariam um livro. A sua juventude ficou pautada pela falta de saúde, fosse pela diabetes na adolescência, pelo tumor no cérebro, pela cirurgia aos olhos, por subitamente ter deixado de ver ou por um duplo transplante de órgãos depois de vários anos em tratamentos de hemodiálise. Anos mais tarde, uma vez que a diabetes progredira rapidamente, passava à volta de cinco horas, três dias por semana, em tratamentos de hemodiálise. «Aquilo não era para mim», diz. Foi-lhe proposto um duplo transplante – pâncreas e rins –, e ainda que a taxa de sucesso não fosse alta, achava que valeria a pena correr o risco. «Pior não podia ficar.» Hoje, tem uma vida normal com algumas restrições típicas de quem passou por um transplante e uma vigilância apertada com consultas de rotina, de três em três meses, no Hospital de Santo António, no Porto.

Vive com o namorado há quatro anos e é com ele que divide as angústias e os motivos de alegria. «Sempre pensei que engravidar seria impossível. Foi algo que sempre quis mas nunca me atrevi a sonhar.» Apesar de não ter planeado, até porque estava segura de que não engravidaria, quando recebeu a notícia sentiu uma mistura de emoções. Estava feliz mas tinha medo: «Pela minha saúde, pela do bebé que estaria em risco, ponderando se seria capaz e se teria coragem para as mudanças que a vida iria trazer», diz.

Os riscos de uma gravidez eram elevados. Apesar de Daniela e Daniel estarem juntos há poucos meses, tinham a certeza do que queriam. «Estávamos conscientes de que seria difícil, mas juntos conseguiríamos.» Margarida – Maggy para os pais – acabou por nascer prematura, às trinta semanas, com apenas 1575 gramas. «Agora era com ela, já não a podia proteger. Desde o primeiro segundo, teve de aprender a lutar pela vida.» Talvez isso explique o «sentido de justiça, a maturidade e responsabilidade» que vê na filha, apesar dos seus apenas 3 anos». Daniela gostava de voltar a ser mãe, mas tem noção do que isso implica. E durante a primeira gestação, o noivo fê-la prometer que, se corresse risco de vida, desistiria, nesse momento, do sonho. «Ele queria muito ser pai, mas preferia envelhecer comigo.»

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Inês Quintanilha, 32 anos, e Tânia Pinto, 41 anos
«SOMOS UMA FAMÍLIA COMO AS OUTRAS»

A vida de Inês Quintanilha e de Tânia Pinto tem sido um desafio permanente. Casaram-se em Portugal, em outubro de 2012, após sete anos de namoro. Não houve festa nem convidados. «Éramos apenas nós e um magnífico dia de sol», diz Inês. Sempre desejaram ser mães e correram atrás do sonho. «Quando sentimos que estava na altura, começámos a investigar opções e decidimo-nos por Espanha. Sem dramas.» Confessam que não tinham muita noção do que as esperava sobretudo pela exigência física e emocional de um tratamento de fertilidade. Após uma primeira tentativa, sem êxito, sabiam que teriam de passar por tudo novamente. «A cada tentativa falhada, o sentimento de frustração e de culpa aumentava», acrescenta Tânia, que, por ser a mais velha, foi quem se submeteu aos tratamentos propriamente ditos. «A Inês teve muita paciência com os meus humores devido à medicação e posteriormente devido à gravidez», revela. Artur nasceu no mesmo mês de casamento das mães e ao fim de quatro tratamentos de fertilidade. À luz da lei portuguesa, apenas Tânia é considerada mãe de Artur. E sente-se desprotegida. «Tenho a sorte de trabalhar num local magnífico, com uma chefia e colegas impecáveis. Mas imagine-se que assim não era: teria de ausentar-me do trabalho para ficar com o meu filho, doente?» Apesar de tudo, sentem-se umas privilegiadas. «Nunca sentimos o preconceito na pele. Somos uma família normal, com coisas boas e más como todas as outras», diz Inês. Gostariam de ter mais dois ou três filhos se as condições financeiras o permitissem e o Estado reconhecesse a Inês como mãe do Artur, não implicando que o adote. «E, não menos importante, que fosse possível a todas as mulheres (solteiras e lésbicas) recorrer a técnicas de procriação medicamente assistida livremente, sem necessidade de ir cometer o “crime” a Espanha», defende Inês. «Somos iguais a qualquer família. O Artur é um menino normal, curioso e interessado, mal-humorado quando tem sono ou fome, e feliz», diz Tânia.

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José Eduardo Soares, 53 anos
«O DIOGO É O NOSSO MILAGRE»

José Eduardo Soares tinha 18 anos quando descobriu que tinha um cancro no testículo. Teve de viajar com a mãe para Londres, onde viveu os oito meses mais longos da sua vida. Foi submetido a três cirurgias e fez vários ciclos de quimioterapia no Guy’s Hospital. Soube mais tarde que chegaram a dar-lhe dois meses de vida uma vez que a doença já se tinha espalhado para o estômago e os pulmões. «Andei adormecido e só despertei para a realidade depois da primeira cirurgia quando que me extraíram o testículo.» Sente que amadureceu. Às duras provas que teve de passar o deve. Lembra-se de chorar muito e de se sentir anorético. «Parecia um cadáver em pé, sem cabelo, sem pelos, muito pálido e demasiado magro.» Psicologicamente ficou arrasado. E foi também nesta altura que começou a pensar que talvez não conseguisse cumprir o sonho de ser pai devido aos efeitos secundários da quimioterapia. Esse foi o mote para uma conversa de quatro horas com um padre com quem desabafou, certo dia, naquele hospital de Londres.

Anos mais tarde conheceu a mulher, Paula, uma «estrela da sorte» que apareceu depois de uma fase mais conturbada e com quem acabou por se casar, aos 39 anos. Sabiam ambos que não iriam ser pais e viviam tranquilos com isso. Até ao dia em que Paula começou a sentir-se muito enjoada e decidiu ir ao médico por pensar que estaria com «uma crise de fígado». Apesar da enorme improbabilidade, os dois testes de gravidez que fez – numa farmácia e numa consulta médica – confirmaram que estava grávida. José ficou incrédulo. Passado o choque, optou por viver aquele que considera «o milagre da sua vida» em pleno. Emociona-se ao relembrar a primeira vez que ouviu os batimentos cardíacos do Diogo: «É indescritível.» A própria gravidez não foi fácil pois Paula teve um descolamento de placenta que a obrigou a estar três meses em repouso absoluto. «Foi como se me roubassem novamente o sonho.» Passados 13 anos, é com orgulho que fala do filho confessando-se um pai demasiado protetor. «O nosso filho é a nossa missão de vida.»

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Sara Melo, 39 anos
«O OTIMISMO FOI O MAIOR ALIADO DA GRAVIDEZ»

Dânia, Cíntia, Zaida e Alícia. Nomes invulgares para uma história pouco comum. As «fotocópias», como a mãe carinhosamente lhes chama, são quadrigémeas e nasceram há seis anos, sem que nada o fizesse prever e sem qualquer tratamento de fertilidade. Queriam muito dar um irmão à filha Miriam, 11 anos, na altura com 5. «Foi uma gravidez desejada com o intuito de tentar um rapaz», diz Sara Melo. Apesar de a sua barriga ser maior do que o normal, a notícia chegou na primeira ecografia. «Lembro-me de me rir imenso, provavelmente dos nervos.» Quanto a Edgar, costuma dizer «que andou em coma durante uma semana, em verdadeiro estado de choque». O casal não queria acreditar no que lhes acabara de acontecer. «Quando soubemos que eram quatro meninas, ficámos muito desiludidos.» Afinal, não seria desta que viria o rapaz desejado.

A gravidez decorreu tranquilamente apesar do elevado risco. «Fazia as minhas coisas em casa e tinha uma vida normal, mas a passo de caracol.» Teve de lidar com as incertezas em relação ao futuro. Conseguiu manter uma atitude otimista – que ainda hoje a guia nos dias mais complicados – e acredita que foi esse «o maior aliado da gravidez». As meninas nasceram na Maternidade Dr. Alfredo da Costa, em Lisboa, a 22 de junho de 2009, às 33 semanas após quatro de internamento de Sara. Volvidos seis anos, os dias são longos e muito cansativos. «São crianças energéticas e tagarelas. Além das habituais queixinhas, ainda choram bastante quando contrariadas, especialmente quando se chateiam entre si», diz Sara. Já lá vai o tempo em que conseguia «ter a casa em ordem». Teve de aprender a deixar algumas coisas de lado «para não enlouquecer». Conta com a ajuda dos «incansáveis avós», pais de Sara.

Sente que mudou muito nestes anos. «Aprendi imenso, fiquei mais forte e segura de mim, mas sei que me perdi algures.» Tenta enfrentar o desafio que a vida lhe lançou da melhor forma. «Sei que para tratar das quatro “menosprezei” a mais velha, que me deveria ter sentado no chão, naquela vez, para brincar com ela. Ou ter aproveitado para fazer mais umas cócegas à Zaida ou ter tirado mais uma foto à Cíntia. Hei de falhar muito mais vezes», diz. Uma saída a dois com o marido é algo utópico. Aconteceu uma única vez nestes seis anos, numa festa local, no Montijo, onde moram. As quadrigémeas são motivo de comentários e olhares indiscretos, situação a que Sara se foi habituando ao longo do tempo. Gostava apenas que as pessoas «parassem de olhar fixamente e se poupassem aos comentários. Elas não gostam»

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Cláudia Nunes Pereira, 41 anos
«O TOMÁS ESTEVE VÁRIAS VEZES EM RISCO DE VIDA»

Já tinham uma menina, a Francisca, mas desejavam outro filho. Não seria tarefa fácil devido ao «útero septado, decorrente de uma membrana que divide em dois o útero» de Cláudia Nunes Pereira. Durante dois anos, as tentativas de engravidar falharam. Até ao dia em que decidiu fazer um teste de gravidez. Não esperou pelo resultado deitando-o no caixote do lixo. Foi o marido Pedro que acabou por lhe dar a notícia de que estava grávida depois de resgatar o teste e impedir que fosse parar ao contentor.

Nove semanas depois, não se sentia muito bem e decidiu procurar ajuda. Teve de ficar em repouso absoluto e aguentou um mês até ao dia em que uma enorme hemorragia a obrigou a ficar internada no Hospital São Francisco Xavier, em Belém. Era importante adiar o parto e aguentar a gravidez o máximo de tempo possível. Mas Tomás teve pressa de nascer e com apenas 25 semanas e cinco dias de gestação decidiu conhecer o mundo. Nasceu com 628 gramas e 38 centímetros. O que se seguiu foi uma verdadeira luta. «O Tomás esteve várias vezes em risco de vida. Passou quatro meses nos cuidados intensivos neonatais do hospital e teve muitas intercorrências durante o internamento, entre três sepsias, retinopatia da prematuridade (foi operado aos dois meses), dois derrames cerebrais de grau 1, entre outros desafios», recorda Cláudia. Foram tempos de muita «tristeza e angústia» misturados com «fé e esperança». Vivia-se uma «montanha-russa de emoções mas sabíamos que o Tomás não poderia estar em melhores mãos».

Enquanto casal, a prematuridade teve «enorme impacto. Vivem-se dias de grande stress que acabam por prejudicar as rotinas familiares», diz Cláudia. Hoje com 4 anos, Tomás é uma criança «saudável» e pertence ao grupo de apenas «25 por cento de crianças que sobrevivem bem e sem sequelas». Faz atualmente terapia ocupacional e é também acompanhado em consultas de pediatria, fisiatria, desenvolvimento, audiologia, nefrologia e oftalmologia. «Tem uma enorme vontade de viver. É muito meigo, inteligente e adora pregar partidas.» O casal não põe a hipótese de voltar a tentar um filho biológico. Gostariam de adotar uma criança, desejo que os acompanha há anos.

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Rute Simões, 37 anos
«GOSTO DE VER O MUNDO ATRAVÉS DOS MEUS FILHOS»

A «impossibilidade» de ser mãe chegou aos 21 anos. Desde cedo, na adolescência, sofria muito com a menstruação, algo que achava normal. Chegou a tomar 15 comprimidos por dia para suportar as dores. «Passava horas enrolada sobre mim, a chorar ou a gritar, seguindo-se anos de sofrimento e dezenas de ecografias», diz Rute Simões. Não sabia o que tinha mas sentiu na pele incompreensão e diagnósticos errados, como o de que «teria dois úteros» ou de que «estaria a inventar dores». O maior choque chegou quando, brutal, um médico lhe disse: «Pode tirar os ovários, que não estão aí a fazer nada.» Recorda-se de ter saído do consultório a «chorar convulsivamente». Ser mãe não era algo que desejasse e nem sequer fazia parte dos seus planos nem do namorado, Hugo, atual marido. «Mas entre não ter pensado em ter filhos e dizerem-me que não poderia tê-los vai uma grande distância.» Cerca de um ano depois, foi consultada por outro médico e o seu problema passou a ter um nome: endometriose. «Senti uma enorme gratidão ao ouvir um diagnóstico que fazia sentido e que me foi explicado corretamente.» Uma das consequências desta doença crónica é a infertilidade, algo que Rute já tinha dado como garantido. Até que deixou de tomar a pílula. «Achei que não fazia sentido continuar a tomar.» Passado um mês estava grávida e sete anos depois espera o terceiro filho. O David, de 7 anos, e o Diogo, de 4, são «muito parecidos e muito diferentes». Cada um com o seu mundo sem se «afastarem muito um do outro». Rute confessa-se «deliciada a apreciar duas sombras, de rosto e gestos iguais, um maiorzinho e outro mais pequeno» e gosta de «ver o mundo através do olhar deles». A poucos dias do nascimento de Vasco, Rute diz que todos os dias, antes de adormecer, vai ter com cada um dos filhos. Fica junto a eles, a vê-los e a senti-los. «Caso tivesse dado ouvidos ao primeiro médico e tirado parte de mim teria perdido todo este amor.» Não perdeu. «Fico maravilhada com o que o nosso corpo consegue fazer.» À terceira não parece ser de vez pois Rute e Hugo gostariam de ter mais filhos.