OPINIÃO

«Salvar uma vida é uma felicidade»

Há gente que não se acomoda à vida confortável que tem nem se conforma com a injustiça das vidas difíceis com que se cruza mundo fora. Esta semana, damos-lhe a conhecer cinco pessoas que fazem a diferença. Fernando Pinho é uma dessas pessoas.

Fernando passa temporadas na Birmânia a garantir que crianças com cancro tenham acesso ao hospital. Marta está numa favela no Quénia a ajudar 76 rapazes e raparigas a estudar. Helena ajuda meninos das ruas de Moçambique, Teresa apoia órfãos da sida no mesmo país e Carlos faz cirurgias de guerra no Sudão. Todos sentem que há muito por fazer. Eis a história de Fernando Pinho.

Foi a vontade de ajudar a mudar um bocadinho o mundo que levou Fernando Pinho, de 40 anos, a passar noites inteiras em aeroportos europeus. Queria chamar a atenção para o seu projeto solidário: ajudar as crianças com cancro da Birmânia que não têm dinheiro para chegar ao único hospital oncológico pediátrico do país – o Yangon Children´s Hospital. Conseguiu: angariou dinheiro, montou uma organização não governamental (ONG) e este ano avançou com um projeto piloto dando apoio a 140 destas crianças naquele país do sul da Ásia. Além disso, ele e a sua equipa de voluntários deixaram lá um fundo financeiro para que o hospital possa ajudar mais duas crianças por dia. Ao todo, haverá 2700 para tratar.

«Na Birmânia, 90 por cento das crianças com cancro não são tratadas porque não têm forma de ir ao hospital. Demoram entre um a quatro dias na viagem e não têm dinheiro, pois muitas famílias têm apenas um euro por dia.»

«Na Birmânia, 90 por cento das crianças com cancro não são tratadas porque não têm forma de ir ao hospital. Demoram entre um a quatro dias na viagem e não têm dinheiro, pois muitas famílias têm apenas um euro por dia. Nós garantimos o transporte», explica Fernando, adiantando que a experiência já revelou boas noticias: os miúdos estão a fazer mais do que a primeira sessão de quimioterapia, o que até agora era quase impossível, pois aqueles, poucos, que iam ao primeiro tratamento desistiam e não voltavam para o segundo. Muitas famílias vendem tudo para pagar as deslocações, outras pedem empréstimos ilegais.

A ideia de ajudar estas crianças surgiu-lhe por acaso, quando conheceu a World Child Cancer. No ano de 2013, a sua vida deu uma volta enorme ao ter desistido do sonho de ser produtor de teatro para ajudar os outros. A opção de vida começou a surgir na sua cabeça há onze anos. «No dia dos meus anos, o meu pai contou-me que o meu irmão mais novo tinha leucemia. Caiu-me a ficha». Envolveu-se no combate à doença do irmão e, entretanto, desistiu da carreira que tinha na Sonae, onde estava desde que acabara o 12º ano, e foi para Inglaterra, em 2006, estudar arte para a The Guildhall School of Music and Drama, uma das melhores escolas do mundo. Produziu musicais, como o Last Five Years, e até fez parte da equipa da Flauta Mágica para a Royal Opera House, mas em 2013, depois de a filha Amélia nascer, sentiu de novo vontade de mudar e abdicou da carreira. «Apesar de gostar muito de arte, senti que a minha missão era fazer algo pelos outros».

Foi aí que, nos contactos feitos, descobriu a World Child Cancer. Quando soube o que se passava na Birmânia, ficou chocado. Contaram-lhe que havia falta de transportes e, como aos 18 anos tinha tirado um curso de piloto em Portugal, percebeu que era esse o seu destino. Montou ele próprio uma ONG que batizou de «Amélia» – e que entretanto se passou a chamar «Please take me there» por se ter internacionalizado – e hoje dedica-se em exclusivo a este projeto solidário.

Por enquanto não ganha nada, contando com a ajuda da mulher, advogada, com quem vive em Inglaterra. Sente-se feliz por ajudar estas crianças. Em fevereiro, quando um dia estava a sair de uma reunião num hospital birmanês, viu uma criança a chorar à porta. Estava a fazer um ciclo de quimioterapia e por isso vivia com a família há dois meses, ali, na rua, à porta da unidade de saúde. Pagou-lhe a viagem de 25 euros até casa, em Yeyawarddy, o Estado mais pobre do país. Desde aí, a sua organização paga-lhe todas as viagens. Quando, no passado mês de outubro, Fernando esteve na Birmânia encontrou a criança de novo: «Foi um choque. Ela está muito mais forte e nunca mais faltou a nenhum tratamento». Ao salvar uma vida como esta «sente felicidade», mas também frustração: «Custaria tão pouco ajudar estas crianças…», diz. Fernando prepara-se agora para começar a angariar novos fundos para que, em 2017, consiga garantir transporte para todas as famílias que chegam ao hospital ou que sejam referenciadas por outros organismos. «Aqui em Portugal 80 por cento das crianças são curadas. Lá, 80 por cento morrem», diz, desabafando: «Há tanto por fazer…».

Conheça também a história de Marta Baeta, Helena Ribeiro Telles, Teresa Paiva Couceiro e Carlos Ferreira.