OPINIÃO

Feliz Natal. E parabéns!

Quando o aniversário se confunde com o Natal.

Para quem faz anos a 24 ou 25 de dezembro, a comemoração do próprio nascimento nem sempre é a principal festa do dia. Como não deixar que o Pai Natal ou o Menino Jesus roubem o protagonismo do dia de aniversário.

Quase todos os anos as televisões fazem reportagens sobre bebés que nascem no Dia de Natal. Os pais, inevitavelmente, dizem que eles são o melhor presente que poderiam ter recebido. Mas a maioria deles não sonha que aquela criança vai passar muitos anos de vida a sentir que não tem um dia só dela. Daí para a frente, ano após ano, competir com o Natal e transformá-lo no dia de aniversário é quase sempre um combate perdido: quando têm a sorte de ter direito a presente de anos, recebem-no embrulhado em papel de Natal. E, claro, dificilmente conseguem reunir os amigos para uma festa, há anos em que ninguém lhes canta os Parabéns e o bolo de aniversário, quando existe, fica esquecido entre os sonhos e as rabanadas.

Para a psicóloga Vera Lisa Barroso, faz todo sentido separar as duas comemorações. E, com alguma criatividade, estes aniversários também podem ser transformados em dias fabulosos. «Nem sempre é simples destacar um aniversário em pleno espírito natalício, mas uma das soluções é planear um programa específico para o comemorar.» Naturalmente que há sempre o consolo mais antigo do mundo: pensar que há outros na mesma situação. Mas nem esse serve de muito, já que não se está propriamente muito acompanhado: de acordo com um estudo feito pela Universidade de Harvard, em 2006, o dia 25 de dezembro é, estatisticamente, o menos comum para se nascer, só precedido pelo 29 de fevereiro, que só existe em anos bissextos.

Sofia Maltez já comemorou 50 aniversários e 50 natais. A criativa publicitária vai fazer anos no dia 25 de dezembro e garante que não é fácil dividir o protagonismo com o Menino Jesus.

A família, enorme, junta-se sempre no Dia de Natal, mas precisamente e apenas por ser Dia de Natal, não recorda que em criança houvesse grande celebração do seu aniversário. «Cantavam-me os Parabéns, mas o bolo era o resto de um bolo qualquer da noite anterior. Festa com os amigos também não havia porque o Natal era passado com família fora de Lisboa.» E direito a dois presentes, um por cada ocasião, só começou a ter por volta dos 20 anos, quando a família percebeu que ela definitivamente não achava graça nenhuma à conversa «é prenda de anos e de Natal». Mas há um 25 de dezembro, há muitos anos, que Sofia consegue recordar como seu dia de aniversário. Tinha 14 anos e fez uma viagem à África do Sul, no dia 25 estava a regressar a Portugal e, a meio do voo, uma hospedeira trouxe um bolo de aniversário e os passageiros cantaram-lhe os Parabéns. «Foi uma coisa extraordinária para mim. Uma série de gente que eu não conhecia de lado nenhum a cantar-me os Parabéns. Fiquei emocionada porque acho que nunca tinha tido um bolo de aniversário antes.» De resto, a única vez que conseguiu fazer uma comemoração do aniversário com amigos no próprio dia foi quando fez 18 anos. «Com amigos, voltei a comemorar aos 20, aos 40 e agora aos 50, mas sempre um dia depois, a 26. A 25 nunca ninguém pode.»

Fazer a festa de aniversário noutro dia não é uma opção apenas para quem fez anos no período do Natal. A altura da passagem de ano, Páscoa e férias de verão são pouco populares.

Sobretudo entre os mais novos, porque acabam por lhes roubar uma das coisas de que mais gostam: a festa com os amigos. Mas não é nada que não tenha solução. «Embora se deva ficar atento para ver se a criança fica ou não satisfeita com essa decisão, estes são casos em que há pais que decidem fazer a festa até seis meses antes», diz a psicóloga Daniela Esteves.

De facto, não se pense que apenas o dia 24 e 25 são problemáticos. André Demony, 40 anos, realizador e documentarista, celebra o aniversário no dia 23 de dezembro e nem por isso teve a vida muito mais facilitada. A mãe sempre tentou separar o aniversário do Natal, mas os seus esforços não tiveram grande sucesso. «Habituei-me a que o meu aniversário estivesse sempre em segundo plano. É uma altura de stress para toda a gente – compras de última hora, reuniões familiares, muito atrito e ansiedades a vir ao de cima. E pode parecer estranho, mas este é um detalhe que pode ter influenciado a minha personalidade. Durante muito tempo senti que os meus problemas eram sempre secundários perante outras questões ou problemas dos outros. Claro que isto se pode relacionar com muitas outras coisas, mas eu sempre senti que o Natal tinha sequestrado o meu momento.»

Daniela Esteves está longe de achar estranho. «Não podemos esquecer que um aniversário é a celebração da existência de vida de uma pessoa e o facto de não ser celebrada com a devida atenção poderá ter algumas consequências, principalmente nas crianças. Para muitos pode parecer insignificante, mas para alguém que vive todos os natais assim a falta de atenção sentida pode ser bastante dolorosa.» Sobretudo porque desde crianças temos tendência a fazer comparação com os outros e não queremos ser diferentes. André, por exemplo, confessa que essa diferença era uma das coisas que mais lhe pesavam. Tanto que chegou a mentir descaradamente a esse respeito. «Era também a questão do reconhecimento social fora de casa, claro. Todos os outros miúdos tinham uma pequena festa na escola e eu não porque estava sempre de férias. Um ano, durante a primária, um dos miúdos fez anos no dia 22 de novembro e, no dia seguinte, menti e disse aos meus colegas que também fazia anos.» O dia 23 ainda representava mais um problema: «As pessoas mesmo de família não me vinham ver no dia de aniversário porque me iam ver daí a um dia ou dois no Natal.»


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A psicóloga Daniela Esteves sugere que se aceite sempre o aniversário como uma ocasião festiva importante, porque «parte da deceção surge do sentimento de desmerecimento ou privação». E tenta apelar ao otimismo, até porque também há vantagens em celebrar o aniversário nestas datas. «É um ótimo pretexto para não ser o cozinheiro principal ou o anfitrião das festas de Natal. Além disso, as pessoas estão num estado festivo e bem-humoradas e é mais provável ver mais pessoas na altura do aniversário do que se fizesse anos noutra data. E mais: como é Natal não se tem de trabalhar ou ir à escola no dia de anos. Existem mesmo muitas pessoas que gostam de ter o aniversário no Dia de Natal e até se consideram especiais por isso mesmo.»

Otimista quanto baste é Susana Castanheira que se livrou por pouco do destino de comer bacalhau cozido no jantar de aniversário durante muito tempo: nasceu à 00h30 de dia 25 de dezembro. E garante que, agora, fazer anos a 25 de dezembro até é muito conveniente. «Aos 44 já não fazemos questão de celebrar mais um ano e, além disso, sentimo-nos sempre mais jovens quando fazemos anos no último mês do ano.»

Hoje, a viver em Cabo Verde há três anos e meio, onde tem um restaurante, quase se esqueceu de que o dia 25 de dezembro é outra coisa que não o seu dia de anos. «Acabei com o Natal. Celebro o dia no mar e ao sol, em biquíni. Aqui não há montras natalícias, não há ruas enfeitadas, não há Pai Natal… E é tão bom.» Afinal, o Natal é quando um homem quiser. Neste caso, quando uma mulher não quiser.

Sofia Teixeira
Fotografia Shutterstock