Estes doces não fazem mal aos dentes

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As guloseimas Doctor Gummy podem revolucionar a indústria farmacêutica.

Tudo começou quando Nuno Santos criou guloseimas saudáveis para medicar as crianças. Depois pensou também na obesidade infantil e alargou-as à alimentação. É já depois do verão que a Doctor Gummy sai para mercados e farmácias, pronta para revolucionar a saúde mundial.

Na opinião de Nuno Santos, ao dar com o problema em 2008, alguma coisa tinha de ser feita. Acabara o curso de engenharia química e pensava no futuro pela frente, um sentimento novo e inquietante. Também era voluntário na Associação das Escolas Jesus, Maria, José do Monte Pedral – uma instituição particular de solidariedade social no Porto, com 140 anos – e adorava tudo menos ver a luta das crianças e dos velhinhos na hora de tomar os remédios. Quem disse que só cura aquilo que arde ou sabe mal? Alguma coisa tinha de ser feita, de facto, mas o quê? E então teve a impressão de ter cruzado um umbral: como seria tratá‑los com gomas? Fazê‑las naturais, com o princípio ativo dos medicamentos, e pôr fim a maleitas e gritos de uma penada? Foi o início da Doctor Gummy, a empresa de doces que está já a revolucionar a saúde a nível mundial.

«As bases deste conceito assentam na produção de gomas, chupas, rebuçados, pastilhas e chocolates mais saudáveis – nenhum dos quais contem açúcar, glúten, lactose, amido, sal, corantes, aromatizantes ou conservantes artificiais –, a que adicionámos o princípio ativo dos medicamentos tradicionais», revela o empreendedor de 30 anos, a dar agora os últimos retoques na ideia mais gostosa que alguma vez teve. «Estamos a preparar o lançamento para depois do verão, ainda sem data marcada. Enquanto isso remodelamos o site para acolher a loja online da Doctor Gummy, onde o consumidor final e pequenos retalhistas podem ter um primeiro contacto com o produto em agosto.» A atenção aos pormenores tem sido a alma do negócio desde que começou.

«Desde 2008, por razões óbvias, o processo de investigação foi mantido em sigilo para ir avançando», diz. Podia estar tudo pronto há mais tempo se se limitasse aos doces no âmbito farmacêutico. «Esse era o meu ponto de partida, com o objetivo de facilitar a administração de medicamentos a crianças e idosos e, ao mesmo tempo, ser uma alternativa a tornar o sabor dos fármacos mais tolerável, sem passar pela adição de açúcar, adoçantes e aromatizantes sintéticos.»

Após muito pesquisar, Nuno ficou perplexo ao descobrir que grande parte da medicação pediátrica se excede nos açúcares, em alguns casos com taxas superiores a 80 por cento – só isso valeria qualquer esforço da sua parte.

Por outro lado, também lhe fazia sentido desenvolver a vertente alimentar propriamente dita, aliviando as famílias de cáries, diabetes e obesidade. «Num momento em que vários problemas de saúde afetam cada vez mais pessoas, sobretudo crianças, não dava para ficar alheio ao peso das guloseimas nesta problemática», diz. Não descansou até conseguir que os clientes possam abrir um pacote dos seus ursinhos e experienciar todo o sabor, a textura e o aspeto dos doces comuns, deixando de fora os malefícios que provocam. «As gomas são o primeiro produto a comercializar em breve, tanto nas farmácias como na loja online, desde já a disponibilizar a venda na União Europeia.» Se tudo correr conforme prevê, seguem‑se rebuçados, chupa‑chupas, pastilhas elásticas e chocolates, com os respetivos preços divulgados a cada lançamento.

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«Certas marcas de guloseimas foram tendo algumas preocupações, porém continuam a ser ineficientes: não têm glúten mas tem açúcar, não têm lactose mas têm glúten, e por aí vai. Mesmo as que não contêm açúcar utilizam adoçantes sintéticos, por vezes ainda mais prejudiciais para o organismo», sublinha o empreendedor. As suas levaram meia dúzia de anos a aperfeiçoar em parceria com laboratórios, empresas, hospitais (incluindo o de São João) e universidades (incluindo a Católica do Porto), na Europa e fora dela, ate atingir a million‑dollar fórmula: gulodices ricas, luzidias como joias e… saudáveis. «A nossa quantidade de fruta é de 20 por cento, quando as marcas tradicionais usam geralmente entre 1 e 3 por cento», adianta, orgulhoso. «Para dar cor servimo‑nos apenas de legumes e vegetais: cenouras, espinafres, abóbora.»

Em janeiro de 2014, atingidas as formulações finais das várias guloseimas, fundou oficialmente a Doctor Gummy, gerada na Incubadora Social Informa (da Associação do Monte Pedral) e vencedora do programa Acredita Portugal, disputado por mais de 14 mil ideias a concurso. No ano seguinte arriscou ir à primeira edição do programa televisivo Shark Tank Portugal e garantiu investimento de três «tubarões»: 50 mil euros para aplicar no projeto, em troca de 5 por cento da empresa e da opção de comprarem mais 25 por cento num ano. Ainda em 2015, venceu o prémio de Inovação em Saúde do Creative Business Cup, em Copenhaga, Dinamarca, tendo sido apontada pelos «olheiros» do ramo como uma das jovens promessas deste ano a internacionalizar‑se após obter capital de risco.

«Somos uma start‑up alimentar de estrutura reduzida. Nesta fase interessa‑nos ser ágeis para nos adaptarmos às exigências do mercado e ter o foco no que realmente nos importa, que é contribuir para uma sociedade mais saudável», sublinha Nuno Santos, sem querer parar aqui: «A nossa investigação prossegue para desenvolvermos outros produtos alternativos que façam sentido.» Conta tornar a Doctor Gummy uma marca internacional no futuro, reconhecida na indústria alimentar «pela criatividade, a inovação e os benefícios» que traz ao consumidor. Até lá, acredita estar no sítio e no momento certos. Não tem pressa. «Estamos mesmo muito focados na promoção de um mundo melhor e Portugal tem um posicionamento geoestratégico favorável para se inovar no século XXI.»

UM SEGREDO BEM GUARDADO
«Quando se fala de um produto inovador, ou que promete revolucionar um setor, importa proteger o conhecimento resultante da investigação», explica Nuno Santos, que registou duas patentes nacionais e uma internacional para resguardar a alma do negócio. «As três focam‑se no saber que obtivemos ao longo do processo de pesquisa – quer no âmbito alimentar quer no farmacêutico – e conferem‑nos uma vantagem competitiva ao impedir a entrada de concorrentes num período de vinte anos.» A partir daí, tendo decidido que não queriam produzir nem distribuir as guloseimas‑medicamentos, licenciaram a tecnologia a laboratórios farmacêuticos para fazerem bom uso do modelo por ele criado. Já na vertente alimentar, em vez de licenciarem, subcontrataram a produção dos doces (feitos na Alemanha e na Suíça) e estabeleceram acordos de distribuição com o mercado. O engenheiro químico determinou ainda que parte dos lucros da Doctor Gummy seria aplicada em projetos de saúde, educação, sustentabilidade, empreendedorismo e inovação: se a start‑up nasceu no seio das Escolas do Monte Pedral, parecia‑lhe certo retribuir, de algum modo, esse apoio decisivo. «Acreditamos no valor partilhado e na geração de impacto», justifica Nuno, cuja decisão valeu à empresa o selo Vitamina S, a certificar o seu compromisso em matéria de solidariedade social. «Também isso representa a nossa promessa de continuar a fazer mais e melhor.»

GULOSEIMAS DESCOMPLICADAS

NÃO TÊM AÇÚCAR.
É a Organização Mundial de Saúde (OMS) que o diz: a ingestão elevada de açucares livres está associada à má qualidade do regime alimentar, obesidade, cáries, doenças cardiovasculares, hipertensão, acne, miopia e muitos outros problemas graves.

NÃO TÊM LACTOSE.
Estima‑se que a intolerância à lactose – condição que ocorre quando o intestino delgado não produz suficiente enzima lactase para dividir o açúcar lactose nos seus componentes mais simples, para ser absorvido pelo organismo – afete cerca de 90 por cento da população mundial adulta.

NÃO TÊM GLÚTEN.
Já foi preocupação exclusiva dos doentes celíacos, cuja sensibilidade a esta proteína presente em trigo, cevada e centeio leva a uma reactor imunológica contra o próprio intestino delgado. Mas todos ganhamos em diminuir o glúten.

NÃO TÊM AMIDO NEM SAL.
Açúcares fermentáveis como o amido provocam cáries, sobretudo se a higiene oral e o uso de flúor são insuficientes. Quanto ao sal, associado a uma série de doenças crónicas, a OMS limita o seu consumo a cinco gramas diários, quando 93 por cento das crianças portuguesas consomem uma media de 8,5 gramas.

NÃO TÊM CORANTES OU AROMATIZANTES ARTIFICIAIS.
Os primeiros estarão associados a alergias, hiperatividade, dificuldade de concentração nas crianças e pioria de sintomas de asma. Aromatizantes em excesso podem ter efeitos alérgicos e narcóticos, alterar o comportamento e retardar o crescimento.