OPINIÃO

Reaprender a viver

E quando a universidade sénior é um escape para um contexto familiar e social duro?

Dançam, cantam, têm aulas de música, de teatro, de cake design, fazem ginástica e convivem. Alguns ganham um novo ânimo e encontram na Universidade Sénior de Montemor-o-Velho um escape para as rotinas de um contexto familiar e social duro. Trocam o sofá por atividades que lhes dão mais ânimo e promovem um estilo de vida saudável. «Melhor do que um ansiolítico», defendem.

Foi há dois anos que José Pires arranjou uma alternativa para a vida triste que levava. Reformado, morador em Santana, uma localidade da Figueira da Foz, vivia «muito mal» devido ao falecimento dos seus dois filhos. Foi convidado por um amigo a frequentar a Seniormor – Universidade Sénior de Montemor-o-Velho promovida pela Santa Casa da Misericórdia do concelho. Aceitou o desafio sobretudo «para se distrair» e a decisão foi uma aposta ganha. Inscreveu-se em quase todas as atividades: ginástica, dança, teatro e participa ainda na tuna, onde passa algumas horas das semanas. «Reaprendi a viver», diz.

José teve de derrubar alguns preconceitos. «Achava que isso da universidade era para os mais novos. Estava enganado.» Nota que aos poucos vai dando tréguas à tristeza e à dor. «Faz-me muito bem à moral e à saúde. Andava sempre triste e agora já não.»

Ofélia Santos, de 68 anos, sempre gostou de cantar, mas diziam-lhe que era desafinada. Nem isso a desmotivou e é com «muita alegria» que participa na tuna. «Não sei se aceitam a minha desafinação ou se, de facto, canto alguma coisa», confessa. Fez amigos, juntou-se ao grupo e, mesmo quando vai com menos vontade às aulas, sai de lá sempre «muito mais bem-disposta».

A tuna já atua fora de portas, nomeadamente em lares e escolas do concelho. Tudo por «culpa» do projeto Viver a Aprender, que ganhou em novembro passado o Prémio BPI Seniores. Com os 25 861 euros atribuídos, foi possível comprar novos equipamentos para melhorar as aulas de aproximadamente sessenta idosos. A meta é chegar a cem alunos no próximo ano letivo. «Tínhamos aulas de ginástica com steps feitos pelos próprios alunos, de madeira, como se fosse um banquinho, mas mais baixo. Usávamos paus de vassoura e balões. Era o possível. Com este prémio, conseguimos comprar steps em condições e muito mais seguros para evitar quedas, uma passadeira, uma bicicleta, um remo, uma elítica e bolas de Pilates», explica Cristiana Almeida, técnica de projetos da Santa Casa da Misericórdia de Montemor-o-Velho (SCMMV).

As aulas de música eram dadas com os instrumentos musicais do professor, que os emprestava voluntariamente, mas atualmente os alunos já podem usufruir de uma aparelhagem, uma viola, um acordeão, cavaquinhos e microfones. Para as aulas de cake design, foi adquirido um forno, que veio dinamizar e permitir que os alunos confecionassem os bolos na sala em vez de terem de fazê-los em casa. No âmbito deste projeto, será ainda criada uma área de intervenção social com grupos de voluntários capazes de organizar programas de visitas a idosos isolados e de promover atividades lúdicas e inclusivas.

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As aulas são gratuitas e realizam-se de segunda a sexta-feira da parte da tarde. Existe um horário com aulas fixas bem como um conjunto de atividades extracurriculares. «Antes deste projeto, os seniores ficavam em casa a ver televisão, a dormir e a deprimir. Muitos dos nossos alunos comentam que estas aulas têm mais efeito do que “um ansiolítico” porque quando se reformaram deixaram de ter algo estimulante para fazer», revela. «É um mundo de oportunidades que se abre. Não queremos que sintam que são um estorvo porque são um repositório imenso de conhecimentos», acrescenta Manuel Carraco dos Reis, provedor da SCMMV.

Rui Santos é um dos 22 professores que voluntariamente disponibilizam o seu tempo para os outros. Ensina informática com outro colega e o sucesso é tal que já não é possível trocar horários. Mas não se fica por aqui pois também participa na Seniormor como aluno. «No começo, tínhamos apenas uma turma. Hoje temos quatro. É impressionante a forma como estão motivados, como partilham o espaço e como interagem uns com os outros.»

Não será para admirar que Natália Morais, a aluna mais idosa, seja, do alto dos seus 90 anos, também uma das mais participativas. E que António Gil tenha orgulho em afirmar que é o aluno veterano «com mais anos de matrículas».

Dar vida aos anos e envelhecer a aprender não só é possível como marca a diferença na vida destas pessoas. Para melhor.

Na Seniormor – Universidade Sénior de Montemor-o-Velho, da Santa Casa da Misericórdia do concelho, música, dança, ginástica e tuna são algumas das atividades disponíveis. Graças ao projeto Viver a Aprender, que ganhou o Prémio BPI Seniores, foi possível comprar novos equipamentos para melhorar as aulas dos cerca de sessenta alunos.

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ENVELHECIMENTO SAUDÁVEL
Das 26 171 pessoas que habitam em Montemor-o-Velho, concelho pertencente ao distrito de Coimbra, 5846 têm mais de 65 anos, segundo os censos de 2011, disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística. Em resposta às necessidades dos seniores montemorenses e aos de concelhos limítrofes, a SCMMV criou, em junho de 2010, o Seniormor tendo o primeiro dia de atividades iniciado em março do ano seguinte. O objetivo é promover a aprendizagem ao longo da vida e contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos idosos.