Sting: «Os meus filhos não estão à espera que lhes dê uma batelada de dinheiro»

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A família, a política internacional e a vaidade cabem nesta entrevista com o músico.

Se pudesse, Sting teria votado em Hillary Clinton. E votou a favor da permanência do Reino Unido na União Europeia. Não ficou feliz com nenhum dos resultados e até é capaz de escrever alguma canção sobre isso. Para já, tem dez novas para divulgar, no novo álbum que acaba de lançar. Uma entrevista exclusiva ao músico britânico de 64 anos – quem é que diz que este homem tem 64 anos? –, que gosta de envelhecer com estilo e não quer que os filhos herdem a sua fortuna.

Já esteve várias vezes em Portugal. A primeira foi, creio, em 1980, a última foi no ano passado. O que se lembra do país? O público, os concertos, os sítios, as pessoas, a comida, o vinho, o tempo, as praias…?
Da última vez que estive em Lisboa – só conheço Lisboa – dei um passeio de barco até à foz do Tejo. Estava um dia bonito, sem sol mas com umas nuvens bonitas. Habitualmente tenho apenas oportunidade de conhecer aeroportos, estradas, hotéis e locais de concertos. Mas aquele passeio de barco deu-me para sentir um pouco o que é o país, para variar. Descer o rio e ver as duas margens do Tejo foi bom. Gostava de conhecer melhor, ainda.

Nunca esteve de férias para Portugal?
Não. Habitualmente vou para Itália.

Onde tem uma casa. E tem casas também nos EUA. E aqui, no Reino Unido. Veio cá votar no referendo sobre o brexit?
Sim, claro. Votei para ficarmos. A minha mulher também. Somos europeus e acreditamos que o nosso futuro devia passar por um continente unido. O referendo foi um grande erro. Culpa do governo, claro.

Ficou surpreendido com o resultado? Ainda está em choque com o resultado?
Toda a gente ficou. Era o assunto errado para colocar num referendo. Temos um sistema parlamentar muito sofisticado, pagamos aos políticos para tomarem estas decisões com a ponderação necessária, depois de muitos debates e leis. É um processo lento e complexo. Perguntar a uma pessoa normal na rua para responder «sim» ou «não» a uma pergunta dessas, quando ela não está preparada para isso, foi um enorme erro. É um assunto demasiado complexo para uma resposta «sim» ou «não».

Já pensou em escrever uma canção sobre isso?
Eu ainda estou perplexo com isto tudo. E confundido, também. Na verdade, estou sobretudo desapontado. Só seria capaz de escrever uma canção sobre o brexit se conseguisse encontrar uma metáfora adequada. Mas é um drama que ainda está a decorrer. Não sei qual será o resultado final [quando a entrevista foi feita, não era ainda conhecida a decisão do Tribunal Superior britânico sobre a discussão do brexit no Parlamento].

Passa mais tempo aqui no Reino Unido ou nos EUA?
Sobretudo em Nova Iorque. É onde me sinto em casa, mais do que em qualquer outro sítio no mundo. É onde está a minha família.

Por falar em família: alguns dos seus seis filhos são músicos. E vivem disso. Disse numa entrevista há dois anos que não lhes vai deixar muito dinheiro de herança, muito menos fundos fiduciários. Porquê?
Bom, não vou deixá-los na miséria. Mas eu e a minha mulher vimos da classe média. Não viemos ao mundo com uma grande quantia de dinheiro nas nossas famílias. Tivemos de fazer dinheiro. Por isso acreditamos que os filhos devem ter o mesmo privilégio: construir a sua própria riqueza. Eles são independentes, não estão à espera que lhes dê uma batelada de dinheiro. Paguei a roupa deles, a alimentação e a educação Viveram em sítios lindos. Agora são independentes. E sentem essa satisfação de poderem ser eles próprios e ganhar dinheiro com o que estão a construir.

Acha que isso é importante para lhes fortalecer o caráter?
Sem dúvida. A pior coisa que se pode fazer a uma criança é dar-lhe um milhão de dólares.

Foi o que fez o pai de Donald Trump. Deu um milhão de dólares ao filho.
E veja no que ele se tornou [risos].

Está preocupado? Seguiu a campanha com atenção [esta entrevista foi realizada antes das eleições de dia 8 de novembro]?
Sim, claro. Acho que Trump é completamente desqualificado, emocionalmente e intelectualmente, para aquele trabalho.

Se pudesse votar, o seu voto iria para Hillary Clinton?
Sem dúvida. Eu já estive com ela. Tem uma grande cultura e conhecimento sobre os assuntos que importam. Tem imensa experiência, uma grande capacidade de empatia, tem uma vida inteira de serviço público. E do outro lado temos um homem que não fez nada a não ser ganhar dinheiro. Um tipo que se alimenta do seu próprio ego.

Ficou admirado quando viu Nigel Farage [político britânico, líder do UKIP, encabeçou a campanha a favor do brexit] numa ação de campanha de Donald Trump?
Não, não fiquei admirado, São o mesmo género de criaturas. Não tenho qualquer respeito por qualquer deles.

Vivendo nos EUA, as eleições para a Casa Branca ganham ainda mais importância para si. Já não se sente um extraterrestre legal [legal alien] como cantou em Englishman in New York [Nothing Like the Sun, 1987]?
Sou um cidadão britânico que vive em Nova Iorque. Para todos os efeitos, eu sou um legal alien. Sempre me senti um extraterrestre lá e vou continuar a sentir. E isso é bom. É bom para a minha criatividade. É bom ver o mundo a partir de uma cidade diferente da nossa. Dá-nos uma perspectiva diferente.

O tema das viagens, do movimento, das deslocações também é marcante nos seus discos. Heading South on The Great North Road, neste último, é uma metáfora da sua vida? Da sua carreira? Parece uma canção mais pessoal do que as outras.
Neste álbum eu represento alguns personagens. Adoto outros papéis, calço outros sapatos, que não os meus, e vejo o mundo através dos olhos deles. É o meu trabalho, neste disco: contar histórias diferentes, de pessoas diferentes, que saem da minha cabeça. Claro que há partes minhas nessas personagens. A minha experiência de vida está lá, também. Mas esta canção é diferente, sim. Bem visto. É talvez a canção mais pessoal deste álbum. Porque é sobre mim. Sobre a viagem que eu fiz. Tal como o Brian Johnson [AC/DC], o Mark Knopfler [Dire Straits] ou o Brian Ferry [Roxy Music]. Todos fizemos a Great North Road. É o nome da principal estrada que sai da região de Newcastle [Sting nasceu em Wallsend, a cinco quilómetros]. Para fazer fortuna, viver uma vida melhor, com menos sacrifício, ver mundo, era preciso ir para sul. Foi o que eu fiz. Fui ver mundo.

Tem 64 anos, corre o mundo a dar concertos. Quando lança um álbum, há fotografias novas suas a circular pela imprensa mundial e as pessoas perguntam sempre como consegue manter o bom aspecto. Faz exercício, tem cuidado com a alimentação?
Tenho 64 anos, mas não sinto que tenha 64 anos. Trabalho como um rapaz de 20 anos, 25. Com os mesmos músculos e empenho. Quando era miúdo fazia atletismo. Corria cem e duzentos metros, por isso tinha corpo de atleta e estava tonificado. Além disso, sou muito vaidoso. E sou muito disciplinado. Tenho um regime alimentar, faço exercício todos os dias. Hoje só falei e dei entrevistas, mas vou tentar fazer exercício mais logo. Ontem nadei. E faço muitas caminhadas.

Se não fizer exercício por três ou quatro dias, sente-se mal?
Sim. Sinto-me deprimido. Preciso de me manter ativo.


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O jornalista viajou a convite da Universal Music.

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