Entrevista de vida a David Ferreira

David Ferreira

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«O meu pai [David Mourão Ferreira] era muito mais bonito e tinha uma bela voz. Mais do que eu, são os outros que o reconhecem em mim.»

David Ferreira e música são sinónimos. Depois de uma carreira de 29 anos na edição fonográfica – primeiro na Valentim de Carvalho, empresa fundada por um tio-avô, depois como rosto da Emi – apaixonou-se pela rádio, onde assina dois programas de autor – A contar e A cena do ódio – na Antena 1. O que começou por ser um projeto para uma dúzia de programas já vai na 233ª edição. Música portuguesa e cantores esquecidos, acompanhados sempre por histórias, a lembrar os dias da rádio.

Em pequeno, contava-lhe a mãe, sabia distinguir Ravel de Bartok aos primeiros acordes. Adolescente, sonhava-se o empresário dos Beatles responsável por um regresso lendário da banda; aos 20, vendia discos na loja da Valentim de Carvalho, na Avenida de Roma, em Lisboa, trocando o curso de História pelo prazer de apresentar obras-primas a clientes que ainda hoje o recordam. Filho de David Mourão-Ferreira, houve um tempo, breve, em que quis ser poeta e escritor, mas temeu a comparação a que não conseguiria escapar. E a política, que a dada altura pensou seguir, redundaria uma enorme desilusão. Venceu a música. Ao longo de quase três décadas na edição fonográfica, lidou com artistas maiores e menores e decidiu sobre carreiras – teve muitas na mão. No fim, saiu com a amargura duma batalha perdida contra o download ilegal e em confronto com os poderes absolutos que foram tomando conta das editoras. Na rádio, onde é livre, consome a semana a preparar os programas que assina. Começou por aí esta entrevista. Foi no Hotel da Estrela em Campo de Ourique, o bairro onde vive, lisboeta nascido no Hospital dos Empregados do Comércio, ao Caldas, há 60 anos.

De segunda a sexta, na Antena 1 passa o A contar, uma rubrica de cinco minutos, muita música portuguesa e cantores esquecidos, uma viagem ao tempo da rádio ilustrada com um história, por vezes pessoal. É assim há mais de três anos. O que faz um bom programa de rádio?
Como ouvinte, procuro o que me prende e me revela; e dificilmente me deixo prender pelo que já sei. Como fazedor, gosto de descobrir e de suscitar esquinas e reflexos entre histórias de origens diferentes, entre histórias e músicas, entre músicas e músicas. Fico contente se consigo chegar onde quero; fico feliz se o ponto de chegada me surpreende.

A que fontes vai buscar tantas histórias?
Sou um pouco caótico nas buscas e nada tribal na escolha das fontes. Googlo muito. Vivo rodeado de livros e faço perguntas a livreiros e alfarrabistas. Às vezes lembro-me duma coisa antiga que requer confirmação. Acontece ter sorte mas também já perdi horas com pistas falsas e histórias engraçadas que se revelam improváveis. O bom é que um beco sem saída para um tema pode abrir uma janela inesperada para outro. Estou sempre a pedir socorro à memória generosa do Vítor Pavão dos Santos e do Hugo Ribeiro.

Que feedback tem de um programa em que passa canções de outros tempos?
Percebi que as rubricas eram ouvidas quando uma vizinha me disse no metro: «Imagine que eu não fazia ideia de que a Mariquinhas era prostituta!» É bom ter feedback, mas gostava de ter mais resposta quando arrisco hipóteses que me parecem novas; por exemplo, quando disse que me parece que o António Ferro e o Scott Fitzgerald chegaram na mesma altura, e sem influência entre si, à identificação dos anos 20 como «A Idade do Jazz».

Também na Antena 1, A Cena do Ódio, título de um poema de Almada Negreiros, já leva 235 edições. A rádio foi-se tornando uma compulsão?
A Cena do Ódio pode levar – entre preparação, gravação e mistura – umas doze horas ou mais; é o maior stress da minha semana. Durmo mal muitas vezes na noite antes de o gravar; mas depois tenho a sorte de encontrar em estúdio o engenho e a generosidade do produtor, António Santos, para ultrapassar obstáculos e ir para lá dos meus desejos. Uma vez, no verão, estava em casa a trabalhar num programa de canções sobre pássaros. Fiz uma pré-montagem no computador com muitas canções e alguns cantos de aves; desliguei o som, a certa altura, mas continuei a ouvir um rouxinol ou um melro; era um pássaro, à janela, a responder às minhas gravações.

O radialista de hoje é sobretudo conhecido por ter dirigido, de 1983 a março de 2007 a EMI-Valentim de Carvalho e depois a EMI Portugal. O percurso e a história começam em 1978, quando assume com o primo Francisco Vasconcelos a parte editorial da empresa fundada por Valentim de Carvalho, tio avô-materno de ambos. Que episódios recorda desses primeiros tempos?
Tantos. Nesses anos, havia na Valentim a ideia de que a rádio não gostava de nós. Ou por embirração dos locutores ou porque tinham relações preferenciais com outras editoras. Lembro-me de que quando levei à rádio o primeiro single da Kate Bush, um disco de que eu gostava muito, o comentário de Jorge Pego, que eu não conhecia, foi este: «os ingleses gostam de cada merda!». Saí, é claro, de orelha murcha e a pensar que o melhor seria desistir daquele trabalho. De volta ao escritório, dizem-me que o Jorge tinha passado o disco várias vezes em menos de 2 horas.

Moral da história?
Um bom disco faz milagres – e até amizades que ainda hoje duram.

 

«Poder é bom. Poder fazer o que achamos interessante. Poder transformar o sonho em projeto e poder passar do projeto à realidade. O verbo poder, quero eu dizer, é bom. O substantivo nem sempre.Se quem o exerce o entende como um fim, é uma lástima para os outros.»

Aos 24 anos, passou a lidar com alguns artistas que admirava e a quem, presumo, gostaria sobretudo de pedir um autógrafo. Lembra-se de algum caso?
Éramos realmente uns miúdos, eu e o meu primo Francisco. A quem, em ’79, o tio e patrão mandou tentar contratar, imagine-se, o Sérgio Godinho. Mais, de mãos a abanar, sem uma proposta que se visse. Mas, caramba, que alegria e vaidade almoçar com o Sérgio! Que, como esperado, recusou-se simpaticamente a assinar. Durante os anos que gravou para a Polygram não perdi um concerto dele no Coliseu. Em ‘89, finalmente, consegui contratá-lo e fui o seu editor até sair da EMI, em 2007. Sérgio Godinho é dos melhores escritores de canções do mundo.

Miúdos que rapidamente passam a ter nas mãos as aspirações de muitos. Como lidou com esse poder?
Poder é bom. Poder fazer o que achamos interessante. Poder transformar o sonho em projeto e poder passar do projeto à realidade. O verbo poder, quero eu dizer, é bom. O substantivo nem sempre. Se quem o exerce o entende como um fim, é uma lástima para os outros. E, mesmo a quem o detém o poder, impõe – ou quase impõe – rotinas chatas e muito tempo mal gasto.

Em 1981, três anos depois, conquistam uma quota de mercado invejável.
Em 1981, temos Rui Veloso, UHF, Trovante, Lena d’Água, GNR. Lembro-me que no Natal desse ano tudo nos corria muito bem. Por exemplo: Patchouly, do Grupo de Baile. Sabendo que a letra não passaria na rádio – não era habitual um disco a falar em «pentelhos» – lembrei-me de fazer uma versão «censurada» com «pi» que acabaria por fazer esgotar a versão sem «censura». Depois, apareceu também nessa altura uma cantora nova chamada Manuela Moura Guedes que vendeu 30 mil discos. A isto somavam-se êxitos dos Police e dos Duran Duran. Estávamos mesmo em alta e naquela época fazer um bom Natal significava praticamente fazer um bom ano. Mas não acabou aqui: completamente fora das previsões, a Maria Armanda vence o concurso Sequim d’Ouro (Zecchino d’Oro). Como não estávamos preparados e uma fita podia ficar meses na alfândega, o nosso diretor comercial, Pedro Moreira, lembrou-se de comprar uma cassete pirata para copiar. Fomos portanto piratas dos piratas e vendemos 100 mil discos da Maria Armanda.

Sobre os Police, um parêntesis: como foi viajar com a banda de autocarro, em ’80, até ao estádio do Restelo?
Andy Summers era o mais conversador, Stu Copeland estava calado e constipado e Sting, todo contente, brincava com uma navalha de ponta e mola que tinha conseguido comprar na Baixa; em Inglaterra seria impossível fazê-lo. O espetáculo, depois, foi inesquecível. Mas o melhor de tudo foi ver como Rui Veloso & a Banda Sonora fizeram uma primeira parte que o público adorou, sem aquela atitude de «p’ra português não é mau» mas com genuíno prazer. Muitos preconceitos morreram nessa noite.

Os primeiros concertos de bandas portuguesas foram feitos a medo?
Confesso que em vários espectáculos entrei com medo de a sala não esgotar. Mas depois correu tudo bem: por exemplo, Trovante e GNR, primeiro na Aula Magna e depois no Coliseu, a via sacra nos anos ’80, deram espetáculos emocionantes; e muitas oportunidades para quem veio depois.

Que lugar tem a Valentim de Carvalho na história da música portuguesa?
Miguel Esteves Cardoso, que foi nosso consultor depois de deixar a crítica de discos (em meados dos anos 1980) fez um dia um slogan sobre a Valentim que diz quase tudo: «a casa portuguesa da música». De facto, se olharmos para o último século, a Valentim deu abrigo a talentos e alimentou carreiras. E esse continua a ser o seu pedigree. O Chico (Francisco Vasconcelos), à beira dos 60 anos, continua a descobrir artistas novos – veja-se os casos recentes da Gisela João e do Salvador Sobral. A partir de certa altura, eu concentrei-me nas relações longas.

Relações longas obrigam a paciência e a diplomacia?
Muita diplomacia. Uns mais fáceis do que outros, em todas as áreas. Adorava ouvir as críticas do Alexandre Soares, dos GNR, e do João Nobre, dos Da Weasel. De vez em quando, o (Rui) Reininho batia-me nos jornais. Mas nunca me apeteceu responder. Se o meu trabalho era fazer com que gostassem deles, como podia fazê-lo? E ainda por cima era fã.

 

«Vejo uma editora como um carrocel e, por vezes, quando um artista se lamenta do pouco que ganha não está a contar a história completa. Antes de chegarem lá acima, quase todos fizeram perder dinheiro. Gastei com o Rui Veloso o que ganhei com o Marco Paulo, com os Madredeus o que ganhei com o Rui, com os Da Weasel o que ganhei com os Madredeus.»

Fale-nos dos mais difícieis.
Os Madredeus, muitas vezes. O Pedro Ayres Magalhães é brilhante mas é também das pessoas mais teimosas que há e estávamos numa época de verdadeira luta pelo poder: editoras de um lado; artistas e empresários, do outro. Foi um processo muito duro, mas no final fizemos bem o nosso trabalho, eles e nós. Um dia, num momento mais duro, pensei escrever as minhas memórias de editor e chamar-lhes O Sino: alto está, alto mora, todos o veem, ninguém o adora.

Nessas possíveis memórias, que constará sobre os Madredeus?
Um dia, uma colega que andava doente atrasou-se a processar os pagamentos aos Madredeus, os mais complexos, porque as receitas vinham de todo o mundo. Protestaram e quando percebi o que se passava desfiz-me em desculpas. O Pedro Ayres, visionário de trato muitas vezes áspero, tranquilizou-me: «estávamos preocupados, mas o problema não era contigo, sabemos que és dos nossos». A palmada nas costas soube bem.

Contratos. Os artistas, quase todos, se queixam do mesmo: sempre foram mal pagos.
Vejo uma editora como um carrocel e, por vezes, quando um artista se lamenta do pouco que ganha não está a contar a história completa. Porque também é verdade que, antes de chegarem lá acima, quase todos fizeram perder dinheiro. Sempre disse que gastei com o Rui Veloso o que ganhei com o Marco Paulo, com os Madredeus o que ganhei com o Rui, com os Da Weasel o que ganhei com os Madredeus. E uma boa carreira discográfica aumenta muitas outras receitas em que a editora não era parte interessada, espetáculos em particular.

O que define um bom editor?
Não é aquele que acerta sempre, mas o que tem um saldo interessante entre sucessos e falhanços. E, sobretudo, aquele que presta, continuadamente e sem sobressaltos de maior, o melhor serviço aos artistas.

Enganou-se muitas vezes?
Com os Delfins, por exemplo. Nunca pensei que fossem tão longe e pudessem ser, durante dois anos, a banda que mais «vendeu» em Portugal. Gravaram connosco (EMI), mas quando chegou a altura nada fiz para os manter. Tenho, contudo, a sensação de que não saberia fazer aquele sucesso com eles. A Mísia é outro exemplo: contratei-a para fazer o primeiro disco, mas escolhi mal o colega que trabalharia com ela; nunca se entenderam, não culpo nenhum, foi um erro meu de casting.

 

«Antes do nosso tempo (meu e do Francisco), a Valentim não agarrou um artista genial que por lá passou para gravar umas poucas canções: o José Afonso. Nesses casos, resta a virtude de aprender com os erros. Tenho pena de não o ter conhecido. A ele e ao Adriano (Correia de Oliveira).»

E um erro irreparável?
Antes do nosso tempo (meu e do Francisco), a Valentim não agarrou um artista genial que por lá passou para gravar umas poucas canções: o José Afonso. Nesses casos, resta a virtude de aprender com os erros. Tenho pena de não o ter conhecido. A ele e ao Adriano (Correia de Oliveira).

Mais penas?
Pena de nunca ter trabalhado com o Fausto, com o Max e com a Hermínia (Silva), por exemplo.

Rock português – que etiqueta chegou lá primeiro?
Não tendo sido os primeiros a gravar rock português (foi a Metrosom) fomos os primeiros a apostar a sério no rock português e em 1980 tínhamos dois grandes sucessos: Ar de Rock, de Rui Veloso, no verão, e o single Cavalos de Corrida, dos UHF, já no outono. Esse é um dos meus orgulhos. E mais: não só chegámos primeiro como ficámos. Em 82/85, durante a crise, fomos apanhar os Heróis do Mar, despedidos pela Polygram. Sorte: ficando com os Heróis do Mar, do Pedro Ayres Magalhães, ganhámos os Madredeus.

Tem uma banda de rock favorita, portuguesa?
GNR, sem dúvida nenhuma. E no fado também não hesito: Amália e Camané.

 

«Demorei muito tempo a perceber a gravidade do estado de saúde do António [Variações]; depois, afogado em trabalho, adiei o dia em que o iria visitar; nunca o vi no hospital e ainda sinto o remorso. Disso e dos telefonemas que ficaram sem resposta do Carlos Paião – um escritor de canções muito dotado e uma pessoa muito generosa – e do Tony de Matos, um intérprete fantástico; ambos me ligaram dias antes de morrerem inesperadamente.»

Qual é o lugar de António Variações?
Único: pelo talento e pela inovação. Julgo ter sido eu quem sugeriu o nome Variações a seguir a António, depois de ele me mostrar um cartão em que aparecia o nome do grupo, Variações, que de vez em quando o acompanhava. Ouvi o disco Estou Além/Povo que lavas no rio, na sala da alta fidelidade. Enviei-o logo ao Rock em Stock, na altura feito pela Ana Bola, que gostou muito. Passou-o na hora e foi um sucesso imediato. Fosse hoje e teríamos de marcar uma reunião com alguém que se julga muito importante e que poderia marcar ou não essa reunião. E ter medo de passar o que é diferente.

Uma batalha sua, antiga: as playlists.
Há responsáveis por playlists que se consultam entre si, em vez de fazerem concorrência uns aos outros. Não arriscam porque têm medo de ser despedidos por quebras de audiência. Naquele tempo, a rádio passava o que era bom. O Variações é um caso espantoso de adesão, que foi do Rock em Stock ao António Sala.

Contudo, esteve cinco anos na Valentim de Carvalho sem sair um disco.
Não tendo lidado com isso diretamente, sei que por vezes há que deixar as coisas amadurecer. O António precisou da geração seguinte, de ir para estúdio com o Ricardo Camacho, com os GNR ou com os Heróis do Mar. A propósito do António gostava de dizer algumas coisas.

O que quiser.
Demorei muito tempo a perceber a gravidade do estado de saúde do António; depois, afogado em trabalho, adiei o dia em que o iria visitar; nunca o vi no hospital e ainda sinto o remorso. Disso e dos telefonemas que ficaram sem resposta do Carlos Paião – um escritor de canções muito dotado e uma pessoa muito generosa – e do Tony de Matos, um intérprete fantástico; ambos me ligaram dias antes de morrerem inesperadamente. Por último, tenho muita vergonha de, no Festival em que venceu Sobe Sobe Balão Sobe, ter pateado o Nóbrega e Sousa, o autor da música. Um compositor daqueles – Sol de Inverno, por exemplo – deve ser celebrado pelas grandes melodias que faz.

O que lhe agrada em Tony de Matos?
Levo-o a sério. Cantava bem as palavras, era musical, não imitava ninguém e não dava voltinhas inúteis que nos distraiam. Por isso levo-o a sério.

 

«Quis muitas vezes ser um profissional frio. Nunca consegui. Não me é fácil fazer um trabalho bem feito se não houver coração à mistura. Tenho a ilusão de que cabeça e coração são igualmente necessários e possíveis.»

Voltando às memórias de editor, que outras histórias lá caberiam?
A certa altura descobrimos um erro no contrato do Rui Veloso. Telefonei ao João Nabais, o seu advogado, que confirmou o erro e pediu que nós mesmos colocássemos um «não» no sítio relevante. O Rui assinou de imediato. Sucede que naquela altura, 1991, o Rui representava 5 por cento do valor total do mercado e o erro não corrigido teria valido, naquele tempo, uns dez mil contos a seu favor. Os meus colegas americanos disseram-me que na terra deles uma história dessas seria impossível.

Como é que «sacam» o Camané?
Contratei o Camané a pedido – discreto que ela não precisava de mais – da Amália. «Aquele rapaz está no caminho certo», disse-me; e bastou. Fui contratá-lo com o João Teixeira (hoje diretor da Warner Music) ao Café Concerto da Comuna. Assustou-nos dizendo que havia um problema: «Eu só canto isto». «Chega, não precisamos de mais!», dissemos aliviados. De facto, o Camané queria explicar-nos que não era dado a malabarismos, a exibições gratuitas de capacidades vocais. E esse é «o caminho certo».

Profissionalmente, conseguia uma abordagem racional ou tinha de gostar do trabalho dos artistas (e até dos próprios)?
Quis muitas vezes ser um profissional frio. Nunca consegui. Não me é fácil fazer um trabalho bem feito se não houver coração à mistura. Tenho a ilusão de que cabeça e coração são igualmente necessários e possíveis.

Há um breve poema de seu pai sobre essa perplexidade. («Nós temos cinco sentidos: são dois pares e meio de asas. – Como quereis o equilíbrio?»)
E é porque me revejo nessa perplexidade que penso tantas vezes nesse poema.

O equilíbrio impossível?
O poema sublinha, por um lado, essa impossibilidade e a precariedade da razão; por outro, o desejo de equilíbrio. Essa angústia e essa procura percorrem a obra do meu pai. E interessa-me muito, também.

Que mais herdou do pai?
O apreço pela independência. Releio com frequência Jogo de Espelhos, um livro de aforismos do meu pai. Como eu gostava de saber colocar as coisas assim!

Vê o seu pai quando se olha ao espelho?
De vez em quando. Mas o meu pai era muito mais bonito e tinha uma bela voz; eu não tenho. Mais do que eu, são muitas as pessoas que o reconhecem em mim.

Gravou o último disco de poesia dele. É nesse altura que ele confessa: «afinal, o meu filho conhece a minha obra».
Um disco de poesia não é fácil de vender e seria um péssimo exemplo eu correr esse risco com o meu pai; decidi gravá-lo porque houve uma encomenda prévia da Cruz Vermelha. Entretanto, o meu pai adoeceu. Achava que eu não conhecia nem apreciava a sua obra e gostou de perceber que estava enganado; tive a sorte incrível de nos podermos despedir daquela forma.

Nunca quis ser escritor ou poeta?
Quis ser poeta, mas essa fase acabou pouco antes de entrar na faculdade.

Mostrava o que escrevia ao pai?
Às vezes. O que eu escrevia era mau e pesado. Ainda tentei escrever pequenos contos, mas sempre tive e tenho uma falta de confiança enorme. Acho que sou eficaz a escrever para a rádio, mas nas coisas literárias tenho medo.

O medo da comparação?
Um medo horrível.

A música chegou-lhe pelo pai ou pela mãe?
A minha mãe, que trabalhava na Valentim de Carvalho, levava-me muitas vezes para o trabalho. E eu ficava na loja da Rua Nova do Almada a ouvir discos. Contava ela que um dia, era ainda muito pequeno, pedi a uma empregada o Bolero de Ravel. Sem me prestar atenção, a senhora terá posto o primeiro disco de música clássica que encontrou ao que eu terei contraposto: «Isso não é Ravel, é Bela Bartok». Histórias de mãe! Foi a minha quem cedo me encheu a casa de discos – eu quis sempre ouvi-los a todos.
Ou quase.

Nunca tentou ser músico?
Tentei mas desisti depressa. Tinha 17 anos. Uma senhora que me ensinava piano disse-me a rir: «Nunca encontrei ninguém com tanta falta de jeito».

Nesse idade ouvia seguramente Beatles.
Aos 17 anos o meu herói era Elton John. E Beatles, claro. Gostava tanto que a separação deles era assunto que me preocupava todos os dias. Sonhava com isso. Num dos sonhos, eu era o empresário que os reunia de novo. No fim do liceu, descobri Brel e Amália; aos 20 anos, Sinatra. Hoje, oiço coisas muito diversas. Mas não gosto de ouvir o que é postiço.

Qual é a melhor canção dos Beatles?
Não sei escolher. Gosto tanto das canções curtas, felizes e directas do primeiro filme, Hard Day’s Night, como do pesadelo elaborado do I Am the Walrus.

Que vozes o comovem?
Brel é um dos meus heróis. Choro a ouvir Brel. Graças ao Luís Cília, conheci Léo Ferré, entrevistei-o um ou dois dias depois dum espetáculo no Coliseu, onde tive muitas vezes os olhos húmidos. Perguntei-lhe por que mudara a letra duma canção no espetáculo. Fez um ar zangado. Disse-me que não mudara nada. Insisti, assustado com a reação dele: «No disco ouve-se ”revolução” e no espetáculo cantou “insurreição”. Talvez agradecido por ter um fã tão atento, respondeu-me com o sorriso mais simpático que vi num artista: “A revolução não serve para nada, dá-se uma volta inteira e volta-se ao ponto de partida. A insurreição é o que é preciso!”»

 

«Ainda pensei seguir a política. Inscrevi-me num partido uma única vez na vida. Em 1975, no PS. Tenho um medo natural das verdades absolutas. Mal por mal, prefiro a democracia representativa, nunca acreditei no poder popular. Sempre fui social-democrata – o que hoje é ser um radical de esquerda!»

A revolução de 1974 apanhou-o na faculdade de Letras, aluno de História. O que o levou a trocar uma carreira académica pela empresa familiar?
Basicamente, deixei o curso a meio por duas razões – a primeira, porque aos 19 anos chumbei devido a um desgosto de amor, a segunda, porque aos 20, já depois do 25 de Abril, não gostei do clima que se instalou. Nada contra o 25 de abril, tudo contra os oportunistas do dia 26.

Comecemos pelo desgosto de amor.
O namoro durou só uns 9 dias. Mas o fim deu desgosto e não conseguia estudar. De tal maneira que passei a véspera do exame a ler A Capital, do Eça de Queirós. De manhã, liguei ao meu pai, a avisar que ia perder o ano – o meu pai com essa idade já tinha perdido dois mas disso só me apercebi mais tarde. E justifiquei: «tenho um desgosto de amor e passei a noite a ler o Eça de Queirós».

Sabia, evidentemente, que o pai ia apreciar os motivos.
Eram razões que o meu pai não contestaria. Mas, quando chumbei, sempre foi dizendo que o ano seguinte era para fazer.

Fez?
Bem, eu até ia com boa média mas com o 25 de abril chegaram as passagens administrativas e uma falsa avaliação contínua. Não gostei. Não acreditava nem acredito em facilidades. Acabei por me afastar.

Começa por trabalhar numa loja de discos da Valentim.

Vou trabalhar aos 18 para o balcão da loja da Avenida de Roma, onde fui muito feliz. Para quem, como eu, tem uma enorme necessidade de empatia, o balcão é um sítio bestial. Era uma loja muito eficiente e divertida, aprendi imenso. Apresentei muitos músicos a muitos clientes e o contrário também aconteceu.

Nunca mais ponderou outro caminho?
Ainda pensei seguir a política. Fui soarista radical durante o PREC mas depois vi o Mário Soares fazer coisas muito feias e desiludi-me. Inscrevi-me num partido uma única vez na vida. Em 1975, no PS. Tenho um medo natural das verdades absolutas e de repente havia novas verdades absolutas que não eram melhores que as velhas verdades absolutas. Mal por mal, prefiro a democracia representativa, nunca acreditei no poder popular e, ao contrário de outros, depois não precisei de inverter caminho. Sempre fui social-democrata – o que hoje é ser um radical de esquerda!

 

«Saí da edição fonográfica com a amargura duma batalha perdida contra o download ilegal. Não me choca, em teoria, uma sociedade onde a propriedade não exista; agora os discos e os livros e os jornais e os filmes serem de todos, enquanto tudo o resto – incluindo a educação e os transportes e a saúde – é dos bancos e de meia dúzia de empresas, custa a aceitar.»

Um diploma hoje faz falta?
Faz. Não fez falta enquanto trabalhei numa editora de discos que era da minha família ou depois de criar nome na área, mas hoje gostava de ter concluído o curso. E estudar ainda me atrai. Gosto muito de aprender.

Sai da EMI em 2007. Porquê e com que amarguras?
Saí da edição fonográfica com a amargura duma batalha perdida contra o download ilegal; do resultado da guerra tratarão outros e torço sempre pelos autores, artistas e editores. E não me choca, em teoria, uma sociedade onde a propriedade não exista; agora os discos e os o livros e os jornais e os filmes serem de todos, enquanto tudo o resto – incluindo a educação e os transportes e a saúde – é dos bancos e de meia dúzia de empresas, custa a aceitar.

Diz em várias entrevistas que o incomoda – e combate – o poder absoluto. Na EMI, trabalhou com ingleses e americanos. Encontrou esse tipo de poder?
Na EMI, durante muito tempo, conheci uma tradição inglesa de poderes limitados e que nos ensinava a respeitar artistas, clientes e empregados. Mas lidei também com empresas americanas antipáticas (a Disney, por exemplo), com tiques imperiais. E, a partir de 2001, vi na própria sede da EMI instalar-se um estalinismo grosseiro: o CEO deslocava-se num Roll’s Royce com a matrícula EMI 1, dá para acreditar?!

Quis ser editor independente. Não conseguiu.
Tentei durante uns três anos, mas burro velho não aprendeu essa língua, azar o meu; aprendi, sim, a confrontar-me com a arrogância duma certa distribuição, que se afirma cultural; encontrei portas fechadas e sumidades que sabem usar a crise a seu proveito; cheguei a sentir-me um «has been» e paguei a fatura de teimosamente desalinhar.

Quem lhe restou, nesses dias?
Numa entrevista de rádio tive um elogio muito generoso do José Nuno Martins; o Rui Pego e o Luís Marinho foram conversando comigo nos tempos difíceis; e o Rui convidou-me para fazer um programa na Antena 1. Hoje faço três.

Afirmou há uns anos que não sabia se a música era profissão ou vício. Sabe agora?
Ainda não. Talvez seja as duas coisas. Um dos melhores chefes que eu tive na EMI dizia que a maioria das pessoas tem trabalhos chatos para ganhar a vida e poder comprar os brinquedos de que gosta, sejam relógios, carros, roupa cara. Enquanto que alguns de nós, eu por exemplo, trabalhavam com os próprios brinquedos.

 

David Ferreira

FADISTICES

«A Amália não era minha artista, de gravações novas tratava só com o meu tio, Rui Valentim de Carvalho, que tinha por ela uma grande paixão, o que podia levá-lo a entusiasmos irrefletidos. Há um disco – Amália no Coliseu – que não deveria ter sido publicado porque é um mau disco; mas ele teimou. No entanto, olhando para trás, o meu tio teve muitas e muitas vezes razão e foi um editor exemplar da Amália. Embora eu estivesse rodeado de pessoas muito próximas dela – o meu tio, o meu pai e o meu padrinho João Belchior Viegas, seu empresário – creio que só a descobri aos 16 ou 17 anos; e a maioria das razões porque hoje gosto de Amália não as intuía na altura, talvez nem aos 40».

«Na altura em que começou a escrever para a Amália, o meu pai era ainda muito jovem, pouco reconhecido. Há uma história reveladora que me foi contada pela filha de um antigo professor catedrático da Faculdade de Letras, não se apercebendo da triste figura do seu pai quando um dia, dirigindo-se ao meu, lhe disse: “Ó David, deixe-se de fadistices e trate mas é de se doutorar” (O meu pai era professor assistente e só mais tarde foi nomeado professor extraordinário para fazer exames de doutoramento – foi até um dos primeiros casos assim)»

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