OPINIÃO

Entrevista a Celso Cruzeiro

«Uma queimadura dura toda a vida»

Celso Cruzeiro é médico cirurgião plástico e presidente da Associação Amigos dos Queimados.

Foi ainda diretor da unidade de queimados dos Hospitais da Universidade de Coimbra durante mais de vinte anos.Tem sido uma voz ativa na luta dos direitos dos queimados chamando a atenção para o papel da prevenção de acidentes deste tipo.

O que faz, ao certo, a Associação Amigos dos Queimados (AAQ)?
Fazem parte desta associação, criada em 1995, médicos, enfermeiros, advogados, doentes, psicólogos. É uma associação aberta a todas as pessoas, tanto as que trabalham em unidades de queimados como as que se interessam pela temática. Está sediada em Coimbra e tem núcleos por todo o país.

Quais os objetivos da associação?
Pretendemos ajudar as vítimas de queimaduras na sua reinserção social, psicológica e no regresso à vida ativa. Quando as vítimas são crianças, ajudamo-las no regresso à escola. A queimadura constitui um traumatismo muito grave que envolve mazelas físicas e psicológicas. Há que fazer um trabalho muito grande com estas pessoas para que possam voltar a viver da melhor maneira possível. Costumamos dizer que uma queimadura dura toda a vida… No entanto, nem todas têm o mesmo tipo de impacto ou sequelas.

As queimaduras graves têm vindo a aumentar ou a diminuir em Portugal?
Existem muitas queimaduras tratadas em meio ambulatório e em hospitais que não são centrais, pelo que acabamos por não ter uma moldura muito grande ao nível estatístico. Existem cinco unidades de queimados em Portugal: Hospital de São José e Hospital de Santa Maria (Lisboa), Hospitais da Universidade de Coimbra e Hospital de São João e Hospital da Prelada (Porto). Estas unidades tratam anualmente cerca de 600 a 700 queimados graves em Portugal. Calculamos que o dobro destas pessoas sejam tratadas em outras unidades hospitalares por exigirem menos recursos e cuidados mais simples.

No que respeita às queimaduras infantis, qual o atual panorama?
Notámos uma grande diminuição no número de crianças queimadas nos últimos anos. O grupo desde o primeiro ano de vida até aos 4 era muito preocupante para a associação, nomeadamente, devido a queimaduras com eletricidade ou água quente.

A que se deve essa diminuição?
Este decréscimo decorre da melhoria das condições económicas em Portugal, bem como do trabalho de prevenção desenvolvido pela AAQ. Temos levado a cabo algumas ações de sensibilização em escolas de todo o país e junto dos meios de comunicação social. A própria evolução cultural de Portugal tem sido benéfica nesse sentido.

Tem sido uma luta da associação a criação de um centro de cuidados para crianças queimadas em Portugal…
Os queimados infantis são tratados de uma forma especial em hospitais pediátricos, mas não existe uma unidade pediátrica específica. É uma das nossas lutas atuais. Gostaríamos que as nossas crianças fossem tratadas numa unidade especial de queimados, pois ao nível dos adultos os serviços espalhados pelo país conseguem dar a resposta adequada.

A sociedade ainda não está preparada para os queimados graves? Estas pessoas ainda são olhadas de lado?
O processo de recuperação destes doentes é duro e longo. Muitos deles precisam de um acompanhamento mais prolongado porque há quem não consiga ver-se com a nova imagem e com sequelas na face. Há doenças que são socialmente mais aceites. Uma queimadura no corpo é muito difícil de recuperar podendo originar sequelas para toda a vida. Sob o ponto de vista social, não há muito apoio, e ainda persiste um grande estigma associado às queimaduras

«AJUDAR ESTÁ-LHE NA PELE»
A La Roche Posay tem em vigor, desde 15 de fevereiro, uma campanha com o objetivo de apoiar a Associação Amigos dos Queimados. A iniciativa prolonga-se até 6 de março, dada a adesão dos consumidores. Por cada produto da marca vendido, um euro será doado para a compra de vestes compressivas e para atuação ao nível de educação para a prevenção de queimaduras infantis. «Com o dinheiro angariado, vamos arrancar com uma ação de sensibilização nacional e estamos a discutir com as direções de algumas escolas as melhores estratégias e datas», diz Celso Cruzeiro.

Cláudia Pinto
Fotografia: Fernando Fontes/Global Imagens